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E o Gini, como fica?

Pena que a maioria dos brasileiros não pode fazer como Paulo Guedes.

Conversa de Mercado / 18:34 - 24 de Mai de 2019

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Enquanto o governo conclama as ruas, o Congresso aprova projetos por conta própria, e Guedes coloca seu cargo à disposição, caso a Reforma da Previdência não seja aprovada, os economistas agora descobriram que a década de 2011 a 20 foi mais que perdida em termos de PIB. A tecla não poderia ser diferente, após dois anos de contração forte na economia, a mediocridade do incremento do PIB em 2017, 2018 e neste ano, é insuficiente para compensar as perdas provocadas enquanto os políticos brincavam de greve.

Ao não aprovarem as propostas de reformas do ex-ministro de Dilma Joaquim Levy, ou do ex-ministro de Temer Henrique Meirelles, os congressistas fadaram o Brasil a patinar. Desde 2015, o enfretamento do problema do conflito distributivo tem sido adiado. Portanto a dívida pública cresce como uma bola de neve.

Em março, a dívida pública federal em títulos, que inclui os débitos do governo dentro do Brasil e no exterior, registrou aumento de 1,15%, para R$ 3,917 trilhões. A expectativa da Secretaria do Tesouro Nacional é de o endividamento chegue R$ 4,3 trilhões no fim do ano. Já a Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, projeta que a dívida pública bruta sobre PIB atinja 100% do PIB em 2026.

A intolerância do atual presidente, Jair Bolsonaro, que, esfaqueado no passado, agora esfaqueia a todos, impossibilita que haja uma coesão em torno de medidas que levem o governo a encontrar os tais 4% do PIB, cerca de R$ 300 bilhões, para fechar as contas públicas e sair do déficit para o superávit. Mas o fato é um: nenhuma das medidas que precisam ser tomadas para que isso aconteça agradarão a população, que já sofreu mazelas demais por conta da crise econômica que corroeu a renda do brasileiro.

De acordo com estudo da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a crise desta década foi pior para as classes mais baixas da população, ampliando as desigualdades sociais e a concentração de renda. Considerando apenas o período de 2015 até o momento, a parcela mais pobre teve sua renda reduzida em 22%. Enquanto nos últimos sete anos, a renda acumulada dos mais ricos aumentou 8,5%; a dos mais pobres caiu 14%. Já a desigualdade medida pelo índice de Gini, chegou no último trimestre a 0,627, o maior patamar da série histórica iniciada em 2012.

Uma das causas é o aumento do desemprego, provocado pela instabilidade econômica causada pelo lado político. Com a flexibilização das leis trabalhistas e a falta de vagas no mercado informar, a desigualdade de renda só tende a aumentar. Basta observar o número de pessoas que obtém renda informalmente através da oferta de serviços informalmente. Agora, a nova onda de tecnologia supre as necessidades, mas se quebrar uma perna... A família vive como.

Aliada à conjuntura econômica deve ampliar ainda mais a disparidade de renda a tal Reforma da Previdência. Com o aumento do tempo de contribuição exigido em uma sociedade que vive cada vez mais na informalidade, não se pode esperar outra coisa a não ser um novo aumento do índice de Gini nos próximos anos. Até porque, os que mais dependem da aposentadoria são os trabalhadores de menor renda.

É o famoso trade off: ou se prioriza a renda da população ou as contas do governo e a necessidade de sanear as contas públicas. A reforma proposta pelo governo prevê uma economia de R$ 1,2 trilhão, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, reconhece que há uma margem de negociação, que pode chegar a R$ 800 bilhões.

Mas para Guedes, não há problema algum. “Se não fizermos a reforma, o Brasil pega fogo. Vai ser o caos no setor público, tanto no governo federal como nos estados e municípios. Pego um avião e vou morar lá fora. Já tenho idade para me aposentar”, disse em entrevista. Pena que a maioria dos brasileiros não tem a mesma condição.

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