‘Dois Papas’, diálogos extraordinários

Por Paulo Alonso.

Opinião / 16:08 - 16 de jan de 2020

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Dois Papas é um filme extraordinário não somente pela direção irretocável do brasileiro Fernando Meirelles, como, também, pelas atuações brilhantes dos atores Jonathan Pryce, que interpreta o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, pouco antes de o religioso argentino se tornar o Papa Francisco, e Anthony Hopkins, que encarna o Papa Bento XVI, antes Cardeal alemão Ratzinger. O roteiro do neozelandês Anthony McArten, atuações, fotografia, montagem e música funcionam muito bem, e o resultado é a qualidade cinematográfica exibida.

O longa-metragem conta a história do então cardeal argentino Jorge Bergoglio que, desiludido com o rumo da Igreja Católica, decide pedir sua aposentadoria ao Papa Bento XVI. Passando alguns dias juntos em um verão em Castelgandolfo, os dois discutem suas diferentes ideologias, reforma x tradição, além de peculiaridades sobre suas personalidades, gostos, times de futebol, e, até mesmo, confessam alguns de seus pecados um ao outro. Ainda que pareça que as filmagens aconteceram na Capela Sistina, no Vaticano, a produção não conseguiu filmar em seu interior e precisou criar uma réplica da estrutura ainda maior e tão bela quanto.

O filme mostra os diversos encontros entre o então Papa Bento XVI e o então Cardeal Bergoglio. Baseando-se em fatos, os encontros não ocorreram da forma como foram retratados no filme, e as discussões filosóficas entre os dois são formas de colocar em cena as questões pelas quais a Igreja Católica atravessa no início do século XXI. Na vida real, Bento XVI nunca se encontrou com o cardeal para discutir sua renúncia e sucessão. Não é à toa que o filme está sendo indicado a três Oscars: melhor roteiro adaptado, melhor ator e melhor ator coadjuvante.

 

O Papa Francisco é uma das vozes

mais importantes do mundo atualmente

 

Jonathan Pryce disputa a cobiçada estatueta com Antonio Banderas (Dor e Glória), Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em... Hollywood), Adam Driver (História de um Casamento) e Joaquin Phoenix (Coringa). Já Anthony Hopkins compete com Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança), Al Pacino (O Irlandês), Joe Pesci (O Irlandês) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em... Hollywood).

Na categoria melhor roteiro adaptado, Anthony McCarten, de Dois Papas, enfrenta os roteiristas de O Irlandês (Steven Zaillian), JoJo Rabbit (Taika Waititi), Coringa (Todd Phillips e Scott Silver) e Adoráveis Mulheres (Greta Gerwig).

Pontuado por diálogos espirituosos, escolhas musicais surpreendentes e com olhares para o Brasil – a então presidente Dilma aparece rapidamente em uma das cenas e também são mencionados Dom Helder Câmara e Paulo Freire – o longa, dentre as citações que faz, vai até São Francisco, “qualquer jornada, por mais gloriosa que seja, pode começar com um erro”, para talvez justificar o envolvimento do então Cardeal Bergoglio com a ditadura de seu país.

O filme desmitifica o homem e religioso argentino, mostrando o personagem com defeitos, como uma figura controversa na Argentina, possivelmente conspirando com a ditadura. Tem a oportunidade de também mostrar uma imagem do homem, que é um homem do povo que representa o povo e quer fazer mudanças na estrutura da igreja e levar as pessoas de volta às igrejas.

O Papa Francisco é uma das vozes mais importantes do mundo, pois fala sobre a conservação do planeta, aborda com energia a questão social e está empenhado em construir pontes entre religiões e culturas, enquanto vários querem construir muros.

O ator britânico Jonathan Pryce, 73 anos, é sempre elogiado pela crítica por sua versatilidade, tendo participado de grandes produções do cinema norte-americano, como Evita, onde interpretava o ex-presidente argentino Perón. Também atuou em Tomorrow Never Dies, Pirates of the Caribbean e The New World. A partir de 2015, entrou para o elenco da série de televisão Game of the Thrones, interpretando o Alto Pardal.

Já Sir Philip Anthony Hopkins, 83 anos, também britânico, é considerado como um dos maiores atores em atividade. Participou de filmes importantes como The Lion in Winter, The Elephant Man, Thor, 84 Charing Cross Road, Dracula, Legends of the Fall, The Remains of the Day, Amistad, Nixon e a série de TV Westworld. Os filmes de Hopkins se espalharam por uma variedade de gêneros, de filmes para a família até terror. Foi feito cavaleiro pela Rainha Elizabeth II, em 1993. Recebeu também uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, em 2003. O personagem que desempenhou em O Silêncio dos Inocentes, o canibal Dr. Hannibal Lecter, foi classificado como o maior vilão da história do cinema, pelo American Film Institut.

Dois Papas, pela qualidade da película, merece ser visto, revisto, observado e compreendido. Os diálogos dos dois atores são densos, com olhares expressivos, movimentos pausados; fotografia correta e iluminação perfeita. Cenários espetaculares, como os que foram construídos para a Capela Sistina. Tudo isso sob um som musical que dá ainda mais brilho ao desenvolvimento de toda a narrativa.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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