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Diva Beatriz Segall sai de cena

Opinião / 13 Setembro 2018

Beatriz Segall morreu, aos 92 anos, deixando órfã uma legião de fãs que, ao longo de seis décadas, acompanhou o trabalho dessa atriz talentosa e que dignificou sua carreira com total comprometimento. Os muitos papéis que encarnou, no teatro, na televisão e no cinema, ficarão para sempre registrados nas mentes dos brasileiros.

Versátil e generosa com os colegas, La Segall, sinônimo de elegância, será lembrada, sobretudo, pela interpretação da vilã Odete Roitman, na novela Vale Tudo, de Gilberto Braga, televisionada há 30 anos. Manipuladora e arrogante, a personagem acumulou inimigos na trama e foi assassinada nos últimos capítulos do folhetim da TV Globo, provocando um dos maiores mistérios da história das telenovelas, pois todos queriam saber quem afinal havia matado a personagem que interpretada com brilhantismo.

Beatriz Segall estava internada no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com problemas respiratórios.

 

Morre um ícone de sofisticação,

elegância e inteligência

 

A malvada foi tão marcante na carreira de Beatriz que, mesmo anos mais tarde, ela continuava sendo chamada de Odete nas ruas. Em uma das várias entrevistas que me concedeu, Beatriz, sempre carinhosa e simpática, além de muito charmosa, comentou com certo orgulho: “Sempre me encabulo quando tenho que falar sobre Odete Roitman, fico com medo de parecer pretensiosa, e tenho certeza de que não sou, mas acho que ninguém na televisão brasileira recebeu um presente tão grande como esse”.

E de fato esse personagem marcou a carreira de Beatriz definitivamente. Nenhuma outra atriz teria criado um personagem tão vigoroso e tão cheio de nuances, como o concebido pela artista. Mas como tudo na vida, até mesmo os bons presentes podem resultar em “problemas”, ela comentou: “Tive grande dificuldade para conseguir me descolar da imagem de mulher rica e chique que Odete fez ficar gravada na cabeça dos telespectadores. Eu queria fazer o papel de uma mulher, pobre, povão, mas o público jamais aceitou”.

Por essa razão, os autores só a escolhiam para viver mulheres sofisticadas na telinha. E esse papel ela fazia com enorme desembaraço, sabedoria e convicção. No fundo, Beatriz era de fato uma mulher de grande classe e de extremo bom gosto, não somente no seu estilo de ser e de viver, como em atos, posturas e gestos. Por isso, voltou a viver mulheres elegantes em Sonho Meu, Anjo Mau e Lado a Lado, por exemplo.

Sua estreia, na Globo, aconteceu dez anos antes de Vale Tudo, em Dancin’ Days, outra novela que marcou época na dramaturgia nacional. Voltou à tela, em grande destaque, em Pai Herói e Água Viva. Por um período saiu da emissora de Roberto Marinho e foi trabalhar na Bandeirantes, na qual atuou em Ninho da Serpente.

Voltou a Globo para fazer Sol de Verão, Champagne, Barriga de Aluguel, De Corpo e Alma, O Clone e Esperança. Levou sua arte também para a Manchete, e lá apareceu em Carmen, e Bicho do Mato, na Record. Seu último papel na telinha foi há três anos em Os Experientes. A história contava quatro episódios sobre a terceira idade. Beatriz, de peruca e bengala, interpretava uma idosa que era surpreendida por um assalto em uma agência bancária. Fantástico!

Sua trajetória começou nos palcos na década de 50, quando atuou no monólogo Le Bel Indifférent, de Jean Cocteau. Com a companhia Os Artistas Unidos, fez Um Cravo na Lapela, de Pedro Bloch, e Jezebel, de Jean Anouilh.

Deu uma pausa na década seguinte para estudar na França, bolsista que foi do governo francês, na Universidade Sorbonne. Casou-se com Maurício Segall, filho de um dos mais importantes artistas plásticos Lasar Segall, com quem teve três filhos.

Seu retorno ao teatro aconteceu em Andorra, de José Celso Martinez. Participou de montagens importantes como O Inimigo do Povo. Nos anos 80, consolidou-se como um dos maiores nomes do teatro com o monólogo Emily, de William Luce, que se concentra na vida da poeta americana Emily Dickinson. O papel rendeu a Beatriz o Troféu Mambembe de melhor atriz do teatro brasileiro, que ela voltou a conquistar três anos depois, com O Manifesto, de Brian Clark, e em Três Mulheres Altas, de Edward Albee.

Continuou ativa no teatro e, mais recentemente, em 2015, atuou em Nine, um Musical Felliniano. Lá, estive para aplaudir de pé o talento mágico e impressionante de Beatriz, sempre amável e sorridente. Ela teve uma atuação bem discreta na tela grande, mas participou de filmes memoráveis como O Cortiço, Diário da Província, Pixote, a Lei do Mais Fraco e Romance.

Querida e respeitada pelos colegas, admirada, por sua versatilidade, pelo público, Beatriz Segall foi homenageada no hospital e na cremação. Uma multidão de fãs compareceu ao seu velório, levando flores e lembrando seus papéis mais relevantes.

Morre, assim, um dos maiores talentos das artes dramáticas do Brasil. E ela seguiu para encontrar-se com Tônia, Yoná, Marília, Eva e Nair. Beatriz está agora no firmamento, rodeada por outras estrelas da mesma grandeza. Morre, com Beatriz, um ícone de sofisticação, elegância e inteligência.

 

 

Paulo Alonso

Jornalista e dirigente universitário.