Ditadura branca

Será que o IBGE se manterá intacto divulgando os dados de desemprego e do PIB de forma independente?

Conversa de Mercado / 19:15 - 9 de ago de 2019

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Não basta a crise comercial entre China e Estados Unidos que abala o mundo todo e provoca volatilidade em todo o mercado financeiro mundial, o governo brasileiro consegue agravar o quadro contaminando a imagem do país. Vive-se atualmente uma espécie de ditadura branca, onde quem confronta a presidência paga, desde o torcedor do Corinthians a até o presidente da OAB.

As declarações e medidas são dignas de mordaça e fazem com que as perspectivas de que a mudança veio para estabilizar a economia caiam por terra. Só bolsominions agora acreditam nisso, vide as perspectivas para o crescimento do PIB, os dados de desemprego e os níveis do dólar. A máquina pública tem virado uma espécie de castigadora daqueles que criticam o governo e os anúncios estão aí para provar.

Nos primeiros dias de agosto, polêmicas não faltaram e são tantas que não cabem nesta coluna. Começa pelo diretor do Inpe Ricardo Galvão, exonerado por determinação do próprio presidente, após a divulgação de dados sobre o aumento do desmatamento da Amazônia neste ano, classificados como mentirosos pelo próprio presidente. Após a mudança, que garantia se tem que os dados a serem anunciados no futuro não serão maquiados pelo governo? “O Inpe sempre atuou de forma extremamente técnica e cuidadosa. A demissão de Ricardo Galvão é significativamente alarmante”, declarou Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa à agência internacional BBC News Brasil.

Mas, não satisfeito, Bolsonaro ataca outras frentes. Ele confirmou nesta sexta que pretende transferir o Coaf, hoje vinculado ao Ministério da Economia, para o Banco Central, para tirar o órgão do jogo político. A instituição investigou recentemente operações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Antes, o Coaf havia sido dado ao Ministério da Justiça, ficando sob o aval de Sérgio Moro. O Congresso, entretanto, não aceitou a mudança e devolveu à pasta da Economia.

A gana de Bolsonaro em castigar aqueles que não são seus seguidores não parou por aí. Ainda esta semana, a Petrobras suspendeu seu contrato com o escritório de advocacia do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. O motivo nem foi disfarçado, pois quem ganha uma causa trabalhista fazendo a empresa poupar R$ 5 bilhões deve ser, no mínimo competente. “Eu havia falado já, nem era para ter esse contrato. Não é porque era ele, é porque a Petrobras não precisa disso: dar dinheiro para um cara da OAB que recebe recursos bilionários e não é auditado por ninguém”, declarou Bolsonaro à imprensa. O cancelamento ocorreu logo após o presidente ter atacado o advogado que o confrontou sobre o desaparecimento do pai durante a ditadura militar.

Com relação à imprensa, não podia ser diferente. “Se o excesso jornalístico desse cadeia, todos vocês estariam presos agora, tá certo?”, declarou o presidente nesta sexta-feira. Esta semana, foi assinada a Medida Provisória 892/2019, que altera a Lei das S/A (Lei 6.404, de 1976) e permite que empresas de sociedades anônimas abertas ou fechadas divulguem seus balanços e demais documentos de publicação obrigatória apenas nos sites da CVM, da própria empresa e da bolsa de valores onde são negociadas. Antes, era obrigatória a publicação dos documentos no órgão oficial da União ou do estado e em jornal de grande circulação editado na localidade em que está situada a sede da companhia. O governo avalia estender a MP para editais vinculados ao serviço público. As medidas, segundo o próprio presidente, são uma “retribuição” à forma como foi tratado pela imprensa durante a campanha eleitoral.

Exemplos de perseguição do governo não faltam. À revelia da democracia, a proposta não é usar tortura, cadeia, pena de morte ou exílio, mas o poder econômico. A economia, na visão de Bolsonaro, vai maravilhosamente bem. Os números estão aí para desmentir, mas será que o IBGE se manterá intacto divulgando os dados de desemprego e do PIB de forma independente? Até quando a ira pessoal do presidente vai atrapalhar a governabilidade do país?

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