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Disrupção no mercado de capitais

Enquanto a safra de resultados do segundo trimestre do ano vem agradando os investidores com aumento da lucratividade, é preciso estar com o...

Conversa de Mercado / 10 Agosto 2018

Enquanto a safra de resultados do segundo trimestre do ano vem agradando os investidores com aumento da lucratividade, é preciso estar com o pé atrás com relação ao futuro. A “disrupção”, palavra usada para descrever inovações que oferecem produtos diferenciados e criam um novo modo de alcançar os consumidores, tem desestabilizado empresas até então líderes, ameaçado todos os setores e exige mais cuidado na hora de escolher uma ação. As empresas que estão investindo menos em tecnologia podem até dar resultados imediatos, mas a conta vai ser paga depois.

A pesquisa da Fortune demonstra a rapidez com que as mudanças vêm ocorrendo. Das 500 maiores corporações de 60 anos atrás, apenas 12% ainda existem. O número de anos de permanência na lista também tem diminuído. Em 1955, o prazo médio era de 60 anos. Na década de 80, passou para 30. Atualmente, é de menos de 15. “Esta nova era do compartilhamento tem parecido ser um jogo onde o ganhador leva tudo, e as oportunidades são poucas e para um número limitado de players. Quem não se atentar a este momento e quem não estiver disposto a fazer bom uso das ferramentas tecnológicas vai perder mercado”, afirma Domingos Monteiro, CEO da Neurotech, em entrevista à Revista RI.

Quando busca precificar um ativo, a análise financeira sempre parte do passado para projetar o futuro. Sabe-se que o mercado financeiro possui ferramentas bem estruturadas que observam o desempenho, capacidade de gestão, econômica, financeira, logística das empresas, mas que não abrangem aspectos especificamente ligados à revolução digital. Além dos cálculos dos múltiplos, tornou-se necessário utilizar outros critérios para o enriquecimento da análise, como o perfil dos gestores, sua experiência e a tecnologia aplicada.

Assim, a própria tese de investimento está num processo disruptivo. “É preciso considerar coisas que não são convencionais hoje. As projeções de valuation em mercados disruptivos são diferentes. Como prever os fatores e as taxas de descontos em mercados que estão sendo superados?”, diz Fábio Gonsalez, CEO do Torq, iniciativa da Senior Solution dedicada a concretizar projetos de inovação de serviços financeiros.

É preciso estar envolvido no mercado de inovação e ir além do fluxo de caixa gerado. Assim, investidores devem estar conectados ao sistema de informação e aplicarem em fundos de private equity ou venture capital para se posicionarem no mercado de ações. O objetivo, neste caso, não é obter retorno, mas saber o que as novas empresas novas estão fazendo e como isso vai influenciar determinados setores.

Para as empresas, ao mesmo tempo que não é possível ficar de fora, os investimentos em processos disruptivos são elevados e com retornos incertos. Estudo da consultoria McKinsey mostra que 70% das tentativas de inovação fracassam. Isto significa resultados menores no presente e, por consequência, menos dividendos e até a desvalorização das ações no curto prazo. Mas também não se sabe se, no futuro, o sacrifício será compensado.

Há um claro conflito de interesses. Uma coisa é o empresário fazer uma aposta; outra é o investidor ter informações suficientes sobre esta aposta e aportar recursos nela. Um investidor de longo prazo precisa analisar os números da empresa para ver quanto ela está aportando em tecnologia, pois a economia de hoje que gera resultados positivos pode representar a morte de amanhã. O problema é enxergar a saída com a rapidez que o cenário exige.

A microeconomia tradicional já previa que, no longo prazo, o lucro econômico das empresas tenderia a zero, não só daquelas que se encontram em concorrência perfeita. Para manter os ganhos acima do custo de oportunidade sempre foi preciso inovar constantemente. Agora, dentro da Revolução 4.0, a inovação é questão de sobrevivência e o investidor deve se atentar cada vez mais a este fato.