Dia Nacional da Língua Portuguesa e 170 anos de Ruy Barbosa

Por Paulo Alonso.

Opinião / 18:12 - 7 de nov de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Duas grandes datas foram festejadas, pelo Lions Clube Internacional, na última terça-feira, dia 5 de novembro, quando se comemorou o Dia Nacional da Língua Portuguesa e os 170 anos de aniversário de Ruy Barbosa. Na ocasião, foi promovido o seminário “A Relevância da Língua Portuguesa e as oportunidades de intercâmbio” e, ainda, debatida a figura extraordinária do Águia de Haia e seu legado social e político.

O Brasil é o único país no continente americano a ter o português como língua oficial, ficando assim linguisticamente isolado, já que até mesmo os países vizinhos, em razão do processo colonizador, falam o espanhol.

Além de Portugal, país do qual o Brasil herdou não só o idioma, mas também aspectos culturais, outros países pelo mundo adotaram a língua portuguesa como idioma oficial. Ao todo, nove países fazem parte do chamado mundo lusófono, adjetivo que classifica os países que têm o português como língua oficial ou dominante: Angola, 29,78 milhões de habitantes; Brasil, 209,3 milhões de habitantes; Cabo Verde, 546,388 mil habitantes; Guiné-Bissau, 1,861 milhão de habitantes; Moçambique, 29,67 milhões de habitantes; Portugal, 10,31 milhões de habitantes; São Tomé e Príncipe, 204.327 mil habitantes; Timor-Leste, 1,296 milhão de habitantes; e Guiné Equatorial, 1,268 milhão de habitantes

São 230 milhões de falantes da língua portuguesa espalhados em quatro continentes. A língua portuguesa, apesar de estar presente em um vasto território, abrange uma área descontínua, fator que provoca diferenças consideráveis na gramática, pronúncia e vocabulário do idioma.

 

Lions Clube quer ver o português

como um dos idiomas oficiais da ONU

 

Por esse motivo, para preservar a unidade linguística nos países lusófonos, foi criado o Acordo Ortográfico, que unificou a grafia das palavras da língua portuguesa. Tal medida visa facilitar a circulação das publicações no idioma e promover a coesão entre as variedades linguísticas.

Unificar a grafia não traz nenhum prejuízo à língua falada, já que cada país apresenta uma rica e diversa cultura que influencia nos falares de seus habitantes. Até mesmo no Brasil, com suas dimensões continentais, não existe padronização na modalidade oral, pois cada região tem sua própria história e um vocabulário específico.

Com a intenção de aumentar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países lusófonos, foi criada, em 1996, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Nessa comunidade, o Brasil figura como principal representante, uma vez que é o país com o maior número de falantes da língua. Isso significa que, graças à representatividade de país na CPLP e perante a comunidade internacional, deve-se zelar pelo idioma e promover sua divulgação.

E para falar sobre tema tão importante, o Lions Internacional convidou o acadêmico Antonio Carlos Secchin, que proferiu a conferência “A relevância da Língua Portuguesa: Paixões, Conflitos e Harmonia”. Poeta, ensaísta e crítico literário, Secchin, que é membro da Academia Brasileira de Letras, deu uma aula sobre o tema, empolgando a todos os participantes.

Ele percorreu a trajetória da língua portuguesa, desde Luiz de Camões e Fernando Pessoa, passando por Olavo Bilac, Joaquim Nabuco, Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, João Cabral, Drummond de Andrade, Cecilia Meireles até cruzar sua impressionante narrativa com Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego, dentre outros.

Um dos mais respeitados poetas do Brasil, Secchin tem oito livros publicados, entre eles Desdizer, de 2017, com sua poesia reunida. Em 2018 publicou, na área da literatura infantil, O galo gago, finalista do Prêmio Jabuti 2019.

Na sequência, o acadêmico Jorge Luiz Dodaro, da Academia de Letras, Artes e Ciências dos Lions Clubes, falou sobre a importância do legado de Ruy Barbosa que, se vivo fosse, estaria comemorando, dia 5 de novembro, 170 anos. Ruy foi político, diplomata, jornalista e jurista, tendo representado o Brasil na Conferência de Haia e reconhecido como “O Águia de Haia”.

O grande tema, na ocasião, foi a criação de uma corte permanente de justiça. Com seus longos discursos e atacando a classificação dos países pela sua força militar, Ruy Barbosa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, conquistou o respeito das nações.

Membro do Partido Liberal, participou de comícios nos teatros e praças, defendendo eleições diretas, liberdade religiosa e regime federativo. Em 1877, com o partido em alta, ingressou na Câmara Baiana e, no ano seguinte, no Parlamento do Império. Empenhou-se pela reforma eleitoral, pela reforma do ensino e pela libertação dos escravos sexagenários. Ruy retornou ao jornalismo em março de 1889. Tornou-se redator-chefe do Diário de Notícias. Na luta pelo regime federativo, começou a afastar-se do Partido Liberal.

Nesse mesmo ano, durante o governo de Deodoro da Fonseca, exerceu as funções de ministro da Fazenda. Dois fatos marcaram sua passagem: a Constituição de 1891, quase toda de sua autoria, e o encilhamento. Depois de graves crises e violenta inflação, Ruy Barbosa deixou o governo.

Em 1893, Ruy Barbosa assumiu a direção do Jornal do Brasil, onde combatia o governo de Floriano Peixoto. Em 1895, foi eleito para o Senado. Em setembro, eclodiu a Revolta da Armada. Mesmo sem ligação com o movimento, foi acusado de apoiá-lo e obrigado a exilar-se na Inglaterra. Em 1895, de volta do exílio, lutou pela anistia aos punidos por Floriano.

Ruy Barbosa foi lançado candidato à Presidência da República em 1909, mas o escolhido foi o Marechal Hermes da Fonseca. Em 1919, seu nome surgiu com fortes possibilidades de ser indicado pelo Partido Republicano, mas se recusou a comparecer à convenção; mesmo assim obteve 42 votos.

As obras de Ruy Barbosa são atuais. E, dentre elas, nesses tempos bicudos nos quais a democracia não é respeitada e quando tresloucados pregam o regresso do nefasto AI-5 e não respeitam a liberdade de impressa, é sempre bom lembrar os ensinamentos de Ruy, sobretudo os contidos nas obras Oração aos Moços, A Imprensa e o Dever da Verdade, Ruy Barbosa e a Constituição, O Dever do Advogado e A Questão Social e a Política no Brasil. Aliás, seria oportuno que os dirigentes do Brasil se debruçassem sobre esses tratados...

Para Afrânio Peixoto, Ruy Barbosa foi um “libertador de cativos, defensor de oprimidos, educador do povo, reformador da pátria, apóstolo de todas as causas liberais. O maior entre os seus, no seu tempo”.

E assim, durante toda a última terça-feira, foram debatidos os rumos da Língua Portuguesa e de seus países, nesse evento promovido pelo Lions Internacional, que teve como um dos principais objetivos mobilizar ações para que o português seja reconhecido como um dos idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas. Atualmente, são reconhecidos pelo organismo o inglês, francês, russo, espanhol, chinês e o árabe.

Durante o Fórum, também foi ressaltada a importância histórica, política, social, ética e humana de Ruy Barbosa, com debatedores abordando sua vida, obra e legado e traçando, ao mesmo tempo, paralelos dos tempos vividos por ele com os dias atuais do Brasil. Uma jornada rica, de muito conteúdo e profundo aprendizado.

Paulo Alonso

Jornalista, é chanceler da Universidade Santa Úrsula.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor