Advertisement

Dia Internacional da Mulher: Brasil claudica mas segue avante

Por Mércio Gomes.

Opinião / 11 Março 2019 - 18:20

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Não é de hoje, nem nasceu com o movimento sufragista há quase um século, nem no movimento feminista a partir da década de 1960, que se percebe no Brasil uma ascensão progressiva da mulher nos âmbitos do poder em nossa sociedade tradicionalmente patriarcal.

Muitos podem lembrar de Nísia Floresta, como uma das primeiras mulheres brasileiras a conversar, debater e se fazer presente em círculos intelectuais de peso, primeiro, surpreendentemente em Natal e no Rio de Janeiro, depois em Paris, por volta de 1850.

A vontade da mulher por se fazer presente na literatura, nas ciências e nas profissões já vinha de algum tempo, sobretudo na aristocracia tupiniquim (emulando as aristocracias europeias), mas foi se espalhando pelas classes médias. Apesar do patriarcalismo, do catolicismo e do positivismo, que reservavam à mulher um espaço sociocultural apenas na área do afeto e do sentimento.

 

Estamos num assustador momento de

impasse em relação à ascensão feminina

 

Por sua vez, a mulher da classe trabalhadora, a mulher rural, a mulher das periferias pobres das cidades, sempre estiveram presentes no trabalho de ganhar o pão para seus filhos e suas famílias. Estas há muito que tinham todas as condições sociais de se emancipar da tutela masculina, e muitas de fato assim o fizeram.

A ascensão mais vertiginosa e contundente da mulher que se deu a partir da década de 1960, com a expansão da participação do mundo do trabalho externo à casa, trazendo uma liberdade de ação e comportamento nunca dantes experimentado por aqui, nem alhures, provocou uma reação muito grande por parte do homem, à qual ainda hoje o país paga um preço muito alto em atos de agressão e assassinatos contra as mulheres. O tradicional patriarcalismo virou uma virulenta forma de machismo.

Eis que, passado tanto tempo, estamos num grande e assustador momento de impasse na sociedade e cultura brasileiras em relação à ascensão feminina. Algo há que se fazer para derrubar definitivamente as barreiras à participação definitiva, livre e consciente, da mulher em um ponto de igualdade em direitos com os homens.

No meu livro O Brasil Inevitável, que em breve estará nas livrarias, tratei dessa tema no capítulo final. Eis o trecho (pp. 397-99):

Exceto por uma minoria ínfima de sociedades igualitárias – que nunca passaram pela mó da desigualdade social, na qual a individualidade do ser resplandece na coletividade –, o mundo vive no desigualitarismo social. Uns poucos homens e mulheres detêm mais riqueza e mais poder do que uma maioria substancial das sociedades contemporâneas. Isto traz infelicidade e agressividade. Em alguns aspectos econômicos e políticos, essa desigualdade tem aumentado, em outros, diminuído.

A internet auspicia uma janela de comunicação entre as mais diferentes pessoas, o que pode ajudar no processo de diminuição da desigualdade se, ao menos, outros fatores econômico-culturais emergirem, como a diminuição da ânsia consumista e a horizontalização das relações sociais. Um cidadão mundial pode estar emergindo, com uma individualidade própria, indefinida ainda nos termos sociológicos conhecidos. Contudo, a internet, a informática (em termos gerais) e seus novos robber barons detêm um inédito e incomensurável poder de controle e manipulação.

O homem novo há de surgir no Brasil, já queria o estrangeiro Vilém Flusser. Mas esse homem não é propriamente um homem como tal, mas um homem-mulher, isto é, um homem com qualidades femininas e, ao mesmo tempo, uma mulher com qualidades masculinas, gratia plena aos baianos Pepeu Gomes e Gilberto Gil.

Com efeito, essa mulher já vem surgindo há mais tempo que o homem. À custa de muito sacrifício pessoal, ela emerge com uma força telúrica de quem quer compensar os milhares de anos perdidos, a desigualdade imposta pelo patriarcado e pelas formas prévias do poder masculino. É uma mulher que desenvolve suas qualidades que haviam sido reprimidas ou embutidas no âmago do seu ser, agora em explosão. Qualidades como ousadia, decisão e determinação para realizar tarefas antes alocadas ao homem; qualidades como clareza, sistematicidade e liderança no trabalho, antes domínio masculino.

Tudo isso está se dando a partir de uma qualidade já por demais feminina, a criatividade para pensar o diferente e duvidar do mais evidente. Enquanto isso, o homem masculino está mais devagar no seu processo de recriação e vai lentamente incorporando as qualidades mais tradicionalmente femininas, como não se acomodar na certeza de suas ações, relativizar o seu ego narcísico e adquirir um senso melhor de responsabilidade pela vida e pela comunidade.

O importante para nós, brasileiros, é que a mulher brasileira não só acompanha essa tendência mundial, mas, em muitos aspectos, está à frente desse movimento em outros países ditos desenvolvidos. A mulher brasileira está majoritariamente nas universidades, em todas as ciências e profissões, inclusive as tradicionalmente masculinas, como as engenharias e a matemática, nos ofícios mecânicos e na coleta de lixo, nas Forças Armadas e nos sínodos religiosos.

Na política ela ainda se retrai, em parte porque não está disposta a participar da corrupção de origem patrimonialista, em parte porque a agressividade masculina tem se intensificado muito nos últimos tempos. Haverá de aumentar nos próximos anos. É auspicioso que essa mulher conte com a simpatia e o apoio da mulher mais velha, suas mães e avós, que, se no primeiro momento se escandalizaram com o ímpeto e o alcance da liberdade feminina, hoje se rendem à ousadia de suas filhas e netas e sentem que algo importante está acontecendo na sociedade. O senso mais profundo feminino é o da continuidade da vida e da sociedade, e isso leva à busca de entendimento entre contendores. Políticos e juízes femininos melhorariam em muito a justiça e a ética no país.

Vendo essa mulher, não podemos esquecer de que muito antes dessa insurgência feminina já havia no Brasil a mulher trabalhadora que apanhava algodão e café no campo, que hoje sai de casa para arrumar as casas das patroas e vender acarajé nas ruas, e havia a mulher sacerdotisa dos candomblés e das pajelanças com seus filhos e filhas de santo debaixo da saia, e havia a mulher livre para o amor com quem a atraísse. Se essa mulher não é vista como responsável pela emergência da mulher atual, ela está aí e para além de si, como uma pioneira e um símbolo do potencial feminino.

No momento em que o homem e a mulher brasileiros adquirirem qualidades inatas e instintivas mútuas, o ser brasileiro dará um salto de qualidade para trabalhar pela melhoria da sociedade. A mulher certamente está fazendo a sua parte, mas o faz também facilitada por uma abertura tácita do homem e da ampla sociedade para isso acontecer. Então, mulher e homem estão de algum modo se entendendo, ao menos por meio de sinais, como em uma nova dança de acasalamento. Valerá ainda mais quando eles se entenderem por atos conscientes.”

 

 

Mércio Gomes

Ph.D em Antropologia, presidiu a Funai entre 2003 e 2007. Atualmente leciona na UFRJ. Autor de diversos livros, mantém o blog O Brasil Inevitável.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor