Desmonte da pesquisa e do ensino

Empresa-Cidadã / 08 Agosto 2017

O golpe pró corruptos imposto ao país deixa clara a intenção de subordinar ainda mais o Brasil aos interesses do capital internacional, em especial aos interesses norte-americanos (cadê o pré-sal que estava aqui? Tio Sam comeu), através da relação estabelecida com a ciência produzida intramuros. De forma perseverante, vêm sendo asfixiados os institutos de pesquisa e universidades, através de cortes orçamentários.

 

Esta é a opinião de Ildeu de Castro Moreira, físico, pesquisador lotado no Instituto de Física da UFRJ, ex-chefe do Departamento de Popularização e Difusão da C&T do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (2004 a 2013) e novo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), empossado no final de julho. Além de defasado, o orçamento da C&T sofreu o contingenciamento de 44% (restando assim R$ 2,5 bilhões) que corresponde a 25% do orçamento de 2010.

 

Dos 252 programas estratégicos realizados pelos institutos de pesquisa e universidades brasileiros, apenas 101 têm sido contemplados. Descontingenciar o orçamento de C&T e vitalizar o de 2018 são necessidades para voltar aos níveis de normalidade.

 

Além dos recursos minguantes, Ildeu refere-se também aos ataques à autonomia universitária e à intenção de descaracterizar a Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), criada com a missão de produzir conhecimento vocacionado para a região. A intenção da descaracterização é tornar a Unila um puxadinho dos interesses do agronegócio.

 

Na assembleia geral da SBPC, foi aprovada moção de repúdio a este atentado que se pretende cometer contra a Unila e contra a América Latina, bem como contra a sangria a que é submetida a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

 

Manifesto da Escola Paulista de Medicina

A Congregação da Escola Paulista de Medicina (EPM) apresentou à sociedade brasileira e à comunidade acadêmica um manifesto, denominado “Até quando sobreviveremos?”. Alguns trechos são apresentados a seguir, pelo seu caráter elucidativo. Manifesta preocupação com a continuidade da Universidade pública de qualidade e socialmente referenciada, em particular com a formação dos profissionais de saúde, tanto na graduação, quanto na pós-graduação e na produção de conhecimento.

Temos sofrido sucessivos cortes orçamentários que comprometem nosso funcionamento e a permanência de nossos estudantes. Mesmo com todos os esforços, e não foram poucos, de busca de recursos, de aprimoramento de sua utilização, de implantação de estratégias de gestão, estes não estão sendo suficientes para a manutenção de uma instituição com 80 anos de trabalho, reconhecido nacionalmente e internacionalmente”.

A EPM vê hoje faltarem recursos para a limpeza básica das suas salas de aula, de seus laboratórios, e vê o seu hospital universitário (Hospital São Paulo) quase fechando as portas. Os cortes financeiros sofridos pelo Hospital se agravaram ainda mais com o ato unilateral do Ministério da Saúde de suspender o repasse da verba prevista para os Hospitais Universitários (REHUF). Além dos danos incalculáveis para o ensino e a pesquisa, compromete-se o cuidado de milhares de pacientes que deixam de ser atendidos no complexo hospitalar de alta complexidade”.

São políticas inaceitáveis de encolhimento protagonizada por gestores e políticos sem formação técnica e o humanismo necessários para enfrentar as necessidades do cenário atual. Um quadro de barbárie, que afeta os alicerces de uma conceituada Escola Médica Pública, que prejudica os cursos de graduação, de pós-graduação e os mais de mil residentes médicos e multiprofissionais em treinamento em nossa Escola”.

Uma Universidade não fica menor apenas diminuindo sua área física, uma Universidade encolhe se minarem as suas cabeças, o seu custeio, ou, se não tiver número adequado de servidores – professores e técnico-administrativos – qualificados. Este é nosso grande risco”.

País ético, com condições dignas de vida e de trabalho não se faz sem priorizar a Educação Pública, que só alcançará qualidade se junto a ela houver uma forte pesquisa sendo produzida em consonância com as necessidades sociais”. (São Paulo, 25 de julho de 2017)

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o executivo estadual, com a colaboração da Alerj, continua o desmonte das suas Universidades (a Uerj, a Uezo e a Uenf). Seus professores e técnico-administrativos continuam sem receber seus vencimentos de maio, junho e julho, além do 13º salário de 2016. Em uma política explícita de terra arrasada, também não recebem como deveriam recursos para custeio da manutenção, expondo alunos, técnicos e professores a riscos e condições de trabalho sub-humanas, o que levou a Uerj a suspender o reinício das atividades, até que condições dignas possam ser restabelecidas.

 

Há 72 anos

Há 72 anos, era destruída por um artefato nuclear a população da cidade japonesa de Nagasaki. O algoz teve três dias para pensar no terror que provocaria, depois da destruição de Hiroshima, com a mesma arma, mas preferiu continuar. Barbárie.

 

Paulo Márcio de Mello é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br