Desigualdades de gêneros e raças no Brasil

Empresa-Cidadã / 07 Março 2017

Divulgado nesta semana, pelo Instituto de Economia Aplicada (Ipea), o relatório “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, abrangendo as séries de 1995 a 2005.

No estudo, pode ser lido que as mulheres no Brasil, nos últimos 20 anos, trabalharam, em média, 7,5 horas a mais que os homens, por semana. Em 2015, a jornada total média das mulheres era de 53,6 horas, enquanto a dos homens foi de 46,1 horas. Em relação às atividades não remuneradas, mais de 90% das mulheres declararam realizar atividades domésticas, proporção que se manteve quase inalterada ao longo das duas últimas décadas, assim como a dos homens (em torno de 50%).

Pelo estudo, quanto mais alta a renda das mulheres, menor a proporção das que realizaram afazeres domésticos. Entre aquelas com renda de até um salário mínimo, 94% dedicavam-se aos afazeres domésticos, contra 79,5% entre as mulheres com renda superior a oito salários mínimos. Em situação inversa estão os homens. A parcela dos que declararam realizar trabalho doméstico é maior entre os de renda mais alta, a saber, 57% dos que recebiam de 5 a 8 salários mínimos diziam realizar esses afazeres, proporção que cai a 49% entre os que tinham renda mais baixa.

Rendimentos

Apesar de, proporcionalmente, o rendimento das mulheres negras ter sido o que mais se valorizou entre 1995 e 2015 (80%), e o dos homens brancos ter sido o que menos cresceu (11%), a escala de remuneração manteve-se inalterada em toda a série histórica: homens brancos têm os melhores rendimentos, seguidos de mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, nesta ordem. A diferença da taxa de desocupação entre sexos também merece registro Em 2015, a feminina era de 11,6%, enquanto a dos homens atingiu 7,8%. No caso das mulheres negras, ela chegou a 13,3% (e 8,5% para homens negros).

Chefia dos lares

Os lares brasileiros, cada vez mais, estão sendo chefiados por mulheres. Em 1995, 23% dos domicílios tinham mulheres como pessoas de referência. Vinte anos depois, esse número chegou a 40%. Cabe ressaltar que as famílias chefiadas por mulheres não são exclusivamente aquelas nas quais não há a presença masculina: em 34% delas, havia a presença de um cônjuge.

Paralelamente ao aumento do número de famílias chefiadas por mulheres, houve uma gradativa reconfiguração dos tipos de arranjos familiares. Se, em 1995, o tipo mais tradicional, formado por um casal com filhos, respondia por cerca de 58% das famílias, em 2015 esse percentual caiu para 42%, tendo aumentado de maneira significativa o número de domicílios com somente uma pessoa e também o percentual de casais sem filhos.

Emprego

A quantidade de trabalhadoras domésticas com até 29 anos de idade caiu mais de 30 pontos percentuais no período analisado. De 51,5%, em 1995, para 16%, em 2015. No entanto, o emprego doméstico ainda era a ocupação de 18% das mulheres negras e de 10% das mulheres brancas no Brasil, em 2015. Já a renda das domésticas saltou 64% nesses 20 anos, atingindo o valor médio de R$ 739,00, em 2015. Porém, mesmo com esse crescimento, ainda estava abaixo do salário mínimo, que, à época, era de R$ 788,00.

O número de trabalhadoras formalizadas também aumentou. Em 1995, 17,8% tinham carteira; em 2015, a proporção chegou a 30,4%. A análise dos dados da Pnad, no entanto, sinalizou uma tendência de aumento na quantidade de diaristas no país. Elas eram 18,3% da categoria, em 1995, e chegaram a 31,7%, em 2015.

Escolaridade

Nos últimos anos, mais brasileiros e brasileiras chegaram ao nível superior. Entre 1995 e 2015, a população adulta negra com 12 anos ou mais de estudo passou de 3,3% para 12%. Entretanto, em 2015, o patamar alcançado pelos negros era o mesmo que os brancos tinham, já em 1995. A população branca, quando considerado o mesmo tempo de estudo, praticamente dobrou nesses 20 anos, variando de 12,5% para 25,9%.

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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