Desigualdade ou injustiça?

Faturamento com cobrança de tarifas bancárias supera orçamento da educação.

Empresa Cidadã / 19:29 - 20 de ago de 2019

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Que o Brasil é um país que tem renda e riqueza fortemente concentradas nas mãos de pouquíssimos, todo mundo sabe. Que o Brasil tem uma longa História de escravismo também é sabido. Mas qual o desenho que esta formação assumiu no presente?

O estudo “A escalada da desigualdade”, apresentado há um ano pelo Centro de Políticas Sociais da FGV, mostra que o 1% mais rico da população teve quase 10% do seu poder de compra incrementado, desde o final de 2014. Conforme o estudo, a concentração foi acentuada desde então. São 17 semestres aferidos e em todos eles o fosso entre ricos e pobres só aumentou. Enquanto a renda da metade mais pobre da população caiu 18%, a renda do 1% mais rico teve cerca de 10% de acréscimo de poder de compra.

O estudo levou em conta os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), apurados pelo IBGE nas residências brasileiras, e o índice Gini, como medida da desigualdade. Este índice, quanto mais próximo de um, mais desigual é o país considerado. A série, apurada no Brasil desde 2012, teve no 4º trimestre de 2014 a sua medida mais favorável (0,6003), mas no segundo trimestre de 2019 retrocedeu (0,6291).

 

Quem é o pobre

Os mais pobres caracterizam-se predominantemente por viverem nas Regiões Norte e Nordeste, por serem jovens (20 a 24 anos), negros e analfabetos.

 

Onde o boi está na sombra

Sem nenhuma intenção de esgotar os motivos do fenômeno da desigualdade, expressão econômica de processos políticos deliberados, já há alguma dissimulação na denominação. Por que desigualdade e não injustiça, iniquidade ou discriminação?

Tomando-se como exemplos os bancos Bradesco, Itaú e Santander, os três maiores bancos privados no país, verificou-se, no caso do primeiro, um lucro líquido de R$ 15,7 bilhões, em 2017, e de R$ 19,1 no ano seguinte. O Itaú, por sua vez, encerrou 2018, com um lucro líquido de R$ 25 bilhões e de R$ 24 bilhões, em 2017. E o Santander encerrou 2017 com o lucro líquido de R$ 9,9 bilhões e 2018 com o lucro líquido de R$ 12,4 bilhões.

Só com o faturamento de tarifas cobradas por serviços bancários, os bancos brasileiros apuraram R$ 126,4 bilhões, em 2017, mais do que os orçamentos federais da saúde (R$ 114,8 bilhões), ou da educação (R$ 109 bilhões). E os bancos ainda podem ganhar a Previdência, agora por capitalização...

 

Filantropia com cobertura de controvérsia

O câncer infantojuvenil é a primeira causa de morte por enfermidade na faixa etária de 5 a 19 anos, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). As chances de cura da doença evoluíram nos últimos 30 anos, saltando de cerca de 15% para 65%, atualmente. Em alguns casos, pode chegar a 85%.

O programa Casas Ronald McDonald, coordenado no Brasil pelo Instituto Ronald McDonald, parte da constatação de que muitas crianças e adolescentes precisam viajar grandes distâncias para receber atendimento médico. Os seus acompanhantes, por falta de recursos para acomodação, chegam a desistir do tratamento. O conceito deste programa é “uma casa longe de casa”, já que oferece hospedagem, alimentação, transporte e suporte psicossocial aos pacientes e seus familiares, ausentes de suas cidades de origem em função do tratamento. A primeira Casa Ronald McDonald do Brasil e da América Latina foi inaugurada no Rio de Janeiro, em 1994, existindo outras casas em Belém (PA) e São Paulo (ABC, Moema, Jahu e Campinas).

Todas as casas beneficiam milhares de crianças, adolescentes e seus familiares. São custeados por diferentes modos, como parcerias com empresas, doações, cofrinhos (presentes em todos os caixas dos restaurantes e quiosques McDonald’s) e, principalmente, pela campanha McDia Feliz.

Nela, todo recurso arrecadado com a venda de sanduíches Big Mac (exceto alguns impostos), vendido separadamente ou na McOferta de Big Mac, além de materiais promocionais confeccionados pelas instituições participantes são revertidos para instituições de apoio e combate ao câncer infanto-juvenil de todo país. Desde 1988, o McDia Feliz tornou-se o dia de maior movimento em mais de 600 restaurantes McDonald’s, contando com uma mobilização de cerca de 30 mil voluntários.

Os recursos têm viabilizado a implantação de unidades de internação, ambulatórios, salas de quimioterapia, casas de apoio e unidades de transplante de medula óssea, entre outros projetos. Todos os projetos apoiados pelo Instituto Ronald McDonald são auditados (disponível em instituto-ronald.org.br/index.php/instituicoes-e-projetos/projetos-apoiados).

A filantropia empresarial, uma das consequências e características da formação do pensamento empresarial norte-americano, atua fortemente na criação, desenvolvimento e manutenção de um grande número de iniciativas benemerentes, bem diferente de como é percebida no Brasil, onde chega a ser pejorativamente chamada por alguns de “pilantropia”.

Este ano, o McDia Feliz acontecerá no sábado, 24 de agosto. Se não contrariar os seus princípios, compareça...

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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