Desencontros

Conversa de Mercado / 11 Agosto 2017

Já é consenso de que a meta fiscal não passava de um cálculo errôneo para inglês ver. Assim como Dilma deixava a meta "aberta", a equipe econômica de Temer não se comporta de maneira diferente, para a decepção dos investidores e agências de classificação de risco. Ao assumir o governo, houve o reconhecimento de que o déficit não era próximo de R$ 100 bilhões, mas algo em torno de R$ 170 bilhões. O valor chocou a todos, e muitos acusaram que esta seria uma forma de continuar a ampliação dos gastos. As críticas, entretanto, foram amenizadas pelo anúncio de que, nos próximos anos, o problema poderia ser equacionado.

Para este ano, previu-se que os gastos superariam a receita em R$ 139 bilhões, mas esse valor também fica bem abaixo da realidade. A nova meta a ser proposta não será muito aquém da de 2016 tanto neste ano quanto no próximo (cerca de R$ 160 bilhões). A mudança nesse sentido torna-se apenas uma confirmação de que, assim como no governo Dilma, a Lei de Responsabilidade Fiscal consta apenas no papel.

Fica evidente a diferença entre os discursos iniciais e a realidade atual. Ao assumir a Fazenda, Meirelles, declarou que faria uma política fiscal "transparente e realista" e que não apenas declararia intenções, mas sim uma meta crível. Hoje, já se comenta que mesmo o rombo de R$ 160 bilhões será difícil de ser entregue. Para o próximo ano, fechar as torneiras dos gastos públicos será ainda mais complicado, diante da iminência das eleições, o que por si só gera aumento de investimentos por parte do governo.

Diante desse quadro, aumentam as chances de a nota do risco-brasil ser novamente rebaixada pelas agências – o viés é negativo –, o que afeta ainda mais a credibilidade da equipe econômica que tem se mostrado inepta quando o assunto é corte de gastos e recuperação da economia. Quando a meta de déficit fiscal foi traçada, era esperado um crescimento econômico em 2017 acima de 1%. Agora, aguarda-se um incremento do PIB de 0,3%.

Longe da realidade ou tapando o sol com a peneira, Temer disse nesta sexta-feira que o Brasil vai recuperar, "logo, logo", seu grau de investimento. Vale a pena lembrar que o déficit fiscal é um dos principais fatores monitorados pelas agências para definir o risco para investimento em um país. Na busca pela credibilidade, ele afirmou ainda nesta semana que "não mente ao povo brasileiro" e que são tomadas "medidas rigorosas" para equilibrar as contas públicas.

O presidente ainda enfiou os pés pelas mãos quando falou sobre a possibilidade de criar de uma nova faixa de tributação do Imposto de Renda da Pessoa Física. A ideia era aumentar a alíquota cobrada das rendas superiores a R$ 23 mil mensais para 35%. Logo depois,  amenizou o fato ao afirmar que não enviaria tal proposta ao Congresso. A tributação das rendas mais elevadas, entretanto, seria uma saída menos traumática para a economia do que o aumento dos preços dos combustíveis, assim como o fim da isenção de tributação dos dividendos.

Outro paradoxo que demonstra que o discurso do governo esbarra na realidade é a postura do sistema financeiro. Enquanto o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, defende que a recessão ficou para trás e que o sistema está pronto para voltar a atender a demanda por crédito e financiar a retomada da atividade econômica. Em contrapartida, as instituições estão revendo suas metas para baixo. Durante as teleconferências de apresentação de resultados, pôde-se visualizar que não há otimismo entre os bancos. Pelo contrário, a previsão é de que haja uma retração ou estagnação das carteiras de crédito.

O abismo entre o discurso do governo e a realidade econômica mina a credibilidade. Por um lado, deseja-se ver que o ajuste fiscal está dando certo e que a economia realmente se recuperará. Mas, do outro, as evidências mostram que o país permanece no campo dos desejos e pouco está sendo feito para que o discurso fique alinhado com a realidade.

 

Ana Borges – Diretora da Compliance Comunicação