De verde e, sobretudo, amarelo

Empresa-Cidadã / 25 fevereiro 2017

O desastre ambiental de 2015, provocado pelo “tsulama” da Samarco, Vale e BHP no Vale do Rio Doce pode ter sido determinante para o aumento dos casos de febre amarela em Minas Gerais e Espírito Santo. Esta é uma hipótese aventada pela bióloga da Fiocruz, Márcia Chame.

A hipótese considera inicialmente a localização das cidades mineiras que identificaram até o momento casos de pacientes com sintomas da doença. Grande parte está na região próxima do Rio Doce, afetado pelo rompimento da Barragem de Fundão, em novembro de 2015.

Considera também que mudanças bruscas no ambiente provocam impacto na saúde dos animais, incluindo macacos. Com o estresse de desastres e a falta de alimentos, eles se tornam mais vulneráveis a doenças, inclusive a febre amarela, afirma a bióloga, que também coordena a Plataforma Institucional de Biodiversidade e Saúde Silvestre na Fiocruz.

Este pode ser um dos motivos que contribuíram para os casos, mas não o único, completa Márcia Chame. A região já apresentava um impacto ambiental importante, provocado pela mineração.

Além dos casos de Minas Gerais, foram notificadas também mortes de macacos na região próxima da cidade capixaba de Colatina, igualmente afetada pelos reflexos do acidente iniciado em Mariana. O Espírito Santo integrava o grupo de oito estados considerados livres da febre amarela.

Márcia Chame afirma que os episódios deste ano se assemelham aos que foram registrados em 2009, quando um surto de febre amarela foi identificado no Rio Grande do Sul, área que por mais de 50 anos foi considerada livre da doença. No passado, o ciclo de febre amarela era circunscrito à floresta, mas com a degradação do ambiente, animais acabam também ficando mais próximos do homem, aumentando os riscos de contaminação.

Na floresta, o vetor da febre amarela é o mosquito Haemagogus. Ao picar um macaco contaminado, o mosquito recebe o vírus e, por sua vez, passa a transmiti-lo nas próximas picadas. Quando um homem sem estar vacinado entra nesse ambiente, ele também passa a fazer parte do ciclo, podendo ser infectado pela picada do mosquito e transmitir a doença. Esta corrente aumenta, quando animais, por desequilíbrios ambientais, deixam seus ambientes e passam a viver em áreas mais próximas de povoados ou cidades. Com o desmatamento, animais também se deslocam, aumentando o risco de transmissão. Os animais têm de ter espaço para viver, evitando assim a migração para áreas próximas de centros urbanos, pois agem como filtros de doenças.

A Fundação Renova, criada pela Samarco para coordenar ações de reparação na área atingida pelo desastre, não se manifestou sobre as declarações da bióloga da Fiocruz. Por meio de nota, informou estar em curso um diagnóstico sobre a biodiversidade na região e que todas as informações que tenham aderência às ações em andamento serão incorporadas pela Fundação.

Se não é assim, poderia ter sido.

Cédric Herrou acertou

Cédric Herrou, 37 anos, um fazendeiro produtor de azeitonas, permitiu a passagem de dezenas de migrantes pelas montanhas do vale onde tem suas terras. Levado a julgamento, ele disse que faria de novo. “Há pessoas morrendo do outro lado da estrada, continuou Herrou. Não é direito. Há crianças que não estão seguras. É de se enfurecer ver crianças, às 2 da manhã, completamente desidratadas. Sou um cidadão francês”, Herrou declarou.

A França, dentre as nações europeias, se orgulha de seu humanitarismo esclarecido. E ainda assim, está lutando para reconciliar esses valores com as realidades de um mundo mais globalizado, que inclui o medo do terrorismo. As contradições estão sendo expostas de Paris até o porto de Calais, onde o governo francês recém demoliu um grande campo de migrantes. Na eleição presidencial deste ano, políticos estão competindo para ver quem tem a proposta mais dura em relação à segurança das fronteiras do país. A maioria segue a onda da repressão aos migrantes. Os ataques terroristas, incluindo o do último verão em Nice, que matou 85 pessoas, acentuaram o sentimento antimigrante.

Mas nessas distantes montanhas, onde judeus, fugindo dos nazistas, e dos colaboradores de Vichy acharam refúgio durante a 2ª Guerra Mundial, Herrou se tornou um herói por liderar um tipo de linha de trem subterrânea para contrabandear migrantes para o norte, muitos com destino à Inglaterra ou Alemanha. Seu esforço rendeu admiração por sua resistência, coragem e solidariedade. Até mesmo o promotor Jean-Michel Prêtre chamou sua causa de nobre. Ele pediu por uma sentença de oito meses, mas rapidamente reafirmou que a mesma deveria ser suspensa. Ainda assim, lei é lei. Ele demonstrou uma intenção manifesta de violar a lei, disse Prêtre ao tribunal, acrescentando podem criticar, mas a lei deve ser aplicada.

A noção de que Herrou está tentando sustentar o que ele vê como valores franceses básicos, em vez de estar infringindo a lei, é a razão principal pela qual ele goza de um apoio popular considerável. O argumento formou a estratégia de defesa de seu advogado. Lembrem-se da última palavra do slogan da República Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, disse seu advogado Zia Oloumi, ao tribunal. Eles dizem que Herrou é uma ameaça à República, disse Oloumi aos juízes. Ao contrário, eu creio que ele está defendendo seus valores.

Herrou não estava provando nenhum ponto político, insistiu Oloumi. Estava simplesmente respondendo a uma crise humanitária em seu próprio quintal. O Roya Valley se tornou uma via alternativa para os migrantes. Os juízes não responderam. Mas a leveza da sentença pedida por Prêtre sugeriu que os conceitos invocados por Oloumi surtiram efeito.

Paulo Márcio de Mello

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulommm.pro.br