Das consultorias às ruas

Conversa de Mercado / 17 Novembro 2017

A situação econômica brasileira pouco mudou nos últimos meses, mas analistas estrangeiros apontam que o comportamento dos indicadores, como o PIB, que demonstra leve recuperação após dois anos de crise, favorece candidatos que defendam uma política econômica mais ortodoxa, ou seja, alinhada ao mercado. Esta é a postura da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), e consta no relatório sobre o panorama eleitoral da América Latina em 2018. A projeção da EIU para o PIB de 2018 é de crescimento de 2,3%, após alta de 0,7% estimada para este ano. O Indicador Serasa Experian de Atividade Econômica (PIB Mensal) aponta que houve um incremento (com ajustes sazonais) de 0,3% neste terceiro trimestre em relação ao anterior e 1,2% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Dentro deste quadro, a consultoria defende que, após dois anos de crise, os brasileiros não estariam dispostos a colocar em risco uma eventual recuperação do poder de compra e do consumo para apostarem em candidatos com discurso mais radical. A projeção é de que os salários devam avançar cerca de 3% em termos reais, com retração do desemprego, de 12,5% neste ano para 11,9%, em média. Tais dados, de acordo com a EIU, são os que antecipam o comportamento dos eleitores.

Mas quem está no Brasil não tem essa percepção. A frase preferida continua sendo “Fora, Temer”. Exceto pela corrupção, o problema está na necessidade de recomposição da renda. E as pessoas querem acreditar que isso será revertido, seja através da extrema direita ou esquerda. Já o centro ainda não demonstrou candidato que tenha um nome à altura de concorrer com os dois lados. Segundo o IBGE, o número de desempregados no Brasil no terceiro trimestre deste ano atingiu a menor taxa do ano, de 12,4%, o que equivalente a 13 milhões de desempregados. Mesmo que em níveis globais haja melhora de resultados, o mesmo não é refletido na situação econômica das famílias. O dado da Serasa acumulado dos nove primeiros meses demonstra que, pela ótica da demanda, o crescimento veio das exportações (4,6%). Enquanto isso, o consumo das famílias recuou 0,3%, e os investimentos despencaram 4%.

Em recente relatório, o IBGE demonstrou que em 2015, pela primeira vez desde 1985, houve queda generalizada do PIB em todas as regiões brasileiras, o que levou o indicador a fechar em queda de 3,5%. A observar os dados de 2016, quando a queda atingiu 3,6% a situação não deve ter sido muito diferente, e o desempenho deste e do próximo ano são insuficientes para que a plena recuperação se reflita no bolso. O alívio deste ano, portanto, é pequeno frente à necessidade de recuperação para que as famílias sintam uma melhora da qualidade de vida e acreditem que a política econômica atual seja a mais adequada e, com essa análise em mente, busquem candidatos de centro nas eleições. O rendimento médio real de todos os trabalhos, recebido por mês, pelas pessoas de 14 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, com rendimento de trabalho, se mantém estável em relação a 2016, ao redor de R$ 2,1 mil, de acordo com o IBGE.

O recuo do desemprego destacado pela consultoria EIU é insipiente. E a situação mostra-se grave quando se analisa os dados mais recentes. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada nesta sexta, destaca que, no terceiro trimestre deste ano, a taxa composta de subutilização da força do trabalho, que integra desocupados, subocupados por insuficiência de horas e os presentes na força de trabalho potencial ficou em 23,9%, ou 26,8 milhões de pessoas. O instituto mostra que ocorreu uma piora, pois em igual intervalo do ano passado o total era de 21,2%. Outro ponto é que a maior parte das 21 milhões de empresas do país é composta por MEIs (Microempreendedores Individuais), trabalhadores que se pejotizaram para viver de freelas diante da falta de empregos formais.

Não há definição concreta dos nomes de presidenciáveis, e até apresentadores de TV figuram nas pesquisas. Como em 89, algum Sílvio Santos vem aí. O que se sabe é que a insatisfação está nas ruas, independente dos discursos da esquerda e da direita.