Crise leva à queda das vendas parceladas no cartão

Mercado Financeiro / 14:21 - 9 de set de 2016

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O parcelamento no cartão de crédito foi incorporado aos hábitos de consumo dos brasileiros nos últimos anos. Para muitos consumidores, a valor das parcelas acaba pesando mais até do que o valor total do produto na decisão de compra. Nem mesmo as vendas parceladas, porém, resistiram à crise econômica que ainda assola o país. A Boanerges & Cia., consultoria especializada em varejo financeiro, realizou uma análise que identificou uma queda inédita do faturamento real das vendas parceladas no cartão em 2015. Baseada nas estatísticas de pagamentos de varejo e cartões, divulgadas pelo Banco Central do Brasil em julho, o levantamento da consultoria constatou também que subiu pelo segundo ano consecutivo o tíquete médio das vendas parceladas em sete ou mais vezes no cartão. Embora o faturamento dos cartões de crédito no Brasil tenha registrado a primeira queda real da história em 2015, na comparação com 2014 (-0,6%), conforme estudo divulgado recentemente pela Boanerges & Cia., o faturamento das vendas em uma única parcela registrou alta de 2,2%, passando de R$ 319,9 bilhões em 2014 para R$ 326,9 bilhões em 2015. A retração do faturamento total, portanto, foi motivada pelo recuo das vendas parceladas. De fato, na comparação com 2014, o faturamento real das vendas em 2 ou 3 parcelas caiu 0,7%, de R$ 140,6 bilhões para R$ 139,6 bilhões; no caso das vendas de 4 a 6 parcelas, o recuo foi de 3,8%, de R$ 110,6 bilhões para R$ 106,5 bilhões; nas vendas em 7 ou mais parcelas, por sua vez, a queda foi de 6,7%, de R$ 86,2 bilhões para R$ 80,4 bilhões. Segundo Vitor França, consultor da Boanerges & Cia., o resultado pode ser explicado pelo comportamento cauteloso dos consumidores, que evitaram se endividar durante a crise, privilegiando o consumo de bens de primeira necessidade e os pagamentos à vista, e também pelo conservadorismo de bancos, que temiam o aumento da inadimplência, e dos varejistas, que buscavam redução de custos. A participação do cartão de débito no faturamento total dos cartões subiu de 37% em 2014 para 37,3% em 2015, atingindo assim o maior valor da série história iniciada em 2008. A participação das vendas no cartão de crédito em uma única parcela também subiu, de 30,7% para 31,3%. O faturamento das vendas em 2 ou 3 parcelas, por sua vez, representou 13,4% do total das vendas com cartão, o menor valor da história. O recorde negativo também foi registrado nas vendas de 4 a 6 parcelas (10,2% do total). No caso do faturamento das vendas em 7 ou mais parcelas, a queda da participação foi de 8,3% para 7,7% (-0,6 ponto percentual). A consultoria calculou também o tíquete médio das vendas com cartão e constatou que ele apresentou leve alta ou estabilidade no caso das vendas parceladas e queda real no caso das vendas no débito ou em uma parcela no cartão de crédito. Para França, a queda no tíquete médio nestes últimos casos está relacionada à migração para os meios eletrônicos de pagamento, mais intensa em itens de menor valor. A alta ou estabilidade no caso das vendas parceladas, por sua vez, tem relação direta com a crise, que afetou especialmente as famílias de menor renda, mais dependentes de crédito. Com isso, avalia o consultor, houve concentração de vendas parceladas entre consumidores de maior renda, que fazem compras de maior valor. Além disso, as opções de parcelamento em muitas vezes no cartão, que antes eram oferecidas até em itens de valor mais baixo, ficaram mais restritas aos itens de maior valor por causa da crise, uma vez que o parcelamento, embora ajude a alavancar as vendas, representa custos maiores para os lojistas. O tíquete médio das transações com cartão de débito atingiu o menor valor da história (R$ 60,2), assim como as transações em uma única parcela no cartão de crédito (R$ 71,5). O tíquete médio das vendas em 2 ou 3 parcelas ficou praticamente estável (R$ 204,7 em 2015, ante R$ 204,6 em 2014). No caso das vendas de 4 a 6 parcelas, passou de R$ 489,4 para R$ 488,9, enquanto nas vendas em 7 ou mais parcelas ele subiu de R$ 930,2 para R$ 934,7, o maior valor desde 2011.

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