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Crescimento e retrocesso

Conversa de Mercado / 09 Março 2018

A volatilidade do desempenho econômico do país reflete-se diretamente no mercado de capitais que, em vez de se tornar o grande financiador das empresas nacionais, encolheu. Ao mesmo tempo, os próprios altos e baixos da economia são provocados pela falta de fontes de financiamento de longo prazo que promovam o investimento. A situação atual é do cachorro que corre atrás do próprio rabo. Porém, mais do que lamentar o encolhimento da economia, que se encontra no mesmo patamar de 2011, ou comemorar a retomada recente é preciso refletir quais as causas e consequências dos avanços e retrocessos econômicos brasileiros.

Historicamente, o país dependeu do consumo interno e de booms de commodities para crescer, enquanto os investimentos permaneceram praticamente estagnados. As distorções antes mascaradas pelo cenário externo favorável e pelos elevados gastos públicos começaram a aparecer no início de 2014. Faltaram políticas governamentais que fomentassem o crescimento dos investimentos e inovações. A burocratização e a falta de acesso ao capital levam à estagnação, ou melhor, a surtos psicóticos de crescimento e depressão. Segundo a OCDE, o Brasil ocupa uma das piores posições entre os países-membros e parceiros do grupo em termos de investimentos sobre PIB. Entre 1990 e 2016, o investimento do país não chegou a 20% do produto. Somente com um maior nível de investimento, o PIB potencial se eleva, o que fortalece o incremento da produtividade, possibilitando aumentos salariais sem colocar em risco a competitividade dos produtores domésticos.

A organização demonstra que o problema está, em grande parte, relacionado à falta de acesso a financiamento e aos altos custos do crédito. Neste sentido há a necessidade de estimular outras fontes de financiamento. Até então a principal tem sido o BNDES, responsável por mais de 50% dos empréstimos para infraestrutura. “Atrair mais financiamento privado exige uma variedade de produtos financeiros para atender diferentes tipos de investidores, como bancos internacionais, fundos soberanos, fundos de pensão estrangeiros e bancos multilaterais de desenvolvimento”, explica a OCDE. Mas um dos grandes entraves para que ocorra investimento privado é a ausência de poupança, consumida nos últimos anos pelo faminto governo deficitário. Os gastos primários cresceram quase três vezes mais rápido do que o PIB ao longo da última década. “No passado, os gastos públicos deslocaram o investimento privado, e a ausência de mercados financeiros privados bem desenvolvidos, com prazos de pagamento mais longos, prejudicou o fluxo de poupança para projetos mais eficientes, incluindo a infraestrutura”, diz o documento.

Com as mudanças realizadas na política do BNDES e com o maior apetite dos estrangeiros para ativos de emergentes, espera-se que as empresas passem a se utilizar do mercado de capitais, o que seria mais saudável para a economia brasileira. Enquanto nos Estados Unidos 75% dos financiamentos são feitos via mercado, no Brasil o percentual é ínfimo. Além da saída do BNDES, a manutenção dos juros em patamares razoáveis pode dar um alento futuro ao mercado, que se encontra atrofiado na comparação com o tamanho da economia brasileira. O IPCA de fevereiro demonstra que a inflação atingiu o menor nível em 18 anos para o mês e se encontra abaixo da meta oficial. Desta forma, há uma consolidação do consenso de que um novo corte de juros virá.

No entanto, sem políticas públicas ou privadas efetivas que estimulem o acesso ao mercado de capitais, este ainda permanecerá sub-representado no PIB. Hoje existem somente 344 empresas listadas na B3. Em economias de tamanho similar à brasileira, o número fica na casa dos milhares. O acesso ao financiamento de longo prazo unido a políticas de estímulos ao investimento torna a economia menos volátil. Aliado a isso, é preciso reduzir a disparidade econômica com políticas de melhor distribuição de renda e controle fiscal. Reformas estruturais essenciais para a bipolar economia brasileira, no entanto, não aparecem nas agendas de debate. Assim, o novo ciclo econômico positivo é mais um surto insustentável no longo prazo.