Cratologia brasileira: faces do poder e reação nacional

Por Pedro Augusto Pinho.

Opinião / 18:04 - 3 de dez de 2019

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Antes mesmo do golpe da banca, que definiu a sucessão do presidente Ernesto Geisel (“Geisel e o golpe da banca”, Duplo Expresso, 18 e 25/5 e 1/6/2019), o pensamento colonizador do neoliberalismo se infiltrara na formação dos militares, a partir das Escolas de Comando e Estado-Maior, em todas as Armas. As burlas da Nova República e da Constituição Cidadã de 1988 vieram reforçar os instrumentos para que a banca se apoderasse do Brasil e destruísse todo esforço científico, econômico, intelectual e cultural do povo nos 50 anos que vão da Revolução de 1930 ao fim do governo do general Geisel.

Hoje, final de 2019, vemos a derrocada das últimas construções para o Estado Nacional Soberano. Nas condições existentes desde meados do século XX, nenhum país poderia ser soberano se não tivesse armas nucleares e dominasse e controlasse as comunicações virtuais e a fabricação de equipamentos de comunicação. Getúlio Vargas já propunha a bomba atômica brasileira, mas foi Geisel quem criou a Nuclebrás e celebrou o Acordo Nuclear com a Alemanha. Também foi o presidente Geisel que fundou, em 18/6/1974, a Cobra – Computadores e Sistemas Brasileiros.

A tecnologia aeroespacial, outro importante instrumento para soberania, iniciada em 16/1/1950 com a criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), completada com a fundação da Embraer, chegava a dispor, desde 1/3/1983, do Centro de Lançamento de Foguetes, em Alcântara (MA). Ao lado da Eletrobras, de Itaipu, da Petrobras, da Embrapa, o Brasil lançava suas bases para que o poder nacional residisse em território brasileiro.

Impossível não lembrar das palavras do gênio Darcy Ribeiro para o desafio da independência: “Formular um projeto nacional realista e motivador de um desenvolvimento pleno, autônomo e autossustentado, para encontrar a estratégia que permita mobilizar as forças populares para enfrentar a conjuntura de interesses minoritários que mantêm a nação atada ao subdesenvolvimento” e, aditamos, aos interesses alienígenas (Darcy Ribeiro, Estudos de Antropologia da Civilização – Os Brasileiros – I Teoria do Brasil, Editora Vozes, Petrópolis, 1978, 3ª edição).

 

Banca estava com o socialismo, na França,

com o ecologismo, com FHC, Lula e Bolsonaro

 

No artigo anterior, perguntava-se pelas Forças Armadas (FA). Não é simples para o civil entender o processo de formação militar. A disciplina e a obediência têm um valor maior do que o próprio preparo técnico. Pedimos ao caro leitor que imagine um cenário de combate onde um major ou um capitão resolva analisar ou se interrogar sobre a qualidade ou efetividade da ordem recebida do coronel. A batalha já estará perdida. Ou, inversamente, um general que não confie que sua diretriz será adotada pelo coronel ou pelo major. Estará estabelecido o caos naquela unidade militar.

Temos, na história do Brasil, dois momentos em que um presidente militar preferiu adotar as soluções do interesse da maioria de seu estamento do que o seu individual, e foram muito desastrosos para o país.

Marechal Floriano Peixoto deixou que os interesses da agricultura de exportação, na época a cafeicultura majoritariamente paulista, impusessem os rumos da iniciante República. Tivemos, no mínimo, 30 anos de atraso no processo de industrialização e desenvolvimento cultural brasileiro.

O general Geisel, ao aceitar ser sucedido pelo general Figueiredo, deixou a banca se apossar do governo, como ficou demonstrado pela “reforma” da área de informática, um dos pilares da atual dominação estrangeira.

Passemos ao controle das mensagens. Vivemos a denominada guerra híbrida, que, além do componente bélico, é um novo modelo colonizador. Ao lado da potência militar, que se manifesta pela construção e uso de artefatos nucleares, temos a produção e controle das mensagens. Na batalha das mensagens identificamos duas ações:

a) a separação do suporte das semânticas, podendo estas últimas serem muitas e com compreensões até opostas; e

b) a invasão de mensagens, tal proliferação que confunda o receptor e até, pelo conhecido efeito da redundância, o instrumentalize. Nesta ação são comuns o uso de robôs, espalhados pelo mundo e concentrados num só objetivo.

Um caso muito conhecido é da Cambridge Analytica (UK), propriedade da família Robert Mercer, que, após a falência, foi repartida em CA Political e CA Commercial. Nela atuou Stephen Kevin (Steve) Bannon, que ficou conhecido pela participação na eleição de Donald Trump e, se noticia, também ter atuado na eleição de Bolsonaro.

Na produção de mensagens há uma série de instituições envolvidas pela necessidade de conhecimentos técnicos de informática e eletrônica e de conhecimentos psicossociais, históricos e políticos. Também, por se tratar de manipulações probabilísticas, quanto maior for a disponibilidade e diversidade de dados, mais precisa será a mensagem em relação ao objetivo desejado.

O controlador das mensagens, ou é um organismo estatal, capaz de manter tantas e tais diversificadas atividades coordenadas para defesa nacional, ou um poderoso ente privado, com a fortuna de um gestor de ativos, que empregue estes recursos para dominação de países e instituições públicas.

Neste contexto não há que se tratar de democracia, entendida como processo de expressão popular, pois o controle das mensagens deturpa qualquer manifestação que busque conhecer a vontade do povo, em qualquer grupo social.

Ainda no campo das mensagens há um conhecido fator psicossocial que é modulador da cognição. Em inglês chama-se “pattern”, que é uma espécie de envólucro que uma pessoa ou grupo restrito tem à mente diante de um estímulo – visual, sonoro, olfativo etc.

Certamente o caro leitor já disse ou ouviu falar que tal música lembra um doce, um evento, um lugar. Com este conhecimento, os produtores de mensagem podem ser ainda mais precisos para obterem uma reação de ódio, por exemplo. E este leitor virá certamente com a pergunta: como podem saber?

Ora, com a frequência aos sites de relacionamento e comunicação como o Facebook, o Twitter, o Instagram e tantos outros; e até pelo uso de cartões de crédito, as pessoas ficam cada vez mais vulneráveis. E não só individualmente, como em grupos, pertencendo a associações esportivas, profissionais e políticas.

Muitos artigos bem escritos, fundamentados e honestos, apontam o sistema financeiro internacional, a banca, como mal maior para a civilização e a democracia. Sem dúvida, é a fonte dos males neste século XXI. Mas é preciso entender que a banca não atua sozinha, ela age como um banco de fomento para a extinção do Estado e da própria raça humana.

Ela, como já vimos, inclui, por exemplo, o capital do tráfico de drogas. Este setor movimenta enormes quantias à vista; são bilhões de dólares que estão circulando em igrejas e meios de comunicação, com mensagens produzidas nestas centrais multidisciplinares.

É muita ingenuidade imaginar que qualquer partido político, nos hemisférios norte ou sul deste mundo ocidental, tenha mínima parcela de poder confrontado com o que uma BlackRock dispõe. E, assim, voltamos ao início destas reflexões: o poder atua nas sombras.

O caro leitor não pode mais se iludir. Não é a esquerda nem a direita responsável e origem da vida miserável e insegura que se encontra. A banca não tem este tipo de vinculação. Ela estava com o socialismo, na França, com o ecologismo nórdico, com o sistema industrial-militar estadunidense, com FHC, Lula e Bolsonaro. É a banca, nas suas vertentes, e os controladores da mensagem que devemos combater.

Ninguém que não seja um Estado Nacional Soberano terá condições econômicas e técnicas para enfrentá-los. Qualquer outra divergência jamais terá solução sem que se tenha, em primeiro lugar, a existência de um Estado Nacional Soberano, nem democracia, nem assistência social, nem o meio ambiente ou qualquer identitarismo sobreviverá num país onde o poder esteja com as bancas e os controladores de mensagens.

Pedro Augusto Pinho

Administrador aposentado.

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