Cooperação Sul-Americana XI

Opinião / 14:41 - 12 de jun de 2000

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tanto biológicos como minerais, é uma ilusão ver nesses recursos, em si mesmos, uma fonte de riqueza. De fato, esta concepção errônea dos recursos naturais é causa parcial do grande subdesenvolvimento que experimenta o continente, atualmente, com o petróleo e a mineração relativamente desenvolvidos, rodeados de um mar de subdesenvolvimento industrial. Em contraste, o Japão, virtualmente sem recursos naturais de nenhuma espécie, converteu-se na segunda potência econômica do mundo. Conseguiu isto ao concentrar-se no desenvolvimento da força de trabalho, mediante o rápido aumento de sua educação geral e níveis de capacitação especializada. Tanto para a América do Sul como para qualquer economia moderna, esta tarefa compreende dois aspectos: o nível de alfabetização elementar e educação geral da massa da força de trabalho; e o número e qualificação de cientistas, engenheiros e técnicos. Há vários exemplos, nos últimos cinqüenta anos, que ajudam a esclarecer este ponto. Depois de 1939, os Estados Unidos se recuperaram da pior depressão de sua história, chegando em quatro anos a níveis anteriormente inimagináveis de produção da indústria pesada para a guerra, devido exclusivamente à existência de uma reserva de força de trabalho qualificada desempregada, criada nos 40 anos anteriores de desenvolvimento. Depois da Segunda Guerra Mundial, o Japão se recuperou apenas pelo nível de trabalhadores qualificados e educados, já alcançados antes da guerra. Tanto a Coréia do Sul quanto em Taiwan instituíram programas muito rigorosos de educação universal desde o princípio dos anos 50, sem os quais seus respectivos milagres econômicos nunca poderiam ter acontecido. Em contraste, a educação na América do Sul, em que pesem autênticos avanços nos últimos 30 anos, especialmente nos níveis primário e secundário, está muito longe do que deverá ser entre os anos 2010 e 2020, caso se busque a cooperação e o programa de investimentos e crescimento aqui proposto. As cifras oficiais recompiladas pela Unesco, com dados fornecidos por cada país, mostram um quadro no qual a assistência aos seis primeiros anos escolares é praticamente universal na maioria dos países da América do Sul e é quase universal, ao que se supõe, nos três primeiros últimos anos do primeiro grau. Sem dúvida, devido à maior proporção de reprovações na maioria dos países, o número real de estudantes que terminam o primeiro grau é indubitavelmente muito menor do que os 100% que o começam. Os maiores problemas destes graus são: o número excessivo de estudantes por sala de aula; capacitação deficientes dos mestres; material de trabalho antiquado, especialmente no importantíssimo campo da educação científica; e, principalmente, as condições gerais de pobreza em que vivem os estudantes, o que dificulta grandemente a concentração na aula e em casa. Entretanto, é nos graus superiores aonde aparecem os maiores problemas. A preparação básica do segundo grau constitui a mínima necessária para se conseguir um emprego qualificado em uma economia industrial moderna. As cifras da Unesco indicam que, em 1996, no máximo 50% dos adolescentes entre 15 e 17 anos, do segundo grau, foram realmente à escola; 62% dos jovens de 15 anos freqüentaram a escola, mas apenas 39% dos de 17 anos, o que significa que, quando muito, 39% se graduaram no secundário. Esta é uma péssima porcentagem, e quer dizer que a vasta maioria da população adulta jovem carece de uma educação preparatória adequada, e entre adultos de maior idade, obviamente, há muito menos alunos que se graduaram no segundo grau. As deficiências em nível universitário são ainda mais agudas. Apenas 17,6% do grupo entre 18 e 21 anos de idade freqüenta universidades na América do Sul, e a maioria destes só comparece em um ou dois anos; a educação de pós-graduação cobre apenas 2,5% do grupo entre 22 e 24 anos. A tabela abaixo é uma estimativa da população em idade escolar na América do Sul no período 1982-1983, bem como o número de matriculados e sua proporção em cada grupo de idade entre os 15 e os 24 anos. Número de estudantes no segundo grau e nas universidades na América do Sul 1995-96 Nível de educação Grupo de Idade População nesse grupo (milhões) Número de matriculados (milhões) % de seu grupo Segundo grau: 4( a 3( ano 15-17 32,7 16,4 50,0 Universidade: 1( e 2( ano 18-19 21,7 3,9 17,5 3( e 4( 20-21 18,8 1,7 9,4 os 4 anos 18-21 40,5 5,6 13,6 Pós-graduação 22-24 22,3 0,6 2,5 Fontes: Unesco, Cepal e estimativas próprias. Mais grave, contudo, é a distribuição de disciplinas universitárias e a porcentagem relativa de estudantes que completam seus estudos e se formam nas universidades do continente. Uma análise nos números mostra relativamente poucos estudantes de ciências naturais e de engenharia na América do Sul, em comparação à Coréia do Sul e Alemanha, sobretudo no que se refere ao número de estudantes formados nestes campos por cada milhão de habitantes do país. De todos os países sul-americanos a Argentina e o Brasil possuem um contingente maior na área de ciências naturais, mas continuam tendo mais ou menos a metade da Coréia do Sul e da Alemanha Ocidental, e o número de formados nesta área é muito pequeno. Embora a maioria dos países tenham muitos estudantes de engenharia, os que se formam são poucos. O caso do Peru se destaca por ter a taxa mais baixa de estudantes que se formam, tanto genericamente como nas duas disciplinas mencionadas. O mais revelador de tudo são as deficiências na área de pesquisa e desenvolvimento. O alcance destas metas de desenvolvimento requer um programa urgente de educação nos níveis. Primeiro, supõe melhorar a qualidade da educação nos níveis primário e secundário, e voltar ao plano de estudos clássicos, cujo modelo é a famosa e já mencionada reforma de Humboldt, na Alemanha do século XIX. E significa assegurar que, para o ano 2020, quase todos os jovens de 18 anos tenham recebido ao menos 12 anos de educação básica. Segundo, supõe elevar substancialmente a porcentagem de jovens com 2-4 anos de educação superior. Terceiro, requer assegurar que a maioria dos que recebem educação superior se especializem em Educação, Medicina, Ciências Naturais, Matemática, Engenharia e Agronomia, minimizando algumas categorias como Sociologia, Economia, Ciências Humanas, Administração, Direito, etc., que prevalecem atualmente em nossas universidades. Capacitar grande quantidade de estudantes exigirá uma enorme inversão em escolas e novas universidades, em capacitação de professores, e em equipamentos, especialmente laboratórios e demais equipamentos necessários para a educação científica e técnica. É óbvio que a preparação deste número de estudantes com instalações e programas escolares de boa qualidade será muito dispendiosa, mas é tão importante no investimento para o desenvolvimento, como a inversão em energia, infra-estrutura ou bens de capital. Sem ela, o investimento em capital físico não se poderá utilizar com eficiência; a produtividade não melhorará e todo o programa pretendido de cooperação será prejudicado. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL

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