Cooperação Sul-americana 12

Opinião / 16:16 - 13 de jun de 2000

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agricultura de padrões capitalistas. Tem de ser intensiva em energia, capital e tecnologia, para se promover a retirada do padrão de estagnação e de subsistência que se encontra, na maior parte do meio rural, para uma atividade de acumulação de vanguarda. As razões desta colocação não se assentam, exclusivamente, num viés econômico, mas tem suas bases na questão social. É necessário prover de um mínimo de proteínas grandes contingentes da população sul-americana. A título de exemplo, vale a pena nos determos no caso da Bolívia. Em 1979, a maior parte dos bolivianos consumia menos de 1.500 calorias diariamente e menos de 50 gramas de proteína. As melhoras, desde então, havidas neste consumo, mostraram-se insuficientes para se chegar ao mínimo recomendado, ou seja, mais que o dobro que o consumo de 1979. Embora não hajam dados suficientes, nos últimos cinco anos, para documentar a situação atual, a grave desnutrição que afeta a região tem sido a responsável direta pela proliferação de epidemias, que, ali, tem ocorrido e que a ela se relacionam. Portanto, o primeiro requisito, para assegurar o aumento de densidade demográfica na América do Sul, é a garantia do aumento na produção de alimentos, em qualidade e quantidade adequadas para as próximas gerações. A plena realização intelectual do indivíduo - o ser humano é a base para a geração da acumulação e do desenvolvimento econômico - reside numa dieta rica em calorias e proteínas. Um indivíduo normal necessita consumir, diariamente, para produzir e viver em uma sociedade progressista, em média, cerca de 3.200 calorias e 100 gramas de proteínas, sendo 65 delas de origem animal. A população da América do Sul consumiu, em 1990, apenas três quartos da quantidade de proteínas per capita para um indivíduo saudável. A exceção deu-se basicamente no sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai. Calcula-se que hoje de cada 1000 crianças que nascem na região 180 morrem de fome e de várias enfermidades antes de completar um ano de vida. Dos que sobrevivem quase a metade estão desnutridos. Uma programa de nutrição terá, portanto, que representar um dos pilares centrais para a cooperação sul-americana. Este programa deve estar assentado na auto suficiência produtiva de alimentos já estudada da região. Para avaliar a disponibilidade produtiva de alimentos da região torna-se necessário proceder-se uma breve análise de dois dos mais importantes fatores de produção agrícola.: o fator trabalho e o fator terra. Para análise do fator trabalho recorreremos a avaliação comparativa. A China necessita atualmente ocupar sessenta por cento de sua força de trabalho com a produção de alimentos. Já os Estados Unidos, por outro lado, necessitam ocupar 3,5% de sua população economicamente ativa (PEA) para produzir toda a alimentação de sua população e ainda exportar. Claro está que o fator que mais interfere na produtividade agrícola é a tecnologia empregada. Os elevados valores de produtividade detectados na agricultura norte-americana, tanto por homem-hora quanto por unidade de superfície plantada, resultam de uma maciça mecanização agrícola, de ampla eletrificação rural, do uso intensivo de fertilizantes e da vasta realização de obras de infra-estrutura modernas. Desta análise resulta a constatação que para aquele desempenho, enquanto, um agricultor norte-americano tinha que ser um técnico altamente qualificado, com amplos conhecimentos agronômicos, pecuários e veterinários, capaz de reparar máquinas ou de interpretar imagens meteorológicas de satélites, um chinês sabia manejar uma enxada, mergulhado que estava numa cultura milenar. A atividade agrícola sintetizará as duas grandes questões estratégicas do século XXI, na opinião de muitos: a questão da água potável e a questão dos alimentos. Estas são questões estratégicas fulcrais para o próximo milênio na opinião de diversos pensadores dos países centrais. A tabela abaixo apresenta informações quanto a estas questões e sintetiza os parâmetros para a atividade agrícola na América do Sul, construindo balizamentos para a nossa análise: Disponibilidade suficiente de água nas regiões do mundo 1994 América do Sul Europa Ocidental Estados Unidos Total mundial % América do Sul População (milhões) 300 375 252 5.491 6,1 Densidade demográfica (habitantes por km²) 18,2 100,5 25,3 35,1 Superfície total (milhões de hectares) 1720 373 936 13.077 14,0 Superfície agrícola potencial (culturas e pastagens, (milhões de hectares) 920 166 428 4.640 20,0 Superfície irrigada: Milhões de hectares (% da superficie agrícola potencial) 14,4 1,6 10,2 6,2 20,6 4,8 212,9 4,6 6,8 Precipitação média anual (mm) 1.660 830 625 830 Vazão média nos rios (m3) 11.000 1.710 1.630 38.830 28,3 Vazão anual per capita (m3) 28.826 4.562 7.026 8.458 Fontes: FAO e Onera. Ao examinarmos a agricultura sul-americana com estes conceitos e números em mente, apesar do grande progresso feito, recentemente, que de 48,3% da PEA da América do Sul utilizada como força de trabalho no setor agrícola, em 1960, passamos para 18,7 % da PEA na atividade agrícola, em 1996, muito, ainda, precisa ser feito, pois esta redução não implicou num aumento substancial da produção de alimentos. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL.

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