Cooperação Sul-Americana - VII

Opinião / 15:17 - 6 de jun de 2000

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Demografia foi pela primeira vez definida por Achile Guillard, em seu livro "Eléments de Statistique Humaine ou Demographie Comparée" (1855). Entretanto, Thomas Robert Malthus, em "An Essay on the Principle of Population as it Affects the Future." (1798, 1808, 1816), havia, anteriormente, analisado as pressões populacionais e predito um futuro terrível para a humanidade, na corrida entre a produção de alimentos e o crescimento populacional. Malthus, contudo, foi contestado por Henry George em "Progress and Poverty" (1879), onde, além de sua teoria de "imposto único", defendia que a riqueza depende do crescimento da população, não, porque o trabalho barato poderia ser melhor explorado, já que a pobreza é sempre uma enorme fonte consumidora de impostos, mas, sim, porque o crescimento populacional impulsiona a criatividade. Um problema que se coloca quando se discute a América do Sul é a afirmativa que existe nesta região uma séria questão demográfica. Em nossa opinião, não há uma questão demográfica. Há sim grandes vazios demográficos na região. Em nossa opinião, devemos ter uma ótica próxima a Henry George para tratar esta questão, pois: a) não existem exemplos históricos válidos de desenvolvimento econômico ou industrialização bem sucedida, em grande escala, que não fosse acompanhada de um veloz aumento da população; b) não há uma relação causal ou uma correlação histórica demonstrável entre a pobreza e o crescimento rápido da população; e c) no caso da maioria dos países da América do Sul, é a quantidade e densidade inadequadas da população, ao invés da superpopulação, que constituem graves obstáculos ao crescimento bem sucedido. Portanto, em nossa opinião, para sustentar qualquer ritmo razoável de progresso econômico, a porção da força de trabalho dedicada às manufaturas deve ao mesmo tempo aumentar em magnitude total e em relação aos setores agrícolas e de serviços. Tal restruturação é necessária para reduzir o peso que representa para o setor gerador de crescimento a agricultura de subsistência e os cada vez menos improdutivos empregos em serviços. Contudo, como veremos adiante, maior população exige muito maior educação. A América do Sul está, em nossa opinião, ainda é bastante despovoada, e a menos que a taxa de crescimento demográfico deixe de baixar, e a menos que a população total se duplique em 30 anos e se quadruplique em 60, o desenvolvimento econômico apoiado em tecnologia moderna será uma simples quimera. Isto se contrapõe a todo um discurso "neo-malthusiano" prevalecente e de certa forma imposto de fora para dentro à região. Todavia, é plenamente compatível com o pensamento religioso prevalecente na região: o pensamento católico. A título de exemplo, todos os países que se industrializaram com sucesso desde a revolução industrial, confirmam o que mencionamos, anteriormente; sempre o fizeram acompanhados de um alto ritmo de crescimento demográfico. A taxa média de 2,0 % anual e atual, certamente, expressa um rápido aumento da população, e certamente não impede o crescimento econômico acelerado. A referida taxa é, ademais, bastante semelhantes às que teve o Brasil nos anos 70. Somos de opinião que não pode haver nenhuma correlação válida entre as taxas de crescimento de toda a população, ou da que está em idade de trabalhar, e as taxas de crescimento do PIB total ou do PIB em manufaturados. Vejamos, para justificar nossa assertiva, o caso do Brasil. Se argumentarmos que a redução da taxa de crescimento demográfico neste país, de 1960-1965 a 1980-1985, corresponde às altas taxas de crescimento total e do setor fabril em 1965-1975, esta mesma redução corresponde, também, ao contrário: à interrupção do crescimento depois de 1980, justamente no período de maior aumento da população em idade de trabalhar. A Argentina, país de menor população e menor crescimento da população em idade de trabalhar, mostra também, uma grande diferença, a menor taxa de crescimento econômico. O Chile, penúltimo em crescimento demográfico, ocupa também o penúltimo lugar em crescimento econômico. A Colômbia, cujo crescimento demográfico se destacou nos anos 70, não mostra variação apreciável em suas taxas de crescimento nesses 30 anos. Em outras palavras, a taxa de crescimento demográfico não incide, em si mesma, na velocidade em que pode se desenvolver economicamente um país, com as restrições óbvias. As determinantes do desenvolvimento independem do crescimento demográfico, e o esforço de vinculá-los confundiu de forma deliberada as verdadeiras causas do crescimento industrial e econômico - ou sua ausência - nos países subdesenvolvidos. Na verdade, o discurso da contenção demográfica conspira contra o desenvolvimento da região e contra as teses predominantes, na América do Sul, como já foi colocado, da Igreja Católica. A questão da densidade demográfica e do desenvolvimento resistem a qualquer correlação regressiva quando se explicitam os dados. Com seus recursos, a América do Sul é uma das regiões mais ricas do mundo. Não carece nem de alimentos, nem de potencial para produzir energia, nem de recursos abundantes para o desenvolvimento industrial. Foi a carência de uma mobilização adequada destes recursos, em nossa opinião, em especial de energia, mais que qualquer pressão demográfica, que condenou a maioria da população sul-americana a seu estado atual de penúria. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL.

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