Cooperação Sul-Americana - VI

Opinião / 14:15 - 5 de jun de 2000

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Continuando a analisar a possibilidade de auto-suficiência da América do Sul e olhando o aspecto dos produtos manufaturados, é importante diferenciar primeiro, os bens intermediários dos bens de consumo e dos bens de capital. Em bens intermediários, a América do Sul é praticamente auto-suficiente. Nos casos do aço e cimento, dois dos produtos mais importantes para o desenvolvimento de qualquer espaço, a América do Sul é suficiente. É bem verdade que o ambicioso programa de infra-estrutura que em outros artigos proporemos nos levará a necessitar de mais que duplicar a produção atual destes produtos. Contudo, uma base produtiva inicial já encontra-se disponível. Nível de auto-suficiência da América do Sul (porcentagens) Superior a 80% Inferior a 80% Alimentos: Minerais: Cereais......................... 123 Carvão e coque................. 40 Carnes.......................... 123 Cromo............................... 73 Peixe e mariscos.......... 188 Titânio............................... * Leite e derivados......... 105 Tungstênio........................ * Frutas e verduras......... 115 Energéticos: Matérias primas: Petróleo cru................. 142 Rocha fosfórica................. 45 Petróleo refinado......... 100 Potássio............................. * Soda cáustica.................... 73 Minerais: Produtos básicos: Minério de ferro.......... 257 Fertilizantes...................... 70 Minério de cobre......... 128 Pesticidas.......................... 45 Bauxita........................ 183 Medicamentos................... 30 Manganês.................... 161 Enxofre....................... 97 Manufaturas: Metais básicos: Máquinas e equipamentos..................... 50 Ferro e aço................... 100 Automóveis e caminhões......................... 70 Cobre........................... 282 Alumínio..................... 120 Produtos básicos: Chumbo....................... 123 Cimento............................ 100 Zinco........................... 104 Fibras sintéticas................ 85 Estanho........................ 114 Manufaturas: Níquel......................... 100 Têxteis.............................. 105 * Auto-suficiência inferior a 10% Fontes: ONU, BIRD e estimativas próprias. Na questão de bens de consumo, a região tem uma base industrial relativamente ampla e integrada no tocante a bens de consumo imediato, tais como alimentos processados, vestuário e calçados, nos quais existe a capacidade para abastecer praticamente a totalidade das necessidades de países da região, enquanto que nos produtos de consumo duráveis os níveis de auto-suficiência e integração são menores. Em geral, pode-se afirmar que a América do Sul é capaz de produzir mais de 90% dos bens duráveis que consome atualmente, sendo maior a proporção no caso de móveis e aparelhos domésticos, e menor em automóveis e aparelhos eletrônicos. A política decorrente do chamado "Consenso de Washington" que vem sendo adotada em todos os países da região tem minimizado a capacidade produtiva de bens duráveis da região, em decorrência da expressiva abertura comercial que esses países estão praticando. Mas, sem dúvida, o lado mais fraco das economias da América do Sul está em sua baixa capacidade de produção de bens de capital, sobretudo no que se refere a maquinaria e equipamentos de tecnologia muito moderna. Em questão de bens de capital, a América do Sul produz, em conjunto, apenas 50% de suas necessidades, e concentra a maior parte de suas capacidades produtivas no Mercosul. Mas, na realidade, só um deles, o Brasil, tem uma indústria relativamente ampla e integrada, que gera cerca de 70% da produção total da região e abastece em torno de 80% de suas necessidades internas. Perante um bloqueio comercial, esta fraqueza representaria um enorme obstáculo à expansão das capacidades produtivas da região e, o que é mais grave, poria em perigo a própria operação da base produtiva existente, devido à falta de sobressalentes e peças de reposição. Eliminar esta fraqueza produtiva é uma das tarefas de maior importância e urgência para a integração econômica da região, que exige, além de grandes esforços em matéria tecnológica, encontrar verdadeiros "sócios" entre as nações industrializadas que estejam dispostos a cooperar no pretendido esquema de integração regional. Em suma, as principais deficiências da região estão nos itens seguintes, em que o nível de auto-suficiência é inferior a 80%: Carvão e coque: 40% Rocha fosfórica: 45% Potássio: 2% Fertilizantes: 70% Pesticidas: 45% Medicamentos: 30% Maquinaria e equipamentos: 50% Outra fraqueza da América do Sul está na insuficiência de sua frota mercante. Na maioria dos países a frota existente não cobre as necessidades de transporte interno com navio (cabotagem e transporte fluvial), enquanto que no aspecto do comércio exterior cobre apenas em torno de 20% das importações que se realizam mediante transporte marítimo de alto mar e menos de 10% das exportações se realizam com este meio. Todos os países da América do Sul dependem, em alto grau, de companhias armadoras estrangeiras que operam nas mãos dos grandes cartéis que controlam o mercado mundial. Em caso de bloqueio comercial, tal situação se converteria em uma grave limitação, pois os países da região não teriam a capacidade de transporte marítimo necessária para incrementar o comércio dentro da região, embora dispusessem em abundância dos produtos exigidos com tal objetivo. É bom ressaltar que uma vez identificadas suas fraquezas, a América do Sul deve identificar também seus pontos fortes, a fim de empregá-los, totalmente, para contrabalançar os efeitos de um imaginário mas possível bloqueio, voltando, como arma de dois gumes, contra os países que os aplicam. O fato é que a região abastece os países industrializados de uma série de produtos básicos para a operação de suas indústrias, como é o caso de diversos minerais estratégicos que se empregam na produção de aço especial e ligas metálicas, cuja escassez poderia chegar a paralisar certos setores da indústria desses países. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do Monitor Mercantil.

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