Cooperação Sul-Americana - IX

Opinião / 14:31 - 8 de jun de 2000

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Claro está que o comércio exterior, também, pode vir a ser essencial para um crescimento industrial sadio, independentemente do tamanho e da densidade demográfica de um país; mas, sempre, como auxiliar do desenvolvimento do mercado interno, como fonte de produtos chaves, cuja produção nacional não é rentável, e como mercado para o excedente produzido no país. Excetuando-se cidades como Singapura e Hong-Kong, verdadeiros estados virtuais mas empórios industriais de um espaço muito maior, nenhuma economia se industrializou atendendo primariamente às exportações, mas sim às custas do desenvolvimento profundo do mercado interno para seus produtos industriais. A experiência dos casos que verdadeiramente deram bons resultados no século XIX na Europa e Ásia, comparada com o da América do Sul neste século, demonstra como é importante que a América do Sul mantenha altas taxas de crescimento demográfico no próximo século, a fim de assegurar densidades de população cada vez maiores e a viabilidade do crescimento econômico. Até antes de 1950, mais ou menos, a população da América do Sul era tão dispersa que não havia nenhuma base para o desenvolvimento fabril em nenhum país. Hoje, apesar de densidades demográficas muito mais baixas em seu conjunto, existem grupamentos com suficiente concentração de população (50 habitantes por quilômetro quadrado) para que seja possível empreender a industrialização, se estas concentrações principais se vincularem através de instalações de transporte eficientes e operarem como mercado comum regional. O Brasil tem, atualmente, tamanhos e densidades de população suficientes para manter em seus territórios o desenvolvimento industrial moderno. Qualquer coisa que supere este nível deverá sustentar-se necessariamente na integração de toda a região. Olhando o mapa com a densidade de população de 1995 vê-se que a população do continente não está, certamente, distribuída de maneira uniforme, mas concentrada junto à costa e em algumas cidades do interior. Nestas zonas, a densidade populacional é bem superior que a média o que tem aspectos positivos e negativos. Positivos, porque permite que haja, ao menos, certo desenvolvimento industrial. Mas negativos, porque significa que a vasta maioria do interior do continente tem densidades demográficas muito menores ainda que as baixas cifras que figuram como médias nacionais. Isto configura como desafio fundamental e necessário povoar e tornar produtivas grandes partes desta solidão, o que exigirá construir grandes obras de infra-estrutura, como mostraremos mais adiante. Não exageramos ao dizermos que povoar o interior do continente é a medida fundamental da eficácia de qualquer programa de desenvolvimento, e é essencial para a integração e produtividade da indústria sul-americana. A América do Sul é, objetivamente, um continente despovoado. O problema real deste século não foi uma taxa excessiva de crescimento demográfico, mas o fato de que as taxas, entre moderadas e altas, recentemente alcançadas em vários países - em torno de 3%, desde o final dos anos 50, até o início dos anos 70 - não ocorreram um século antes. Pior ainda, nem mesmo hoje este crescimento é mantido. Isto prolongará o déficit populacional em amplas áreas da América do Sul, e poderá dilatar tediosamente em várias gerações qualquer esforço de desenvolvimento. Devido à sua base de recursos e características gerais, não há razão para que a América do Sul não chegue a converter-se em uma superpotência de 1,5 bilhões de habitantes em meados do século XXII. Deixando de lado os altos Andes, virtualmente todo o território continental é habitável já atualmente ou em potencial, e a maior parte conta com solos adequados para atividades econômicas. Assim, em dois terços do solo, pelo menos, a América do Sul tem capacidade de manter uma densidade demográfica comparável à média na Europa. Se tomarmos como meta uma modesta cifra de 100 pessoas por quilômetro quadrado (bem menos que a densidade da Europa em 1990, e menos da metade da densidade atual da maioria dos países europeus), e aplicarmos esta densidade a dois terços da área de terra firme da América do Sul - deixando um generoso terço para o Amazonas, os Andes e os desertos - vemos que o continente poderia manter facilmente 1,37 bilhões de habitantes, quatro vezes mais que os 300 milhões atuais. E esta cifra é uma cifra conservadora. Em última instância, não há razão para não se ter densidades de 150 ou mais pessoas por quilômetro quadrado, sobre três quartos ou mais do território do continente, quer dizer, 2,3 bilhões de pessoas! População é um dos mais importantes elementos de poder. A maioria dos líderes políticos sul-americanos se assustaria com a perspectiva de quadruplicar ou multiplicar por seis suas populações nacionais. Contudo, muito mais preocupado ficariam os lideres políticos de outros continentes e ninguém propôs uma meta demográfica tão audaciosa. Ainda assim, é a tarefa relevante para ser buscada para o século XXI. Na próxima era, os grandes projetos que estimularão a humanidade serão correlacionados com a tarefa de reconduzir o verde para todos os desertos do mundo e com a conquista do Sistema Solar. Tanto a escala de produção como a produtividade necessária para tais tarefas trazem a si a necessidade de se contar com 10 a 20 bilhões de habitantes sobre a Terra, a fim de criar a mão-de-obra adequada para todas as especialidades de emprego de que se necessitarão. Assim, o destino da América do Sul, que se constitui a mais importante região pouco povoada do mundo, deve ser o de prover uma porcentagem mais que proporcional deste aumento de população e de força de trabalho. Esta é uma postura que contradiz o discurso dominante, portanto polêmica, mas plenamente defensável. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL.

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