Cooperação Sul Americana - IV

Opinião / 15:28 - 1 de jun de 2000

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Dando preferência absoluta ao comércio interno na América do Sul e criando os mecanismos comerciais e financeiros apropriados ao caso, os países sul-americanos poderão aumentar rapidamente seu intercâmbio comercial em todas as linhas de produção. As capacidades ociosas que prevalecem em muitas indústrias podem ser utilizadas, plenamente, para cobrir as necessidades efetivas da região, reativando, assim, o parque industrial e impulsionando, com isso, a produção e o emprego em todos os países sul americanos. Procedendo desta maneira, em pouco tempo, a América do Sul poderia duplicar seu comércio interior; o que implica em comercializar, internamente, mais da metade do comércio exterior total dos países da região. Isto poderia ser feito tão somente dirigindo para a região as exportações atuais de alimentos e energia para cobrir as necessidades dos países que os necessitam. O caso exemplar da integração entre o Brasil e a Argentina, como o que vem se processando na campo econômico desde 1986 e mais recentemente sob a égide do Mercosul, reafirmam os pressupostos desta proposta. Em questão de semanas, meses, ou talvez poucos anos, à base de um maior conhecimento das possibilidades de exportação e das necessidades de importação de produtos manufaturados de todos os países da região, estima-se que o comércio dentro da região poderia chegar a absorver mais de 75% do total do comércio exterior, superando inclusive o nível de integração atual do comércio da União Européia. Isto se deve a natureza complementar das economias sul-americanas. Os 25% restantes seriam formados de produtos que a América do Sul não produz, nos dias de hoje, e daqueles, cuja capacidade de produção é insuficiente no tocante às necessidades atuais, como é o caso de certas matérias primas para a indústria química, diversos produtos básicos como fertilizantes, pesticidas e medicamentos, e uma grande parte dos bens de capital, sobretudo maquinaria e equipamentos de alta tecnologia como o demonstra o quadro abaixo: Nível de auto-suficiência da América do Sul (porcentagens) Superior a 80% Inferior a 80% Alimentos: Minerais: Cereais......................... 123 Carvão e coque................. 40 Carnes.......................... 123 Cromo............................... 73 Peixe e mariscos.......... 188 Titânio............................... * Leite e derivados......... 105 Tungstênio........................ * Frutas e verduras......... 115 Energéticos: Matérias primas: Petróleo cru................. 142 Rocha fosfórica................. 45 Petróleo refinado......... 100 Potássio............................. * Soda cáustica.................... 73 Minerais: Produtos básicos: Minério de ferro.......... 257 Fertilizantes...................... 70 Minério de cobre......... 128 Pesticidas.......................... 45 Bauxita........................ 183 Medicamentos................... 30 Manganês.................... 161 Enxofre....................... 97 Manufaturas: Metais básicos: Máquinas e equipamento..................... 50 Ferro e aço................... 100 Automóveis e caminhões......................... 70 Cobre........................... 282 Alumínio..................... 120 Produtos básicos: Chumbo....................... 123 Cimento............................ 100 Zinco........................... 104 Fibras sintéticas................ 85 Estanho........................ 114 Manufaturas: Níquel......................... 100 Têxteis.............................. 105 * Auto-suficiência inferior a 10% Fontes: ONU, Bird e estimativas próprias. O fato é que se considerarmos a região em seu conjunto, isto é, como uma só economia, a América do Sul dispõe de capacidades produtivas, recursos naturais e força de trabalho suficientes para cobrir quase que totalmente as suas necessidades atuais. Se fossem completadas as capacidades de cada país com as dos demais reduzir-se-ia, em muito, a dependência e vulnerabilidade econômica da região. Dessa maneira, a América do Sul até estaria em condições de atuar como potência econômica no concerto mundial. Hoje, sem dúvida, a América do Sul, excetuado, e mesmo assim com ressalvas, o Mercosul, padece de uma escassa integração econômica, e, em conseqüência, apresenta uma orientação errônea, em nossa opinião, para o comércio exterior de cada país. Embora alguns países produzam o que os demais necessitem, em sua grande maioria, os produtos são exportados para fora da região e as necessidades são cobertas, principalmente, através de importações também de fora da região. Isto se dá, porque, individualmente, cada país sul americano subordinou suas exportações ao objetivo central de conseguir divisas para pagar suas dívidas externas e equilibrar o balanço de pagamentos. Mecanismos de dominação criaram uma excessiva dependência da divisa, em especial, do dólar, para o comércio, de modo que a simples idéia de deixar de receber dólares assusta a cada um e a todos os governos sul-americanos. Os governos tendem a associar sua segurança econômica ao único fato de possuírem, em reserva, determinada quantidade de dólares, independentemente do estado real em que se encontra sua economia. Em tais circunstâncias, a "estratégia comercial" se reduz a vender o que seja, a quem quer que seja, desde que o pagamento seja feito em dólares. Mais recentemente, a estratégia alterou-se na forma, mais mantendo suas características perversas. Neste momento procura-se importar capitais e não mais com tanta ênfase exportar produtos. Em toda a América do Sul, no momento, toda a importação de capitais é bem vinda, mesmo tendo fins especulativos ou voltada para a desnacionalização de ativos. No fundo o que se continua querendo é o dólar. Darc Costa Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL . .

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