Contabilidade Híbrida: limites alcançados pela contabilidade digital

Por Sérvulo Mendonça.

Opinião / 17:46 - 29 de nov de 2019

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Como em um pesadelo, dormimos com o fantasma de que a tecnologia cada dia mais avança e que, a cada minuto que passa, uma nova solução sistêmica aparece, pronta para tirar mais uma atividade dos profissionais contábeis.

Obviamente concordo que muitas atividades, sem nenhum apelo intelectual, podem, devem e eu quero que sejam substituídas por qualquer inteligência artificial que gere mais produtividade e assertividade. Mas não é bem assim, nem tão simples quando parece.

Estamos basicamente falando da tecnologia que cresce e está muito mais envolvida com as atividades de reconciliação bancária do que com as atividades contábeis. Mas então por que o medo? O que de tão ruim existe na possibilidade de automatizarmos algumas tarefas repetitivas?

 

Estamos buscando, erroneamente,

prever algo imprevisível

 

Creio que não seja esse o problema. Há anos as grandes empresas de software e soluções contábeis, como apurações tributárias, obrigações acessórias, e até mesmo folha de pagamento vem resolvendo pequenos desafios que de certa forma eliminam a atividade humana, mas nunca falamos tanto em sermos substituídos. Na realidade, nunca vimos esse avanço, muito maior que o atual, como um elemento catastrófico capaz de eliminar uma ciência da face da terra. Então o que houve?

Explico: as novas e atuais empresas de software, que se amontoam e se digladiam, para terem cada vez mais contadores, é que são as responsáveis pela mudança de foco da profissão. Passamos a acreditar em informações finitas, míopes, que nos levaram a acreditar que automatizar extratos bancários passou a ser a oitava maravilha do mundo. Ora, não é bem assim, há mais de cinco anos já havíamos criado em nossa empresa uma planilha de conversão de dados que automatizava lançamentos, e nem por isso enxergávamos aquilo como atributo de redução de honorários ou intelecto.

Vivemos um caos estrutural e uma enorme e sádica necessidade de ter medo, de tudo e de todos. Então me deixe explicar: nenhum software que eu conheça realiza automaticamente as interpretações das normas e princípios contábeis; da mesma forma, nenhum software atual é capaz de prever com certeza razoável a maneira como um tributo irá se comportar dentro de um pool de produtos ou serviços.

Estamos buscando, erroneamente, prever algo imprevisível. Então façamos apenas o que sempre fizemos: vamos nos adaptando, ajustando, corrigindo e crescendo, porque a mera concepção de melhorias em um processo de integração de dados financeiros é muito, repito, muito pouco para sairmos por aí falando em “fim”.

Meu voto é na permanência da Contabilidade Híbrida, aquela que intermedeia e apoia as mudanças sistêmicas, mas também aquela que é absolutamente necessária para definir, por exemplo, se um carro será comprado em nome de pessoa física ou jurídica para que não se tenha um imposto adicional, no caso diferencial de alíquota do ICMS.

Nenhuma máquina é capaz de prever o futuro, até porque previsões são feitas com base em atributos de conhecimentos que se limitam a um saber momentâneo, sem considerar os efeitos de “cisnes negros”. Nassim Nicholas Taleb cita essa existência em sua obra O Cisne Negro e comenta esse fato como mais comum do que imaginamos, ou seja, todos os dias recebemos “cisnes negros” capazes de modificar toda uma estrutura de pensamento.

Saibamos ouvir, interpretar e entender que nenhuma profissão tende a acabar pelo avanço tecnológico, mas todas tendem a se modificar por esse mesmo avanço. Achar que a tecnologia evolui e o homem não é esquecer quem é o criador e quem é a obra, por isso, até que provem o contrário, foi o homem quem descobriu e inventou toda a tecnologia, que, por essência, portanto, nunca poderá “aniquilar” seu próprio criador.

Vivemos dias confusos. Faço um apelo para que voltemos ou que passemos a fazer e a usar a contabilidade como ciência, e só esse fato já criará o “cisne negro” que modificará todos os conceitos atuais novamente. Enquanto muitos batem palma para a miopia, outros estão sofrendo, desesperados por achar que estão lutando contra tudo e contra todos. Sejamos mais firmes na contraproposta de considerar o “homem” como obra divina, não a máquina.

Acredite, se você passar a enxergar, como diz o grande Contador Ronaldo Dias, no “Poder Oculto da Contabilidade”, verá sem achismos que somente agora é que estamos perto da perfeição, e não o contrário. Não há desafio nenhum pela frente que não possa ser comparado e ultrapassado como os outros tantos que a belíssima profissão contábil já enfrentou.

Então foco, força e fé!

Sérvulo Mendonça

CEO & Compliance Officer do Grupo Epicus.

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