Confundindo alhos com bugalhos

Por Roberto Pereira D’Araujo.

Opinião / 17:15 - 12 de ago de 2019

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Quem tiver a paciência de assistir ao pequeno vídeo do último programa Painel, da GloboNews, vai assistir ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, respondendo ao ex-presidente do Inpe – aos 2 minutos e 30 segundos – com um questionamento que demonstra o grande risco que correm as instituições e empresas estatais no Governo Bolsonaro.

Quem não conseguir assistir, o que foi perguntado ao Dr. Ricardo Galvão, presidente demitido do Inpe, foi: “Por que essas instituições que o Sr. cita não fizeram o que o senhor recomenda antes?”

Isso foi mais do que um lapso de linguagem! O Ilumina não é psicólogo, mas Freud explicaria que o ministro do Meio Ambiente confunde o Inpe e outras instituições como o governo do PT. Evidentemente, o Dr. Ricardo Galvão respondeu o óbvio: as instituições “fizeram”. Quem não fez foi o governo!

 

Conceito básico de uma nação:

Estado e governo não são a mesma coisa

 

Isso nos leva ao caso da Eletrobras, tantas vezes acusada de “ineficiência” pelo seu próprio atual presidente, Wilson Ferreira. Como já mostramos muitas vezes na nossa página, a ineficiência não nasceu dentro da empresa pública Eletrobras. Ela foi imposta pelo controlador, o governo. Pior! Foi prática de vários governos, teoricamente “opositores”.

Quem disse que a ideia de comprar distribuidoras rejeitadas pelo mercado na década de 90 e que geraram prejuízo para a empresa nasceu dentro da Eletrobras? Governo FHC!

Quem disse que a perda de contratos iniciais durante o pós racionamento, que obrigou as usinas da Eletrobras a continuar gerando e praticamente “doando” energia para o mercado livre surgiu dentro da Eletrobras? Governo Lula!

Quem disse que a consequência dessa decisão criou um preço “spot” que se viciou em contratos de curto prazo que fez um mercado que não sustenta a expansão da oferta foi criada dentro da Eletrobras? Governo Lula!

Quem disse que o socorro das Sociedades de Propósito Específico, onde a estatal é minoritária para garantir a expansão da oferta surgiu da equipe da Eletrobras? Governo Dilma!

Quem disse que intervenção tarifária da MP 579, que reduziu as “tarifas” das usinas hidráulicas da estatal como única atitude para conter a explosão tarifária que ocorre desde a mercantilização surgiu dentro da Eletrobras? Prejuízos impostos! Governo Dilma!

Quem disse que a Eletrobras reconhece que tem muitos empregados e precisa mandar seus técnicos embora independente de sua expertise, quando, na realidade, é a que tem o menor índice empregado/MW? Governo Temer!

Quando um país tem governos que não reconhecem instituições com experiências técnicas, com registros de história e com a possibilidade de reduzir riscos em áreas que podem trazer insegurança para todos, a crise é muito grave.

Estamos perante o conceito básico de uma nação. Estado e governo não são a mesma coisa, assim como alho e bugalho. Países desenvolvidos, tão capitalistas quanto se queira, sabem criar regras que preservem as instituições de serem sacrificadas para consertar os erros dos governos. O Brasil não sabe, destrói sua história e a sociedade desinformada aplaude!

Roberto Pereira D’Araujo

Engenheiro, é diretor do Ilumina.

Artigo publicado em ilumina.org.br

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