Choques inflacionários 'ainda' se dissipam no tempo

Segundo Mapfre Investimentos, índice deve ficar em 4% no fim do ano.

Opinião do Analista / 16:01 - 10 de jul de 2019

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Mesmo com o feriado na terça-feira, essa semana conta com a divulgação de indicadores relevantes, principalmente para a economia nacional. O IBGE apresenta a Pesquisa Mensal do Comércio e a Pesquisa Mensal de Serviços, nos dias 11 e 12, respectivamente. Ainda mais relevantes são os índices de inflação, como o IGP-DI, hoje, e o IPCA, na quarta-feira. Além disso, nos EUA, serão divulgados a ata do Comitê de Política Monetária (Fomc) e o Índice de Preços ao Consumidor nos dias 10 e 11, respectivamente. Mas será no front doméstico que as atenções deverão se concentrar.

A expectativa do mercado para o IPCA de 2019 foi revisada para baixo nas últimas quatro semanas. De acordo com o Relatório Focus, a mediana passou de 4,03% para 3,80% por conta da inflação esperada para junho, que sofreu revisões baixistas sucessivas e, hoje, está em -0,03%. O motivo, mais uma vez, é o impacto de choques momentâneos. Esses movimentos deflacionários e inflacionários pontuais, se não forem suficientes para mudar a trajetória das medidas subjacentes –o que não ocorreu nas últimas quatro semanas–, costumam se dissipar ao longo dos meses, exercendo impacto irrisório sobre a inflação de longo prazo.

Os iminentes indícios de choques de oferta e de demanda no segundo semestre (cuja dissipação dentro do ano-calendário ficaria comprometida por conta do período reduzido) apontam para o sentido oposto. Entre eles, estão: a decisão da Organização dos Países Exploradores de Petróleo (Opep) e das nações aliadas de cortar a produção de petróleo por nove meses, e a peste suína asiática, que gera uma demanda adicional por proteína animal brasileira infinitamente superior à capacidade produtiva nacional.

Como se não bastasse, o Banco Central diminuiu o compulsório bancário. Com isto, a massa de crédito disponível tende a aumentar, evitando que o nível de consumo das famílias caia no curto prazo. Esta situação conteria, teoricamente, o desaquecimento do comércio e de serviços.

Não há, portanto, motivos concretos para que a expectativa sobre a inflação acumulada em 2019 sofra redução de 0,23p.p. neste momento. Diante deste contexto, a Mapfre Investimentos mantém a projeção em 4%. Estamos atentos aos próximos eventos.

 

Empresas e setores: setor automotivo - vendas diretas em alta

É verdade que o setor automotivo é um dos poucos com bom desempenho na economia em 2019. Os dados divulgados na semana passada pela Fenabrave e pela Anfavea indicam que o segmento continua superando os números do mesmo período do ano anterior.

Na margem, entretanto, após meses de recuperação, observa-se fraqueza em junho na comparação com maio. O que vem ocorrendo é que a crise na Argentina leva as exportações de veículos brasileiros a descerem ladeira abaixo. Somente no primeiro semestre do ano, notamos redução de 42% das vendas externas na comparação com o mesmo período do ano anterior. O governo do presidente Mauricio Macri fechou uma parceria com setor automotivo para oferecer descontos que podem chegar a R$ 7,8 mil nos preços dos veículos. A reserva total do programa é de um bilhão de pesos, aproximadamente R$ 90 milhões. Mas ainda aguardamos impactos positivos do programa.

O crescimento das vendas de automóveis no Brasil é o que mantém o desempenho positivo do setor. Os benefícios de isenção de impostos para portadores de deficiência e para taxistas, além das vendas para frotas de empresas e locadoras, têm favorecido o negócio das montadoras. Se considerarmos os últimos 10 anos, as vendas diretas cresceram cerca de 92%, sendo atualmente responsáveis por quase metade do comércio de veículos no país. Com o enfraquecimento da renda dos brasileiros e a queda da exportação, a indústria automotiva precisa intensificar sua estratégia no varejo para reduzir estoques e preservar seu volume de produção.

Essa situação beneficiou principalmente as locadoras de veículos, que acompanham as mudanças na modalidade urbana. A locação de carros tem crescido com serviços de motoristas particulares, como Uber, Easy e 99, além da demanda corporativa. O volume de estoque alto nas montadoras permite às locadoras potenciar seu poder de negociação, conquistando melhores preços e prazos para renovação de sua frota. Para se ter uma ideia, a venda direta de veículos leves representou 19,8% do total comercializado por General Motors, 16,3% da Volkswagen e 12,3% da Renault. Sem dúvida, uma tendência.

 

Gestão: O jogo só acaba quando termina

Na quinta-feira passada, a comissão especial da Câmara aprovou o texto-base da reforma da previdência, com economia estimada de R$ 1 trilhão em 10 anos, excluídos estados e municípios que, ainda assim, poderão ser incluídos via destaque em plenário. Em resposta, o Ibovespa renovou máximas acima de 103 mil pontos, e os DIs devolveram prêmios, mais acentuadamente nos vértices mais curtos. Reflexo de uma etapa vencida no longo périplo pela aprovação da reforma e sua maior probabilidade de aprovação descontada nos preços.

Cauteloso, Jair Bolsonaro se antecipou aos mais afoitos e afirmou que "a reforma ainda não acabou". De fato, ainda restam dois turnos de votação, na Câmara e no Senado, e nesse ínterim tudo pode acontecer.

Já no cenário externo, foram conhecidos ao final da semana passada os dados do mercado de trabalho nos EUA em junho, com a criação de 224 mil vagas, bem acima das 160 mil esperadas. A leitura imediata foi a de que o vigor do mercado de trabalho - na menor taxa de desemprego em uma geração (3,7%) - desautoriza, no momento, qualquer relaxamento da política monetária, o que contribuiu para o fortalecimento da moeda americana frente aos principais pares internacionais.

Para esta semana, destaque na China para os dados da Balança Comercial, na quinta-feira, e para os Investimentos Estrangeiros Diretos na sexta-feira. Na Zona do Euro, serão apresentados os dados da Produção Industrial de maio (esperado 0,2% M/M e -1,6% A/A).

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