Cenário externo definirá tom de 2001

Opinião / 14:47 - 18 de jan de 2001

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A principal preocupação para o desempenho da economia brasileira neste ano está no quadro internacional. A situação fiscal, a inflação e a atividade econômica serão questões secundárias. A política econômica atual está desenhada de maneira adequada ao contexto brasileiro - economia aberta, câmbio flexível e política monetária voltada formalmente para uma meta de inflação. No entanto, os acontecimentos externos podem tornar inviável atingir os objetivos da política econômica - crescimento com estabilidade de preços, estabilizar a dívida pública líquida e o passivo externo líquido. A sucessão de problemas e riscos presentes na economia internacional ano passado - petróleo caro, crise na Argentina, risco de desaceleração forte nos EUA, euro fraco - infelizmente não se esgotou, e sinaliza maiores dificuldades no financiamento externo em 2001, menor crescimento mundial e volatilidade ainda elevada no mercado financeiro. A incapacidade de o Brasil gerar superávits comerciais modestos, suficientes para a redução do déficit em conta corrente ao nível de 2,5% a 3,0% do PIB, revela a pequena eficiência no médio prazo da desvalorização cambial. Que mais faltaria à economia brasileira para aumentar exportações e substituir importações (via preço, não via tarifas e subsídios)? Esta questão deve centrar o debate econômico neste ano. A ocorrência de um déficit comercial pelo segundo ano pós-desvalorização e câmbio flexível significa que o País continua fortemente dependente do financiamento externo. Em 1999/00 o investimento direto estrangeiro (IDE) bateu recordes, cerca de US$ 30 bilhões ao ano. Mas em 2001 é razoável supor que este financiamento cairá substancialmente devido a alguns fatores: (a) menor receita de privatização, (b) diminuição das transações de fusões e aquisições, em função da queda das bolsas e desaceleração da economia americana, (c) risco latino-americano subindo e menor perspectiva de crescimento da região, reprogramando investimentos das multinacionais. As projeções apontam para déficit em conta corrente de cerca de US$ 24 bilhões a US$ 27 bilhões em 2001 (4% do PIB), dos quais US$ 20 bilhões a US$ 23 bilhões poderiam ser financiados por IDE, e o restante por novas captações de empréstimos, a custos maiores que este ano. Certamente, é um cenário bem mais confortável para o Brasil que o das crises externas de 1997 e 1998, quando o déficit em conta corrente de 4,3% do PIB precisava ser financiado basicamente por capital de curto prazo e o regime cambial dificultava a absorção de choques externos. Obter financiamento externo em 2001 no montante da necessidade estimada de captação (US$ 56,5 bilhões) não parece difícil, dado que o acesso do País ao mercado é bom e o volume a ser tomado (US$ 34,5 bilhões) seria inferior ao deste ano. Mas o custo subirá, com implicações sobre o mercado doméstico de capitais (juros e câmbio). É importante lembrar que a captação líquida de médio e longo prazos em 2000 compensou uma redução de capitais de curto prazo e o pagamento de US$ 10,3 bilhões ao FMI, sem alterar o estoque da dívida externa total. Neste contexto, a ocorrência de eventos externos desfavoráveis ao Brasil teria respostas diferenciadas da política econômica: se a Argentina não conseguir restaurar a confiança, retomar o crescimento e afastar o espectro de default da dívida, mesmo após a obtenção do pacote de ajuda internacional, a ruptura da conversibilidade/paridade cambial traria um choque financeiro intenso e curto para o Brasil. Dada a correlação dos papéis de dívida externa dos países, o súbito aumento do risco Brasil traria uma dificuldade temporária de financiamento externo e a subida da taxa cambial. A reação do Bacen neste caso provavelmente passaria por maior oferta de papéis cambiais e, em seguida, elevação da taxa Selic, num processo que duraria poucos meses. Afinal, não há risco de default no Brasil e, após algum tempo, os mercados tendem a retomar a racionalidade. A ocorrência de um cenário de forte desaceleração (hard landing) na economia americana, por sua vez, seria um choque externo de proporções mais graves e duradouras, mas de menor impacto inicial sobre as cotações financeiras. Antes de a discutir, porém, é preciso esclarecer que este não é o cenário mais provável. Os mercados são ciclotímicos e, assim como em abril de 2000, quando o Nasdaq despencou, desde novembro passou-se a temer uma recessão súbita nos EUA. Se tal cenário se materializar, no entanto, reduz-se a perspectiva de crescimento mundial e, consequentemente, das exportações brasileiras por um longo período (2 a 3 anos). O déficit externo seria maior, e seu financiamento bem mais difícil, tanto em IDE quanto em empréstimos. Para lidar com tal situação, o governo precisaria desacelerar o crescimento brasileiro e permitir uma desvalorização da moeda. Cortes fiscais e uma maior tolerância na meta de inflação, portanto, seriam requeridos. A atuação em política monetária, contudo, pode ser controvertida. Subir juros Selic por um longo período seria inadequado por conter a desvalorização requerida, e ainda enfraqueceria a solvência fiscal. Mas algum aperto em política creditícia seria necessário para conter a demanda agregada, o que pode significar aumento da cunha fiscal ou maior regulamentação para empréstimos. Em outras palavras, a reação da política monetária deve ser diferente no caso de um choque financeiro temporário (eventual default argentino) versus o caso de redução duradoura do crescimento mundial. No primeiro caso justifica-se uma subida temporária de juros para minimizar os efeitos do contágio financeiro, mas no segundo caso a resposta a médio prazo pode ser uma redução de juros reais (acompanhando o Fed) para minimizar os efeitos recessivos domésticos. Preocupações secundárias O desempenho da atividade econômica em 2001 poderá sentir algum impacto do cenário internacional. A princípio, é possível contar com um crescimento em 2001 próximo ao de 2000 (cerca de 4%). Uma crise externa e a reação da política econômica, no entanto, podem cortar em 1 a 2 pontos percentuais esta expectativa. O quadro fiscal tem bons resultados, mas de qualidade ruim. As contas públicas mostram superávits elevados, obtidos com contribuições e impostos distorcivos e receitas extraordinárias, que devem diminuir em 2002. Mas o governo não mostra empenho em reformar o sistema tributário de maneira racional - a última chance política para a administração Fernando Henrique Cardoso será em 2001 - e enfrenta pressões por aumento de gastos e as surpresas com esqueletos. Um ponto positivo a se destacar é que a Lei de Responsabilidade Fiscal parece ter funcionado para Estados e municípios neste período de eleições, pois estas esferas de governo reportaram superávit primário expressivo até outubro/2000. A inflação tornou-se uma preocupação secundária para 2001. Primeiro, porque os esforços em assegurar uma trajetória declinante desde 1999 estão sendo bem-sucedidos. Segundo, porque o efeito "pass through" (repasse a preços) da desvalorização tem se mostrado bem menor que o esperado, mesmo com a recuperação da atividade econômica. De fato, o crescimento da demanda direcionou-se para importações, mais que os acréscimos de preços. Terceiro, porque a inflação no Brasil desde 1999 é causada basicamente por tarifas públicas e derivados de petróleo, não por preços privados. A eficiência da política monetária guiada por metas de inflação é baixa quando não há inflação de demanda. Portanto, o condicionante da trajetória de juros atualmente não é a inflação prospectiva, mas sim o cenário internacional. Marcelo Allain Economista-chefe do Banco Inter American Express, vice-presidente do conselho diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e professor do MBA em Economia do Setor Financeiro da Fipe/USP. E-mail: marcelo.allain@biamex.com.br. Artigo publicado no Economia em Perspectiva, do Corecon-SP.

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