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Carta aberta a Fernando Haddad

Opinião / 10 Outubro 2018

Meu caro Fernando,

A preservação da liderança de Lula é fundamental para o movimento de massas no Brasil (e não ignoramos sua influência em todo o continente), e sua liberdade, pedida nas ruas e reclamada nos tribunais, é objetivo do qual não podemos nos arredar – mas não encerra a luta toda. Da mesma forma, a preservação do PT, e mesmo seu fortalecimento, embora importantes, não podem ser o único objetivo das forças progressistas neste pleito inconcluso mas já em estágio avançado, nos termos conhecidos.

Há algo mais importante a unir-nos e a cobrar nossa luta: a defesa da democracia, ameaçada como jamais esteve entre nós, desde 1964. Sua eleição – sem a qual as condições de luta e preservação da democracia tornar-se-ão precárias – não se encerra na meta eleitoral do dia 28, porque, desde já, devemos enfrentar o Brasil desenhado pelas eleições do último dia 7, a saber, uma grave inclinação do eleitorado para a extrema-direita, facilmente mensurável no antipetismo (e em suas consequências eleitorais), em nossas derrotas estaduais e na composição do novo Congresso, cujo abastardamento, legitimado pelo voto, venceu as mais pessimistas previsões. E será com ele que haveremos de governar a partir de 2019.

 

O candidato de todos, de petistas e

não petistas, comunistas e conservadores

 

E governaremos se ganharmos no pleito e, em termos decisivos, na disputa política, a única que possibilitará o apoio popular que nos faltou principalmente nos idos de 2015 e 2016.

Essas observações me ocorreram ao assistir ao seu primeiro pronunciamento público, logo após o anúncio de nossa (acentuo o plural) passagem para o segundo turno. Refiro-me mais precisamente àquele ponto inicial quando você agradecia a generosidade do povo brasileiro que teria votado em você, para poder recolocar o PT no poder.

Do meu ponto de vista há um engano de percepção nesse discurso, e esse engano, que, aliás, perpassou toda a campanha do primeiro turno, pode ser perigoso nesta fase decisiva, pois, se errarmos, a História não nos oferecerá a oportunidade do sursis.

Se você contou com o voto da aguerrida (e sofrida) militância petista, contou também com o voto de milhões de brasileiros, filiados a outros partidos ou a nenhum partido filiados, meu caso. E votamos em você com a mesma convicção cívica com que teríamos votado em Ciro ou em Boulos – porque sua candidatura representava, e felizmente os fatos confirmaram nossa leitura do processo, a única possibilidade eleitoral de impedir a vitória da extrema-direita.

Você agora é o representante de todos nós, e vencerá, se conseguir ser, mais do que o candidato do PT, o candidato de todos, de petistas e não petistas, de socialistas e trabalhistas, de comunistas e de conservadores preocupados com o destino da democracia, enfim, o candidato das forças populares e democráticas, de todas elas, liderando uma frente partidária e popular a mais ampla possível.

Só assim, caro Fernando, você terá condições de, nas eleições, fazer face à maré montante da ameaça protofascista, que, no voto, desalojou o centro e a direita tradicional e avançou no eleitorado popular e de esquerda.

Você sabe que não é irrelevante havermos perdido as eleições em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, nossas três maiores aglomerações urbanas e território de nosso parque industrial, ou seja, moradia mais numerosa de nosso proletariado.

Não é menos relevante a onda antipetista, muito responsável pelos números desagradáveis do pleito. É preciso decifrar essa esfinge antes que ela nos devore. Desculpe a franqueza de amigo e admirador: você precisa estar à altura desse desafio, maior do que aquele vencido por Lula em 2002!

Naquele então travava-se uma disputa entre o neoliberalismo esgotado e a expectativa (por nós representada) de desenvolvimento com emergência das massas. Era muito, nas circunstâncias, mas hoje o desafio sob sua liderança é ainda maior, pois se trata da disjuntiva democracia ou barbárie, e se perdemos quem vai pagar a conta é o povo, que sempre paga, quando se vê submetido ao jugo da extrema direita.

Trocando em miúdos e conversando com a nossa franqueza habitual, insisto no ponto central dessas observações: você, sem deixar de ser o candidato do PT, precisa ser visto como o candidato de todos os democratas e falar para todos, não apenas para a militância do PT e dos demais partidos e organizações de esquerda.

Como você sabe muito bem, o indivíduo não escolhe arbitrariamente seu papel na História; este lhe é ditado pelas circunstâncias do processo social. Por mil e uma razões que não interessa, aqui, discutir, coube-lhe a missão de construir e comandar uma grande frente democrático-popular reunindo, de A a Z, todos os que lutam pela democracia. Defendê-la é nosso papel histórico.

Você é mais do que um candidato do PT e do PCdoB. É o candidato de todos os que estiveram conosco na virada eleitoral de 1974 e formaram conosco na grande frente das Diretas Já e na implosão do colégio eleitoral (1984) com a eleição de Tancredo Neves e a derrota de Paulo Maluf, o candidato da ditadura.

Creia, não estou exagerado quando trago à lembrança esses fatos (campanha das Diretas Já e implosão do colégio eleitoral), filiando-os a uma mesma linha histórica, da qual o processo de hoje é sua retomada. Naquela altura tratava-se de derrubar uma ditadura, agora trata-se de impedir que uma outra se instale, e desta vez (o que faltou aos militares) com o respaldo do voto popular, assim como foram, com as consequências conhecidas, as ascensões de Mussolini e Hitler, na Itália e na Alemanha da primeira metade do século passado.

É impossível ampliar se não caminharmos para além de nosso arco. Ele é grande, nossa militância é de primeira linha, mas, estão aí os números, os votos petistas, lulistas e assemelhados não são suficientes para a vitória. O entusiasmo da militância é fundamental, mas será inócuo se não soubermos colocá-lo a serviço de uma estratégia correta.

O companheiro Lula, que defendeu a política de alianças e foi eleito em 2002 e reeleito em 2006 graças a essa política, deve ser chamado por você para ajudá-lo e ajudar todos os democratas nessa grande campanha que deve ser a sua vida por todo este mês quando você, com um discurso renovado pelos fatos, unirá o país contra o ódio.

Em suas mãos está a confiança dos que lutam contra a real ameaça de implantação de uma ditadura e consequente consolidação do monopólio do poder pela extrema direita civil-militar, assim fechando o círculo golpista iniciado com a deposição de Dilma Rousseff.

Não se veja o avanço da direta como uma simples onda, a onda da “primavera brasileira”, mas um movimento tectônico, que, se não contido, e para contê-lo precisamos ganhar essas eleições – e não a ganharemos sozinhos – pode nos ameaçar com sua perdurância, como por tantos anos sobreviveram, fazendo nosso povo sofrer, o Estado Novo e a ditadura instaurada pelos militares em 1964.

Tudo o que aqui alinhavo numa carta escrita às pressas importa uma revisão do discurso (latu senso) da campanha. Não podemos pôr de lado nossas teses, acadêmicas ou programáticas, mas igualmente não podemos fazer ouvidos de mercador às reais angústias e pleitos das grandes massas que pretendemos representar, e cujos interesses sem dúvida defendemos como princípio de vida.

Relativizando a importância do discurso sobre o que foi feito nos nossos governos, precisamos falar sobre o que faremos e o que impediremos que se faça. E temos muito o que dizer.

Um abraço de seu amigo e eleitor,

 

Roberto Amaral

Escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia (2003–2004).

www.ramaral.org