Carambolas

Opinião / 14:26 - 27 de jun de 2000

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Dizem que carambolas são frutas muito especiais: contêm um veneno e o antídoto em cada fruta. Devem ser comidas inteiras, do contrário corremos o risco de intoxicação. Existem dois tipos de economistas: os que inventam teorias e os que desinventam. Funcionam como remédio e antídoto. Muitas vezes é mais difícil inventar o antídoto do que o remédio venenoso. O problema não é limitado ao pensamento econômico. A vida mental é inercial e covarde: não gostamos nem de mudar a forma de pensar nem de ficar sem teoria nenhuma. No primeiro quarto do século 20, marxistas europeus se recusavam a qualquer participação política ativa, pois a revolução proletária que finalmente implantaria o comunismo estava prestes a se realizar, de acordo com a interpretação marxista corrente. Gramsci era heterodoxo, pois não se conformava com a fé dogmática dos companheiros. Esse tipo de idéia surge geralmente entre conservadores, isto é, os donos do "livro" ou da herança intelectual de alguma área de conhecimento. Depois da Primeira Guerra Mundial, economistas acreditavam que, apesar de todas as mudanças estruturais ocorridas - ascensão e hegemonia dos Estados Unidos no lugar da Inglaterra, desmonte do Império Austro-Húngaro, Revolução Bolchevique na Rússia, pesados pagamentos de reparação impostos à Alemanha derrotada, a economia mundial voltaria à prosperidade de antes da guerra desde que as taxas de câmbio fossem corrigidas de acordo com a teoria da paridade do poder de compra e fixadas. A teoria e a política econômica passivas custaram várias hiperinflações na Europa Oriental e culminaram com a crise de 1929. As teorias que propõem inatividade ou remédios simples - não faça nada, não intervenha, deixe como está - têm muito sucesso. É análoga a situação atual, em que economistas do mundo inteiro acreditam que, cortando o déficit público e privatizando as empresas estatais, todos os países do mundo podem se transformar em Inglaterras e Estados Unidos que crescem sem inflação e com democracia. Nos anos 70, os monetaristas de Chicago propuseram a teoria de que a quantidade de moeda tinha de crescer a taxas constantes, iguais à taxa de crescimento da economia, e de que o Banco Central deveria ser independente para praticar essa política. A teoria seduziu governos e mercados do mundo inteiro, apesar de ninguém saber direito o que é moeda, isto é, como se define aquilo que deveria crescer a uma taxa constante dada pelo crescimento da economia. Ainda tem vigor teórico, faz parte dos discursos na América Latina, embora, na prática, todos já a tenham esquecido. Os exemplos não acabam: o imposto único, que nunca existiu, acabou se tornando a CPMF. O caso mais interessante é sobre o mercado de capitais. Há uns 30 anos, teóricos de finanças vieram com a teoria de que o mercado de capitais é eficiente, isto é, os preços das ações ou as taxas de juros refletem todas e as melhores informações disponíveis sobre a economia. A teoria tinha tudo para dar certo - ideologicamente consistente, simples, sedutora e misteriosa. Virou verdade. Banqueiros do mundo inteiro vivem dizendo que é impossível "ganhar" do mercado, ou seja, ir contra o mercado. Foram criados fundos de ações cujo objetivo é acompanhar a evolução do índice da Bolsa, pois, de acordo com a teoria, ninguém é capaz de "ganhar" do mercado. Aplicadores brigam com os administradores desses fundos, pois, se ganharem mais do que o mercado, estão indo contra a teoria e assumindo riscos desnecessários Devemos ser muito gratos ao professor Shiller, da Universidade Yale, que mostrou, com simplicidade e bom senso, que o mercado de capitais funciona mal como funciona por causa de mimetismo, discurso apologético sobre a nova economia e otimismo. Não é preciso repetir os argumentos. Basta ver que o índice preço/lucro da Bolsa de Nova York já atingiu valores maiores do que 40 no ano passado, enquanto em 1929 havia atingido valores em torno de 30. Mesmo que a economia americana cresça continuamente a 4% ao ano, por muitos anos, se os lucros acompanharem a expectativa da Bolsa, a participação dos lucros corporativos na economia americana vai dobrar, o que é altamente improvável. Ou seja, a exuberância é realmente irracional. A demonstração custou trabalho, pesquisas e dois best sellers - "Volatilidade de Mercado" e "Exuberância Irracional" (Princeton Universtity Press). No Brasil, acredita-se que a globalização inaugurou nova era, a qual tornou os governos incapazes de fazer qualquer política econômica que incentive o desenvolvimento, reduza as disparidades ou promova o interesse nacional. A crença, como sempre, é confortável. Se durar tanto quanto a teoria dos mercados eficientes, temos que esperar mais dez anos para nos livrar dela. Talvez a realidade a substitua antes. João Sayad Economista, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro do Planejamento (governo José Sarney); é autor de "Que País é Este?" (editora Revan). email E-mail - jsayad@ibm.net Artigo fornecido pela Agência Folha.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor