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Cadê o liberalismo econômico?

O governo, que tanto criticou o intervencionismo petista, perde credibilidade.

Conversa de Mercado / 19:12 - 12 de Abr de 2019

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Mais de R$ 30 bilhões é o tamanho da conta do intervencionismo estatal na Petrobras. Eleito com a bandeira do liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes, o que é uma contradição ao laissez-faire, o atual governo lançou mão do que tanto criticou: “dilmanizou” e vetou a decisão da petrolífera de reajustar o preço dos combustíveis. O resultado foi que as ações desabaram na B3. O clima no mercado financeiro já tinha deixado de ser otimista há algumas semanas e se transformado em cautela. A intervenção foi a gota d’água para os investidores, e as ações da Petrobras despencaram mais de 8% somente nesta sexta-feira.

No dia anterior, a empresa havia anunciado que aumentaria em 5,74% o preço médio do diesel vendido nas refinarias. No entanto, Bolsonaro determinou que o reajuste não aconteceria, pois a consequência seria a contaminação dos índices de inflação, um posicionamento típico da ex-presidente Dilma Roussef. “Se me convencerem, tudo bem, se não me convencerem tudo bem. Não é resposta adequada para vocês, não sou economista, já falei. Quem entendia de economia afundou o Brasil, tá certo? Os entendidos afundaram o Brasil”, afirmou o presidente em evento de inauguração do aeroporto de Macapá.

Colocando panos quentes na situação, a estatal comunicou que há margem para adiar o aumento do combustível. E, no momento em que se discute a independência do Banco Central, o mercado passou a olhar para a dependência da Petrobras, que negou a pressão do governo. Em comunicado ao mercado, a companhia disse que “revisitou sua posição de hedge e avaliou ao longo do dia, com o fechamento do mercado, que há margem para espaçar mais alguns dias o reajuste no diesel”.

Com o fim da Nova Matriz Econômica de Dilma, a Petrobras, a partir de 2016, passou a adotar uma política de preços que busca a paridade. Por esse motivo, os preços dos combustíveis têm sofrido ajustes mais constantes. Agora, volta o peso governamental. Não há como negar. A pressão não foi por debaixo dos panos, e fica a pergunta: a estatal será novamente usada como uma âncora inflacionária, mesmo que isso signifique a piora de seus resultados e prejudique seus acionistas?

Há ainda que observar o outro lado, que mostra quem manda no Brasil. Há o temor de uma nova greve dos caminhoneiros, como a que gerou fortes prejuízos ao país no ano passado por conta da alta do combustível. Do jeito que este governo, que recebeu votos dos caminhoneiros – vide as faixas dos grevistas na época – está enfraquecido, o que faria outra greve deste tipo na economia? O fato é que, depois de mostrarem sua força, a Petrobras virou refém dos caminhoneiros e, agora, do próprio presidente. “Estou preocupado com o transporte de cargas, com os caminhoneiros, são pessoas que fazem o transporte de cargas, de riquezas, Norte a Sul, Leste a Oeste e têm que ser tratados com o maior carinho e consideração”, afirmou Bolsonaro.

O governo, que tanto criticou o intervencionismo petista, perde credibilidade. Bolsonaro declarou não ser intervencionista, mas fez a intervenção. Segundo o próprio presidente declarou, ele exigiu uma justificativa para a decisão da empresa, baseada em números, ao ligar para o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. “Liguei para o presidente, sim. Me surpreendi com o reajuste de 5,7%. Não vou ser intervencionista e fazer práticas que fizeram no passado, mas quero os números da Petrobras”, declarou a jornalistas no mesmo evento.

Como diz o ditado, uma andorinha só não faz verão. Não adianta o liberal Guedes querer convencer o mercado de que, finalmente, o Brasil terá um governo liberal no poder se o presidente toma decisões que comprovam exatamente o contrário. Como ser acionista de qualquer estatal neste modelo? A decisão se mostrou comunista demais para este governo.

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