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Cabo de guerra

Economia será medíocre não somente este ano, mas 2020 está perdido também.

Conversa de Mercado / 03 Maio 2019 - 18:52

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Logo na posse do novo governo, esperava-se um crescimento mais rápido da economia. Não aconteceu. O PIB patina, o desemprego permanece em níveis elevados, e a situação só não é pior por conta dos apps que possibilitam autônomos sobreviverem por conta própria. Mas a culpa será sempre do PT. É fácil colocar a “herança maldita” no poder anterior, e nesse caso, o governo atual aprendeu com Lula, que falava o mesmo de FHC.

Fato é que destravar a economia e movimentar os investimentos em uma agenda liberal levará tempo, e o crescimento econômico será medíocre não somente este ano, mas 2020 está perdido também. Depois dos confetes ao “capitão liberal”, as projeções voltam à realidade semana após semana. No início de 2019, o Boletim Focus, publicado semanalmente pelo Banco Central, estimava um incremento do PIB para este ano de 2,53% (dado de 4 de janeiro). Agora, a mediana é de 1,70% e tem mostrado queda semana após semana.

O custo já está pago, infelizmente. Agentes econômicos estão revendo para baixo o avanço do PIB deste e dos próximos anos, o mercado de trabalho não deve melhorar, e as empresas vão continuar tendo dificuldades com isso”, alerta o economista, José Roberto Mendonça de Barros, fundador da MB Associados.

Apontar o dedo para os erros dos outros é fácil. Difícil é fazer a autoanálise para mudar o que precisa ser mudado daqui para frente. Da forma como estão sendo feitas as coisas, não há estabilidade para criar um ambiente de confiança que leve à retomada econômica. Os números estão aí para comprovar a tese de que, como sempre, o Brasil será o país do futuro. O problema é que o futuro nunca chega. A produção industrial, por exemplo, fechou o mês de março com queda de 1,3%, na comparação com fevereiro. Em relação a março do ano passado, a perda foi de 6,1%, maior queda anual desde maio de 2018 (-6,3%), segundo os dados do IBGE.

Fato é que o próprio governo é o centro da instabilidade que impossibilita a confiança econômica. Há um cabo de guerra e ainda não é possível saber o resultado do choque entre alas do governo Bolsonaro, sejam olavetes, militares ou liberais. “O programa do Paulo Guedes é muito mais do que um programa liberal, ele tenta fazer uma revolução liberal, mas o presidente não é liberal”, destaca Mendonça de Barros.

Esta é a grande dicotomia do governo atual. Enquanto o ministro defende o Estado mínimo e as privatizações, ainda há um conservadorismo que contrasta com a agenda econômica proposta. Ao contrário do apregoado na campanha eleitoral, a grande revolução liberal ficará para depois. A história mostra que o liberalismo só acontece quando o presidente tem essa visão, e Bolsonaro está muito longe de ser um Reagan ou uma Tatcher. Ao contrário, em seu histórico pesa o conservadorismo.

Alguns passos vêm sendo para reduzir o peso do Estado na economia, como o anúncio de que a equipe econômica do governo elaborou um plano para reduzir as renúncias fiscais em cerca de um terço até 2022 (0,5 ponto percentual do PIB ao ano). A questão é que renúncia fiscal é dada para estimular a economia e retirada quando a economia vai bem. Neste caso, o estímulo é cortado num momento em que o PIB se encontra estagnado.

Segundo o Ministério da Economia, no ano passado as renúncias de tributos e os subsídios financeiros e creditícios concedidos pelo governo federal somaram R$ 314,2 bilhões. Do total, R$ 292,8 bilhões são de renúncias tributárias (4,3% do PIB). Os cortes na razão de 0,5 ponto do PIB por ano até 2022, farão os benefícios fiscais recuarem para 2,5% do PIB no último ano de Bolsonaro no governo.

Ora, quanto mais intervencionista o governo é, maiores os riscos de serem criadas assimetrias entre os diversos setores da economia. No entanto, é preciso lembrar que o principal papel do governo é de garantir a estabilidade econômica, buscando, através de políticas anticíclicas estimular a economia em momentos de retração e retirar sua intervenção em momentos de abundância. Sim, o PT errou ao exagerar no intervencionismo e nas renúncias fiscais, mas reduzir a potência dos aparelhos quando o paciente precisa respirar também não parece um procedimento seguro.

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