Burros com iniciativa

Quando decide agir pela própria cabeça, não faz nada que preste.

Seu Direito / 16:04 - 14 de out de 2019

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Nada mais exato do que a sabedoria popular. Os jargões, as máximas populares, o ditado e o linguajar do povo costumam resumir grandes doses de sabedoria numa simples frase. A necessidade de que você persista num objetivo está bem clara na máxima “água mole em pedra dura, tanto bate ate que fura”. O que esse ditado quer dizer é simples: insista, amigo, que um dia você chega lá. Na máxima “uma andorinha só não faz verão” está implícita a regra de que em qualquer tarefa é preciso comunhão, ajuda, coleguismo, pertencimento. Ninguém faz nada sozinho. Nesta outra, “em cavalo dado não se reparam os dentes”, está implícita a ideia de gratidão. Se você recebeu uma ajuda, um conselho, um presente, não importa de onde veio ou em que circunstâncias veio. É bem-vindo e pronto. Erga as mãos para os céus e agradeça.

O linguajar do vulgo está, sem que você se dê conta, repleto da mais fina filosofia, daquilo que os franceses chamam “savoir-vivre”, isto é, “jeito de viver”. No meio de tanta ciência camuflada de ditado está um que parece passar despercebido da patuleia inculta e besta, que se gaba de recitar Freud sem um pingo de conhecimento de alemão, que cita Joyce sem falar inglês e escreve que nem o nariz porque não leu Vieira, Machado de Assis, Rui, Clarice, Manoel de Barros, Veríssimo: “O pior burro é o burro com iniciativa”.

De fato. O sujeito burro, que se finge de morto, quase sempre não faz mal a ninguém, exceto a ele mesmo. Mas o sujeito “burro com iniciativa” é um perigo. Esse, quando decide agir pela própria cabeça, não faz nada que preste. Por que estou falando nisso? Porque uma “burra com iniciativa” resolveu agir com o próprio cérebro – supondo-se que tenha um – e, além de prejudicar a imagem corporativa da empresa em que trabalhava, impôs ao patrão um sério prejuízo financeiro.

Num processo julgado na 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, soube-se que uma gerente de um banco muito famoso resolvera advertir uma empregada grávida de que ela “não tinha estrutura para gerar um filho” e que engravidar seria fazer “um contrato de burrice” porque a gravidez inviabilizaria a sua ascensão na empresa. Essas agressões morais teriam sido feitas na presença de várias pessoas, e a trabalhadora saíra chorando da reunião. O tribunal entendeu ter havido dano moral e ofensa à dignidade da trabalhadora e tascou multa de R$ 30 mil no banco.

Esse tipo de gerência predatória é comum tanto no serviço público quanto na iniciativa privada. São raros os casos de abuso que chegam ao Judiciário, mas os que chegam são estarrecedores. Num processo trabalhista julgado no Rio de Janeiro há muitos anos, provou-se que a equipe de vigilância de uma rede de joalherias era obrigada, na rendição do posto, a despir-se, formar uma fila indiana e, com todos os guardetes andando de cócoras, um supervisor verificava se não estavam escondendo joias no ânus. Noutro, contra uma multinacional de telemarketing de telefonia, os empregados homens eram obrigados a urinar numa garrafa pet ao lado das baias para “otimizar” o atendimento.

Os casos de abuso são incontáveis. Às vezes, a ordem para que certas decisões sejam tomadas não partem dos donos da empresa, da diretoria, do pessoal que realmente está no mercado para ganhar dinheiro, mas não a qualquer preço. Quase sempre essas bobagens surgem na cabeça do pessoal miúdo, desse pessoalzinho que se acha dono do negócio só porque tem segundo grau completo. São os tais “burros com iniciativa”.

Essa gerente de banco, por exemplo, quando levar um pontapé no traseiro (e isso é certo) vai parar na Justiça do Trabalho com a maior cara de santa e negar tudo, ou botar na conta do ex-patrão. Sempre haverá um juiz “proativo”, aluado e esquerdopata que lhe dará ouvidos, redigirá uma longa sentença cheia de proselitismo bobo e completamente oca de fundamentos e condenará o banco a indenizar a “pobre empregada”, forçada a agir daquela maneira pela crueldade do mercado e pela ganância dos banqueiros.

Há “burros com iniciativa” em todos os cantos do planeta.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor