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Brasileiro é o sétimo povo do mundo que acredita que seu país rachou politicamente

A grande polarização política nacional que leva pessoas a brigarem em grupos de WhatsApp, a desfazerem amizade no Facebook e...

Política / 02 Maio 2018

A grande polarização política nacional que leva pessoas a brigarem em grupos de WhatsApp, a desfazerem amizade no Facebook e divide o Brasil há dois anos não é uma questão só local. Opinião política diferente é onde há mais tensão nos países no mundo todo, segundo pesquisa da Ipsos realizada em 27 países, incluindo Brasil, que ouviu quase 20 mil pessoas. O tema foi escolhido por 44% dos entrevistados e aparece seguido por diferenças entre ricos e pobres (36%) e diferenças entre imigrantes e a população nativa do país (30%). Os entrevistados puderam escolher três itens de um total de oito, que incluía também diferenças religiosas (27%), étnicas (25%), entre homens e mulheres (11%), entre jovens e idosos (11%) e entre os que vivem nas cidades e em zonas rurais (10%).

O Brasil seguiu o ranking global nas duas primeiras posições - diferenças entre visões políticas (54%) e entre pobres e ricos (40%) -, mas deu o terceiro lugar para diferenças religiosas (38%).

- O que surpreende nestes resultados é saber que a percepção de sociedade dividida que hoje vemos no Brasil não é um fenômeno apenas local. Outros países do mundo também percebem esta polarização, sendo ela de origem predominantemente política ou não - comenta Rupak Patitunda, gerente da Ipsos Public Affairs.

Três quartos das pessoas no mundo (76%) acreditam que seus países estão divididos. A Sérvia lidera o ranking com 93%, seguida pela Argentina (92%). Chile e Peru aparecem em terceiro lugar, empatados com 90%. O Brasil está em sétimo, com 84%, dividindo a posição com Estados Unidos, Espanha e Polônia. Apenas na China (48%) e na Arábia Saudita (34%) a maioria dos entrevistados não concorda que seus países estão divididos.

A sensação de que os países estão divididos aumentou nos últimos 10 anos para seis em cada 10 entrevistados (59%). O Brasil aparece em sétimo no ranking, com 62% afirmando que é correto dizer que hoje a divisão é maior. Em nenhum dos 27 países pesquisados, a sensação de que está menos dividido é maior do que a sensação de que está mais dividido do que 10 anos atrás.

Pouco menos da metade (46%) dos entrevistados pensa que as pessoas em seus países são tolerantes com diferenças culturais ou de pontos de vistas. Os que mais se consideram tolerantes são os canadenses (74%), chineses e malasianos (ambos com 65%), e indianos (63%). O Brasil aparece na antepenúltima posição, com 29%.

Só na China a maioria (59%) afirma ser mais tolerante hoje do que há 10 anos. Globalmente, 39% afirmam ser menos tolerantes e 30%, mais. No Brasil, os que afirmam terem se tornado menos tolerantes representam 45% da população e os que se tornaram mais são 29%.

Há, no entanto, um ponto de otimismo no estudo. A maioria (65%) concorda que as pessoas ao redor do mundo têm mais coisas em comum do que diferenças. Rússia e na Sérvia lideram o ranking (ambos com 81%), enquanto as menores taxas de concordância estão com a afirmação estão no Japão (35%), Hungria (48%) e Coreia do Sul (49%). O Brasil está um pouco abaixo da média mundial, com 61%.

A pesquisa foi realizada pela Ipsos entre 26 de janeiro e 9 de fevereiro de 2018 em 27 países: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, China, Coreia do Sul, Espanha, EUA, França, Grã-Bretanha, Hungria, Índia, Itália, Japão, Malásia, México, Peru, Polônia, Rússia, Sérvia, Suécia e Turquia. No Brasil, a margem de erro é de 3,5 pontos percentuais.

 

Pesquisa da FGV revela vínculos entre robôs e campanha presidencial

A atuação de robôs e a geração de perfis automatizados no debate político são riscos conhecidos ao processo democrático desde pelo menos 2014, conforme estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp), da Fundação Getúlio Vargas de agosto de 2017 que demonstrou a presença de "robôs" atuando em favor dos principais campos políticos no Twitter durante a eleições naquele ano. Em 2018, no entanto, a questão é ainda mais relevante, e agora agravada pelo fenômeno das fake news.

O estudo identifica, agora, uma botnet (rede de robôs), tendo o processo político de 2014 como referência, de 699 perfis automatizados (uma "sub-rede" do total de robôs identificados no período) que compartilharam conteúdos das campanhas de Aécio Neves (PSDB) e de Marina Silva (ex-PSB) em 2014. Na mesma base de dados das eleições de 2014, foram avaliadas também as contas automatizadas da campanha da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). A análise identificou uma botnet com total de 430 contas automatizadas (outra "sub-rede") que compartilharam o link do site Muda Mais e 79 contas que compartilharam o link de Dilma.

A análise revela, em síntese, vínculos entre (1) empresas que prestaram serviços às candidaturas de Aécio, Marina e Dilma e as respectivas campanhas, e (2) sites de campanha cujos conteúdos foram compartilhados por redes de robôs (botnets), nas campanhas de Aécio Neves (Caso 1), Marina Silva (Caso 2) e Dilma Rousseff (Caso 3). O estudo, porém, não visa identificar a contratação da prestação de serviços para o uso de perfis automatizados pelas campanhas ou candidatos analisados, uma vez que possui interesse apenas acadêmico e metodológico, no que diz respeito às implicações de interferências de robôs e perfis automatizados no debate público nas redes sociais.

No caso 1, na campanha de Aécio, a partir do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi possível identificar pagamentos no valor de R$ 168 mil em três parcelas à Storm Security para prestação de serviços de tecnologia, configurando vínculo entre a prestadora e o site cujos conteúdos foram compartilhados por robôs. A análise dos padrões de imagens, textos e locações que constam nos robôs do Caso 1 - Campanha Aécio Neves remete ainda para serviços potencialmente adquiridos e/ou produzidos no exterior, sobretudo na Rússia. Com o financiamento público previsto para 2018, o uso de robôs para disseminar fake news pode interferir no processo democrático.

No caso 3, a campanha de Dilma, esse vínculo é comprovado por uma decisão do TSE deferindo liminar, pedida por Marina e sua coligação, que sustenta que a empresa Digital Polis , detentora do registro do site www.dilma.com.br, era o braço de internet da Polis Propaganda, "empresa em cujo nome está o www.mudamais.com".

Os resultados confirmam, portanto, os riscos de interferências nas eleições brasileiras por meio do uso, em todos os principais campos políticos, de perfis automatizados (robôs) e conteúdos manipulatórios nas redes sociais nas eleições de 2018 e no financiamento de campanha, agora com recursos públicos. Robôs podem apresentar aspectos negativos e positivos: podem ser poluidores de conteúdo e promotores maliciosos; mas também podem ser legítimos, publicando notícias e atualizando feeds, realizando transações, atendimento, entre outros serviços. No estudo, o foco recai sobre os primeiros, com o objetivo principal de gerar reflexões acerca das interferências no processo eleitoral e da defesa da democracia.