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Brasil: quando todos se definem

Independentemente do que possa ocorrer no próximo dia 28 – e o pior é sempre uma possibilidade – a tragédia...

Opinião / 19 Outubro 2018

Independentemente do que possa ocorrer no próximo dia 28 – e o pior é sempre uma possibilidade – a tragédia política brasileira já tem contornos definidos com a óbvia inclinação da grande massa pelo discurso da extrema-direita. A voz do último dia 7 foi evidente demais, e grave demais, para não ser entendida.

O preço da vitória do desvario antipetista, porém, será a destruição da democracia, tão dolorosamente recuperada após 21 anos de ditadura, e tão arduamente sustentada nesses 30 anos da Constituição de 1988. O cantochão antipetista, assim, reproduz o papel cumprido pelo anticomunismo, que preparou o terreno para o golpe de 1964.

Naquele então como agora, como também em 1954, a direita, com o inefável e sempre irresponsável concurso da grande mídia, cuidou de desmoralizar a política e desfraldou a bandeira do combate à corrupção.

 

O antipetismo, que serve a assumidos e

enrustidos, não passa de uma falsa questão

 

O antipetismo, que serve a reacionários assumidos e a reacionários enrustidos para votar na extrema-direita, não passa, no frigir dos ovos, de uma falsa questão, pura aparência, construída para esconder o essencial. Até aqui, nada de novo sob o Sol.

Assim, sob o falso pretexto de defesa das instituições e da ordem, da “moralização dos costumes”, do combate à corrupção e à “subversão comunista” (que só existia no marketing de suas estratégias de tomada do poder), o golpe militar vitorioso em 1964 rasgou a Constituição, mutilou o Congresso, reprimiu a vida política, cassou mandatos eletivos, impôs a censura desbragada (os jornalões andam esquecidos desses tempos…) e a repressão fez-se a prioridade de nossas forças armadas, legando-nos o conhecido rol de presos, torturados e “desaparecidos”.

O retorno desses tempos, agravados, está na nossa esquina, dividindo nossa gente como se fôssemos servos, croatas e bósnios, à beira do fratricídio. A irresponsabilidade nos acena com a partidarização dos militares – que até há pouco pareciam conformados à ordem constitucional e aos mandamentos de seu Código de Conduta.

A mobilização dos púlpitos sugere uma guerra religiosa, e pouco nos faltará, amanhã, para convivermos com milícias legalizadas, fazendo aqui, como na Colômbia de anos recentes, o jogo mais ímpio da guerra suja.

Como no alvorecer do nazismo, multiplicam-se em todo o país os casos de agressão física a adversários do capitão, estimulados pelo discurso fascista, que incentiva o ódio, o desrespeito ao outro, ao diferente, que não aceita o debate e repele a razão.

Desta feita, porém, poderemos ter a pior das ditaduras, aquela que chega ao poder nos ombros de um processo eleitoral. É disto que se trata.

Só não a veem, a ameaça, os cegos e os suicidas, como a chamada direita civilizada (admitamos sua existência), a centro-direita e o dito centro, que animaram, cevaram, promoveram o protofascismo supondo que com esse aliado estariam derrotando a centro-esquerda, quando, na verdade, estavam cavando a própria sepultura em cova rasa.

Burra, inculta, a direita brasileira, incapaz de aprender com a História, que desconhece, repete, quase um século passado, a sina dos liberais italianos que apoiaram Mussolini na ilusão de que o futuro duce massacraria apenas os comunistas, deixando-lhes livre a estrada do poder. O fascismo, como é sabido, consumiu a todos.

Ignorante, a direita brasileira repete a burrice dos comunistas alemães, que viram na ascensão do fuher a possibilidade de varrer do mapa a social-democracia, deixando-lhes o caminho livre para a tomada do poder. Ao fim foram se encontrar, comunistas e social-democratas, no exílio, nos campos de concentração e nos fornos de cremação.

A direita brasileira de hoje também repete seus erros de outrora. A derrubada do governo Jango, ao contrário do esperado e prometido, fechou as portas ao poder civil, e Carlos Lacerda, seu grande líder, se viu com os direitos políticos cassados pelo regime que ajudara a instalar-se, exatamente quando esperava conquistar a Presidência da República.

Igualmente, Juscelino Kubitscheck quedou-se mudo diante da deposição de Jango, fiou-se na promessa de Castelo de preservá-lo e de garantir as eleições de 65 que esperava concorrer e vencer. Deu no que deu. Pouco tempo passado estavam juntos Lacerda e Juscelino, até então arqui-inimigos, unidos no infortúnio. Cassados, expulsos da política pelos militares que haviam ajudado a tomar o poder. Na política ninguém é inocente, todos somos responsáveis pelo que fazemos ou deixamos de fazer.

 

O preço da vitória do desvario antipetista,

porém, será a destruição da democracia

 

O capitão não é fruto de geração espontânea. Trata-se, ao contrário, de construção meticulosa, bem pensada, bem planejada, de cuja execução participaram a arcaica classe dominante brasileira, o “mercado” e seus aparelhos, as muitas Fiesps, a grande mídia, o Poder Judiciário, e suas adjacências, o Ministério Publico e as seitas neopentecostais.

Além desses, repetindo 1964, a “inteligência” militar e o ativismo de generais, oficiais e praças, fazendo de muitos quartéis algo similar a um comitê de campanha, como em verdadeiras células parece transformadas muitas oficinas de procuradores e juízes de direito, jogando às favas as antigas aparências de isenção.

A propósito, o capitão realizou recentemente, nas dependências do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da PM, do Rio de Janeiro, um comício eleitoral, o que é expressamente proibido por lei. Seria um fato insólito, não estivesse a justiça eleitoral engajada em sua campanha.

Assim se explica como um candidato sem partido e sem tempo de televisão tem sua campanha estruturada nacionalmente.

O fato objetivo é que, para destruir Lula (e o que ele representa), a direita vendeu a alma ao diabo e gerou um monstro que, podendo impor uma derrota à centro-esquerda brasileira, devorará da mesma forma a direita, e os simulacros de liberalismo e centro.

A fera insaciável só vê crescer sua fome enquanto devora a todos que encontra à sua frente, a começar pelos seus criadores. Dizimados nessas eleições, os partidos de direita (o Centrão) e a social-democracia tucana cedem seus espaços para a legenda do capitão.

É evidente que esse monstro não foi construído nas nuvens, repousa na realidade brasileira e nos erros cometidos à direita e à esquerda.

Nosso subdesenvolvimento político não nos permite a existência, seja de uma centro-direita consequente, seja de uma quase-esquerda consciente de seu papel histórico. Nossas organizações e líderes progressistas e de centro-esquerda chafurdam no mesmo charco em que se suicida o centro.

O PDT anuncia “apoio crítico” a Fernando Haddad, e seus candidatos que disputam governos estaduais no segundo turno apoiam o capitão fascista (fazendo o velho Brizola, onde quer que esteja, contorcer-se em agonia). Ciro Gomes, magoado com Lula e o PT, parte em doce vilegiatura pela Europa. Quando voltar, verá o que foi feito do país.

O PSB, que defendeu o impeachment e integrou o governo Temer, anuncia apoio pleno a Haddad, mas de seus três candidatos no segundo turno a governos estaduais só o bravo senador João Alberto Capiberibe apoia o candidato da democracia, no seu pequenino Amapá.

Assim, nossa pobreza política – o subdesenvolvimento é uma praga que não poupa ninguém – não permitiu o óbvio, que seria a formação de uma grande frente democrática, partidária e popular, para conjurar a ameaça fascista, como fizeram, por exemplo, os franceses para bloquear os Le Pen. Faltam-nos, como sempre, partidos e biografias, e como fazer História quando somos tão carentes de estadistas?

Essa coisa amorfa que a imprensa chama de centro, mais os chamados liberais de carteirinha, o tucanato, os conservadores não fascistas, reduzem nossa tragédia a uma discussão em torno do PT e do lulismo. É a especiosa forma de fugir da questão central: a opção, e todos estamos optando, entre democracia e fascismo.

Nas circunstâncias, o silêncio – de Alckmin, de Marina e de outros mais ou menos cotados – equivale a votar no capitão, ou seja, a dar aval a um projeto assumidamente totalitário, comandado pelo que há de mais primário e boçal na política brasileira, o candidato e sua coorte.

O ex-presidente que nos recomendou esquecer o que escreveu ao tempo de sociólogo enrosca-se em seus amuos antipetistas, em seus ressentimentos, e em suas queixas nada consegue ver ou deslumbrar para além de seu imenso umbigo. Valendo-se da tática dominante, também ele reduz a crise do país à cediça disputa entre PT e não-PT, e assim se vê dispensado de definir-se (“Cobram de mim para tomar posições. Mas eu digo: por quê?”). Aliás, ele se define, pois, silenciando, está objetivamente optando pelo capitão.

O ex-presidente sabe, como igualmente sabe Ciro Gomes, que a disjuntiva PT-antiPT é uma falsa questão, pois, sem absolver o PT, o que está em jogo é o futuro do país, bem maior do que essa querela e bem maior que o destino pessoal de ambos. Omitindo-se diante da contradição democracia versus ditadura, objetivamente estão levando mais água para o moinho dos fascistas. E assim se definem.

Circula nas redes sociais uma pequena história que ilustra o suicídio do centro brasileiro: “A formiga, com raiva da barata, votou no inseticida, e todo mundo morreu. Inclusive o grilo, que se absteve do voto”.

 

Roberto Amaral

Escritor, ex-ministro de Ciência e Tecnologia (2003–2004).

www.ramaral.org