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Brasil dividido entre Bolsonaro e Haddad

O país saiu das urnas, no ultimo domingo, dividido entre o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro e o esquerdista Fernando Haddad, que...

Opinião / 11 Outubro 2018

O país saiu das urnas, no ultimo domingo, dividido entre o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro e o esquerdista Fernando Haddad, que estão em busca de alianças e ainda desejam buscar caminhos para superar as resistências que cada um encontra em vários setores sociais para vencer o segundo turno, no próximo dia 28 de outubro. Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), acreditava na vitória no primeiro turno, recebendo 46,04% dos votos, enquanto Haddad alcançou 29,26%.

Logo após o anúncio de que disputaria o segundo turno, Haddad que fez toda campanha com base no slogan “Haddad é Lula”, agradeceu a liderança de seu mentor e disse que continuará a visitá-lo na Polícia Federal, em Curitiba, onde Lula cumpre pena de 12 anos de prisão por corrupção.

 

Eleitores vão encarar no final do

mês uma escolha das mais difíceis

 

Já Bolsonaro, o ex-capitão do Exército, denunciou “problemas” nas urnas eletrônicas que teriam impedido seu triunfo já no primeiro turno dessa eleição. Também denunciou os recursos financeiros e o apoio de “parte da mídia” que o PT receberia, ao mesmo tempo em que prometeu trabalhar para unir os brasileiros de bem.

Apesar de desejar ir às ruas, Bolsonaro está impossibilitado de fazê-lo, pois ainda se recupera da facada que recebeu em um comício no dia 6 de setembro. Mas isso não o impedirá de manter o apoio de seus partidários nas redes sociais.

A identificação total de Haddad com Lula permitiu ganhar rapidamente os setores que se identificam com o ex-presidente, mas deverá comprometer sua aproximação com outros grupos e partidos que consideram Lula um verdadeiro sinônimo de corrupção e de políticas estatizantes, e que esses grupos julgam ser os responsáveis por jogar o Brasil em uma recessão de anos, da qual o país só começou a se recuperar em 2017.

O apoio de Ciro Gomes, do PDT, que conseguiu 12,5% dos votos válidos, poderá ser o fiel da balança nesse segundo turno. Em entrevista assim que foi divulgado oficialmente o resultado final, o ex-candidato comentou: “Farei o que fiz toda minha vida, que é lutar pela democracia e contra o fascismo”. Sem perder tempo, Haddad recordou que, como ministro da Educação de Lula, trabalhou ao lado de Marina Silva e Henrique Meirelles. Os dois receberam pouco mais de 1% dos votos no primeiro turno.

O mapa do Brasil ficou novamente dividido em dois na apuração do primeiro turno das eleições presidenciais. De um lado, Bolsonaro, o primeiro colocado, venceu em 17 estados – em todos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e na maior parte da região Norte. Do outro, Haddad, em segundo lugar, liderou em oito dos nove estados do Nordeste e no Pará, no Norte. O único estado do país que ficou fora dessa polarização foi o Ceará, onde Ciro Gomes ficou em primeiríssimo lugar.

Essa é a quarta eleição presidencial seguida em que o mapa do Brasil fica dividido entre duas cores. Até 2002, a maioria dos estados votava de forma semelhante. A principal diferença neste ano foi à substituição do PSDB pelo PSL, partido ao qual Bolsonaro se filiou em março. A segunda mudança mais importante foi a redução da área de influência do PT. Nas eleições de 2014, o partido venceu em 15 estados; em 2010, em 18. Nessa, foram apenas nove Estados. Uma queda vertiginosa, com a estrela perdendo brilho.

Importante sublinhar que a grande maioria dos votos de Bolsonaro, 68%, teve origem no Sul e Sudeste. São 10 pontos percentuais a mais do que o peso dessas regiões no eleitorado brasileiro – ou seja, 58% dos eleitores do país vêm dessas duas regiões. Já o desempenho do candidato no Nordeste foi baixo. Ali, o militar conquistou 15% dos seus votos, quando a região representa 27% do eleitorado.

No caso de Haddad, o cenário é justamente o oposto. De todos os votos no candidato, 46% foram no Nordeste. É mais do que o petista obteve nas regiões Sul e Sudeste juntas, 38%.

O que mais chama a atenção é a votação de Bolsonaro no Sudeste, região que tem o maior número de eleitores do país. A distância do ex-capitão para Haddad no Sudeste é tão grande (15 milhões de votos a mais) que chega a superar a votação total do petista no Nordeste (14,5 milhões de votos). Emblemático!

Já a vantagem de Bolsonaro em relação a Haddad no Sul (cerca de 620 mil votos) é próxima à vantagem de Haddad em relação à Bolsonaro no Nordeste (em torno de 700 mil votos). Na região Norte, por sua vez, a disputa entre Bolsonaro e Haddad foi mais acirrada.

O resultado do primeiro turno foi 46% para Bolsonaro, 29,3% para Haddad e 12,5% para Ciro. Se observadas as regiões, Centro-Oeste: 58% Bolsonaro, 21% Haddad, 10% Ciro; Nordeste: 26% Bolsonaro, 51% Haddad, 17% Ciro; Norte: 43% Bolsonaro, 37% Haddad, 9% Ciro; Sudeste: 53% Bolsonaro, 19% Haddad, 12% Ciro; e Sul: 57% Bolsonaro, 20% Haddad, 9% Ciro. No exterior, 59% dos brasileiros votaram em Bolsonaro; 10%; Haddad, e 14% , Ciro.

A eleição de 2018 deixou políticos tradicionais de fora do cenário nacional. Os resultados apontam renovação nos cargos, principalmente no Senado. Dos 33 senadores que tentaram a reeleição, apenas oito deles permanecerão na Câmara Alta.

E dentre os vários políticos profissionais, vários deles foram varridos da vida pública: a ex-presidente Dilma Rousseff (PT-MG), que liderava as pesquisas no Estado com 23% no último Ibope; o presidente do Senado, senador Eunício Oliveira (MDB-CE); o presidente nacional do MDB, senador Romero Jucá (MDB-RR); o vice-presidente do Senado, senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB); o ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que liderava a pesquisa no Estado; o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que esteve no cargo por 16 anos; o deputado federal Mendonça Filho (DEM-PE), ex-governador de Pernambuco, deputado federal desde 2011; o deputado federal Miro Teixeira (Rede-RJ), que esteve na Câmara por 11 mandatos; Chico Alencar (Psol), deputado federal por quatro mandatos consecutivos; o senador Lindbergh Faria (PT), um dos líderes do PT, que ocupava o cargo desde 2011 e estava em terceiro nas últimas pesquisas; o senador cassado Delcídio Amaral (PTC-MS); o senador Edison Lobão (MDB), ex-ministro de Minas e Energia no governo Lula; o deputado federal André Moura (PSC-SE), líder do governo na Câmara; o deputado federal Silvio Costa (Avante-PE), um dos mais ferrenhos defensores de Dilma na Câmara; o deputado federal Sarney Filho (PV), ex-ministro do Meio Ambiente; o deputado federal Alfredo Nascimento (PR-AM), ex-ministro dos Transportes nos governos Lula e Dilma; o deputado federal Alex Canziani (PTB), que está em seu quinto mandato; o deputado federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP), que foi líder do PSDB na Câmara em 2017; o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), ex-ministro das Cidades; o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), que está em seu sexto mandato; o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que teve dois mandatos consecutivos na Câmara; o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA); a senadora Angela Portela (PDT-RR), que tentava seu segundo mandato; o ex-prefeito Décio Lima (PT), fundador do PT em Santa Catarina; Paulo Bauer (PSDB-SC), senador desde 2011; o senador Magno Malta (PR-ES), aliado do candidato a presidente Bolsonaro (PSL); o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), que ocupa o cargo desde 2011; a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM); o senador Valdir Raupp (MDB-RO), que ocupa o cargo desde 2003; o senador Roberto Requião (MDB-PR); o ex-governador Beto Richa (PSDB-PR), alvo de busca e apreensão da 53° fase da Operação Lava Jato; o ex-governador Raimundo Colombo (PSD-SC), réu por prática de caixa 2 na campanha de 2014; e o ex-governador Marconi Perillo (PSDB-GO), que estava em segundo nas pesquisas até agosto e terminou em quinto.

Salvaram-se os atuais senadores Aécio Neves, do PSDB, e Gleici Hofman, do PT, que saíram candidatos ao cargo de deputado federal, respectivamente por Minas Gerais e Paraná, e foram eleitos, e o senador Renan Calheiros MDB-AL, que conquistou a segunda cadeira em seu estado.

Puxada por Bolsonaro e pelo antipetismo, a professora Janaina Paschoal (PSL) alcançou, na eleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo, a maior votação da história entre candidatos para deputado no Brasil. Com 2.031.829 votos, Paschoal superou o recorde histórico nas disputas para o legislativo estadual paulista. A marca foi alcançada neste ano por Eduardo Bolsonaro (PSL), candidato à Câmara federal por São Paulo. Ele atingiu 1.814.443 votos (com 98,29% das urnas apuradas). Paschoal foi autora do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT). Sua votação em São Paulo foi superior ao que recebeu candidatos à presidente como Cabo Daciolo (Patri), Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede). Os votos recebidos pela deputada eleita representam 9,92% dos votos válidos.

O cenário político é eletrizante e simpatizantes de ambos os lados estão por todos os cantos, tentando seduzir amigos, parentes e conhecidos. O fato é que o Brasil, ao sair dividido novamente das urnas, exibe, e de forma clara, uma cisão entre as suas regiões Nordeste, vermelha, e o Sul-Sudeste-Centro-Oeste, azul, demonstrando, assim, duas vertentes políticas e totalmente antagônicas. O discurso populista parece empolgar os brasileiros do Nordeste, com promessas e mais promessas, várias delas jamais cumpridas. No Norte, Bolsonaro perdeu para Haddad apenas no Pará.

E é assim que essa campanha vai continuar até o último domingo deste outubro, quando os eleitores se dirigirão novamente às urnas e definitivamente escolherão o mandatário que governará o Brasil nos próximos quatro anos.

Uma escolha, convenhamos, das mais difíceis.

 

 

Paulo Alonso

Jornalista e dirigente universitário.