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Bolsonaro: o mito?

Com quase 50% dos votos, o capitão está a um passo de chegar à Presidência da República. Se as pesquisas estiverem...

Conversa de Mercado / 11 Outubro 2018

Com quase 50% dos votos, o capitão está a um passo de chegar à Presidência da República. Se as pesquisas estiverem corretas, resta perguntar qual Bolsonaro governará o país. O novo ou o velho. Ele será mesmo um liberal? Ou isto é apenas mito comprado por muitos para tirar os petralhas comunistas do poder? Há controvérsias, e seu passado como deputado traz insegurança.

As recentes declarações do candidato do PSL trazem à tona o medo de que o velho Bolsonaro venha à tona. E, se este for o caso, a economia penará. Em entrevista à Bandeirantes, ele declarou ser contrário à privatização de ativos na área de geração de energia elétrica, assim como gostaria de manter estatal o “miolo” da Petrobras. O mercado financeiro, que apostou no liberalismo do candidato, ficou reticente, e as ações da Eletrobras registraram forte queda. Ele ressaltou que não venderá de jeito nenhum os ativos de geração de energia elétrica.

A postura confronta o liberalismo econômico, tão apregoado em seu plano de governo. “As economias de mercado são historicamente o maior instrumento de geração de renda, emprego, prosperidade e inclusão social. Graças ao Liberalismo, bilhões de pessoas estão sendo salvas da miséria em todo o mundo. Mesmo assim, o Brasil NUNCA adotou, em sua História Republicana, os princípios liberais. Ideias obscuras, como o dirigismo, resultaram em inflação, recessão, desemprego e corrupção”, diz o plano do candidato.

Construído como a única figura capaz de pôr fim a anos de PT no poder, o posicionamento do candidato provoca o temor de que, ao ser eleito, sucumba às suas ideias conservadoras. Se isso ocorrer, as consequências para a economia serão desastrosas. O capital estrangeiro será afugentado, as taxas de juros voltam a subir, e o problema do déficit fiscal se agrava.

No caso do Bolsonaro, tudo vai depender de qual Bolsonaro você está falando, do novo ou do velho. A carreira política dele foi uma carreira populista. Se as pessoas acreditarem que o que ele vai implementar foi o que ele defendeu na câmara, a consequência será o aumento da taxa de juros. Como investir num país cujo presidente foi um grande fã de Hugo Chaves ou do Maduro, e votou contra a reforma da Previdência e contra o Plano Real?”, questionou o renomado economista, José Alexandre Scheinkman, professor de economia na Universidade de Columbia e professor de economia emérito Theodore A. Wells ‘29, da Universidade de Princeton, em entrevista à colunista do jornal.

Segundo o professor, há um pé atrás dos investidores. “Se é o novo Bolsonaro, aí não há problema. O investidor vai julgar qual Bolsonaro vai ser eleito, o da campanha ou da carreira? Isso faz diferença para o investidor”, complementa. A avaliação do brasileiro, entretanto, é outra. A polarização das eleições provocou a falta de opção para os antipetistas e faz o capitão alçar voo nas pesquisas eleitorais.

O questionamento que fica é será que Bolsonaro enganará a todos? Seu discurso direitista é apenas discurso? Como alguém que se diz liberal de carteirinha é contra as privatizações? Como já se mencionou na coluna anterior, a briga não é entre esquerda e direita, mas sobre o tamanho do papel do Estado e seu intervencionismo. Segundo Scheinkman, há uma vantagem na privatização como o ganho de eficiência. Além disso, os recursos podem ser utilizados para investimentos em setores que necessitam mais do estado, ou para resolver o déficit fiscal.

Claro, que a decisão de fazer concessões ou vender ativos precisa de planejamento. “Se o edital for bem feito e houver concorrência, os compradores vão disputar uns com os outros e vão pagar não o que a companhia vale na mão do governo, mas o que ela vale na mão privada. Há um ganho em se fazer isso, principalmente vendendo as companhias mais ineficientes. Há outras companhias que não valem nem a pena tentar vender, como a do Trem Bala”, explica.

No plano de governo de Bolsonaro, a questão da privatização é clara. “O debate sobre privatização, mais do que uma questão ideológica, visa a eficiência econômica, bem-estar e distribuição de renda. Temos que ter respeito com os pagadores de impostos. No Brasil, esse debate envolve um elemento extra: o equilíbrio das contas públicas. Em nossa proposta, todos os recursos obtidos com privatizações e concessões deverão ser obrigatoriamente utilizados para o pagamento da dívida pública”. Ao contrário do seu próprio plano liberal, Bolsonaro parece que não mudou. O mito é tão real quanto o saci ou a mula-sem-cabeça.