Bem-vindo aos anos 20

Por Fábio Reis Vianna.

Opinião / 18:52 - 17 de jan de 2020

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Naquela noite, em meio aos oficiais de segurança nacional que o cercavam, dentre eles, Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, Donald Trump emitiu o que todos naquela sala, ainda impactados com o ocorrido, já deveriam pressentir: “Eles parecem estar de pé”.

Era madrugada no Oriente Médio e naquele momento ainda não se tinha a dimensão exata dos ataques desferidos pelo Irã a duas bases norte-americanas no Iraque.

Apesar de os norte-americanos já terem sido informados da retaliação, o receio imediato era que algum soldado pudesse ter sido vitimado, o que obrigaria os Estados Unidos a necessariamente reagir, levando aquele conflito a uma escalada sem precedentes.

Já na segunda-feira anterior aos ataques – um dia após o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani – e com a ainda modesta subida nos preços do petróleo e do ouro, os mercados de risco ignoraram, na sua grande maioria, qualquer ameaça mais grave, atribuindo uma probabilidade muito pequena de uma resposta violenta por parte do Irã.

Na terça-feira, logo após os ataques às bases norte-americanas no Iraque, as expectativas imediatas davam a entender que o risco de uma escalada militar dependeria do grau de violência e irracionalidade dos iranianos: a eterna sombra de um possível fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo produzido no planeta.

Para o Ocidente os iranianos são terroristas e inconsequentes: os suspeitos de sempre. Um estigma que esconde o arrogante e velado racismo que nega toda a história e complexidade de uma civilização milenar como a persa.

Bastou a poeira baixar para que ficasse claro que os persas sabiamente souberam reagir de maneira calculada ao assassinato ilegal do general Soleimani.

 

Vivemos no olho do furacão de uma mudança

profunda no ciclo da política internacional

 

Mesmo em meio a um nível de tensão máxima, que culminou na trágica derrubada, por engano, do Boeing 737 da Ukraine Airlines com destino a Kiev e que alguns analistas já suspeitam ter sido uma false flag perpetrada pelos norte-americanos – segundo especialistas, como o professor da Universidade de Teerã, Dr. Iman Khosravi, “não seria exagerado supor que o sistema de navegação da aeronave pode ter sido adulterado”.

Naquela noite algo havia mudado na correlação de forças entre as nações que ainda almejam projetar seu poder em meio ao intrincado caleidoscópio do sistema mundial.

A demonstração de confiança do Irã ao bombardear as bases de Ayn al-Assad e al-Anbar usando mísseis de precisão que acertaram alvos específicos, evitando baixas humanas, abriu um precedente até então inimaginável. Como disse o especialista em Oriente Médio Elijah Magnier: desde Pearl Harbour, é a primeira vez que um país reivindica a responsabilidade por atingir alvos norte-americanos sem ter uma ofensiva militar como resposta.

Por mais que mídia norte-americana e seus papagaios brasileiros omitam, fica evidente o constrangimento para o complexo industrial-militar dos Estados Unidos: nada menos que nenhum míssil iraniano foi abatido pelo sistema de defesa antimísseis Patriot.

As peças do tabuleiro geopolítico deste início de século XXI se movimentam à medida que os norte-americanos mostram mais os dentes. Tem sido assim desde os primórdios deste sistema interestatal inventado pelos europeus e agora, em particular, desde quando o sistema retomou seu padrão de funcionamento original com o fim da bipolaridade da Guerra Fria.

À medida que o sistema se expande e novos atores entram no jogo em busca de liberdade e autonomia para – como diria Fiori – definir suas próprias estratégias de desenvolvimento e inserção internacional, mais agressivamente a potência hegemônica agirá para manter sua posição militar central no tabuleiro, bem como, claro, de emissor exclusivo da moeda de referência internacional.

Sendo assim, por reação e autoproteção, os países que ainda não capitularam a virulência do hegemon – como lamentavelmente um país chamado Brasil – se veem obrigados a formar alianças estratégicas com outras nações e a investir cada vez mais em tecnologia militar. A capacidade de precisão demonstrada pelos mísseis iranianos naquela madrugada dizem muito sobre isso.

A nova estratégia norte-americana, onde as regras da finada ordem liberal do século XX dão lugar ao vale tudo do bullyng militar e das guerras híbridas, inexoravelmente, tem empurrado os atores do sistema mundial a uma corrida tecnológica e militar defensiva sem precedentes.

A radicalização na disputa pelo poder global é um claro sinal de que vivemos no olho do furacão de uma mudança profunda no chamado longo ciclo da política internacional, e a rápida movimentação em torno dos projetos de integração eurasianos reflete isso claramente.

Na quarta-feira, 8 de janeiro, apenas um dia após o desenrolar das tensões entre norte-americanos e iranianos, o presidente russo Vladimir Putin desembarcou em Istambul para, ao lado de Recep Tayyip Erdogan, inaugurar o estratégico gasoduto TurkStream, que transportará um alto volume de gás russo, passando pelo Mar Negro e cruzando Turquia, Bulgária e Sérvia até chegar a Hungria, num total de 930 quilômetros de extensão.

A inauguração do gasoduto, estimado em US$ 12 bilhões, é resultado de um longo período de tratativas entre Rússia e Turquia que também envolve a construção da primeira planta nuclear turca, ao custo de US$ 20 bilhões, bem como o já instalado sistema antimísseis russo S-400 em território turco, mesmo com as ameaças de sanções norte-americanas.

Com a mudança de eixo da riqueza mundial gradualmente do Ocidente para o Oriente, aquele que um dia foi o poderoso Império Otomano busca se posicionar estrategicamente, expandindo sua influência junto àqueles países que um dia fizeram parte de sua zona de influência, bem como, junto ao concerto de países eurasiáticos liderados por China e Rússia.

É muito provável que nos próximos anos a Turquia, assim como o Irã, façam parte como membros efetivos do SCO, Organização de Cooperação de Shangai, hoje o principal fórum de cooperação econômico-militar da Eurásia.

Com a inauguração do TurkStream, que abastecerá o sudeste europeu quando estiver plenamente operacional, a Turquia torna-se de fato o ponto de ligação entre Oriente e Ocidente – o projeto de integração eurasiático nunca esteve tão próximo da Europa.

Some-se a isto o fato de a chanceler alemã, Angela Merkel, no sábado, 11 de janeiro, a pretexto da crise entre Irã e Estados Unidos, ter visitado Moscou a convite de Vladimir Putin num gesto de reaproximação que tem muito a dizer com a postura truculenta e unilateral com que os norte-americanos vêm tratando inclusive seus mais próximos aliados.

A gota d’água certamente foi a aprovação, no Senado norte-americano, de sanções econômicas contra o gasoduto russo-alemão NordStream II.

Mesmo possuindo laços econômicos profundos, Rússia e Alemanha e sua tão lembrada “memorável aliança” nunca pode de fato ser concretizada por motivos históricos e uma longa guerra fria que os distanciou. Nunca é demais lembrar que, no ano de 2010, Putin propôs a Merkel a “criação de uma harmoniosa comunidade econômica ligando Lisboa a Vladivostok”. Neste período nem se falava ainda sobre integração eurasiática, tampouco sobre Nova Rota da Seda.

Se é verdade que a crise da ordem liberal do pós-guerra tutelada pelos Estados Unidos se faz presente justamente porque os norte-americanos abdicaram de respeitar as regras estabelecidas por eles mesmos, permitindo uma escalada de conflitos há muito não vista, também é verdade que a formação de alianças estratégicas entre nações responsáveis possa frear o ímpeto belicista dos norte-americanos e restaurar a racionalidade no sistema mundial.

Fábio Reis Vianna

Escritor e analista geopolítico.

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