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Bate cabeça

Em vez de discursos eleitoreiros e medidas desencontradas, capitão liberal deve mostrar a que veio.

Conversa de Mercado / 09 Novembro 2018

Todo novo governo, ainda mais inexperiente, bate cabeça. Este é o momento atual. Há mandos e desmandos a todo momento. Anuncia-se a fusão de ministérios e volta-se atrás, a capitalização da Previdência defendida durante a campanha já não é vista como saída e por aí vai. O momento de transição requer o fim dos discursos de campanha. É preciso sair do palanque quando a realidade bate à porta. Se for para ser aprovada ainda este ano, a Reforma da Previdência será muito mais branda do que o futuro ministro Paulo Guedes deseja. De qualquer forma, os principais pontos das mudanças da proposta ainda estão em aberto.

Segundo o presidente da Funcesp, Walter Mendes, um dos grandes desafios a ser enfrentado é que uma boa parte da população não entende o que é a agenda liberal a ser colocada em prática. “A questão da previdência, privatização, déficit público não são um consenso no Brasil”, observou. E é justamente a questão fiscal o maior problema da economia brasileira. Em setembro, o déficit primário do governo somou R$ 24,621 bilhões, resultado 15,8% maior do que de igual período de 2017, quando chegou a R$ 21,259 bilhões, segundo dados do Banco Central.

Pode haver bateção de cabeça principalmente de quem não tem experiência, e a margem de manobra é muito estreita. O déficit público é um problema grave, e a expectativa de que as reformas comecem a andar por parte do mercado é muito grande. O primeiro passo foi ganhar a eleição, mas uma vez ganha é preciso que as coisas ocorram rapidamente”, diz Mendes.

No mês de setembro, a Previdência registrou déficit de R$ 31,472 bilhões. O déficit previdenciário, nos nove primeiros meses deste ano, soma R$ 155,1 bilhões no período, um crescimento real de 5,9% na comparação com o mesmo período de 2017. As contas não fecham e, se não sair qualquer reforma, o mercado irá “sair do grupo” pró-Bolsonaro. É urgente o anúncio de uma agenda de curto prazo, que priorize o problema fiscal. “Este é o passo mais importante no início e capaz de já trazer algum grau de confiança do mercado”, avalia ex-diretor do Banco Central e atual CEO da gestora de recursos Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo.

A boa notícia é de que o déficit fiscal de 2018 deve ficar abaixo do projetado pelo governo (R$ 161,3 bilhões). No acumulado em 12 meses encerrados em setembro, as contas públicas ficaram com saldo negativo de R$ 87,794 bilhões, o que corresponde a 1,29% do PIB. A equipe de Bolsonaro quer acabar com o déficit ainda em 2019. Para isso, aposta em corte de despesas e na própria reforma da Previdência. A atuação da equipe de transição será essencial para o sucesso desta promessa, e o Governo Temer se põe disposto a ajudar, o que reduz os riscos econômicos futuros. Em entrevista coletiva após o resultado das eleições, Guedes declarou que é possível zerar o déficit fiscal em 2019. “Nós vamos tentar. É factível, claro que é factível. O foco do programa é o controle de gastos”, explicou.

Para conseguir a façanha, além do apoio do atual governo, o futuro presidente precisa aproveitar sua força nos primeiros meses após a posse. Caso contrário, pode cair na mesma armadilha de Macri, que levou à forte crise da Argentina. “É o efeito que eu chamo Pac-Man, o governo tem energia, foi eleito, tá fortinho. Mas essa energia dura seis meses. Se não for carregada, ela se perde e ele vira um presidente fraco. Eu não acredito nisso. De qualquer forma, nos primeiros seis meses é preciso que sejam tomadas decisões de impacto na população”, explica o presidente e fundador da Arko Advice, Murilo Aragão.

A bateção de cabeça faz parte. Entretanto, o que se quer agora é a divulgação de uma agenda de medidas que prove ser possível reduzir ou até mesmo zerar o déficit fiscal. Bolsonaro foi eleito por conta da maioria da população ansiar pelo novo. Em vez de discursos eleitoreiros e medidas desencontradas, na economia o capitão liberal deve mostrar para que veio.