A tal da ‘balbúrdia’

Ataque contra instituições de ensino, pesquisa e inovação brasileiras assumiu um contorno mais trágico.

Empresa Cidadã / 18:31 - 7 de mai de 2019

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Segundo dicionários etimológicos consultados, balbúrdia é uma palavra de origem indeterminada. Há quem a relacione a balbuciar. Mas também pode derivar de desconvite a persona non grata na cidade de Nova York, para se utilizar do espaço de um museu municipal, em uma cavadinha para surfar na mídia. Também pode significar ser assessorado por milicianos com troca de favores entre as partes. Pode ainda significar corte de recursos de universidades e centros de pesquisa indispensáveis para a criação do conhecimento necessário ao desenvolvimento do país.

Ironia à parte, o ataque contra instituições de ensino, pesquisa e inovação brasileiras assumiu um contorno mais trágico desde a semana passada, quando as personagens que ocupam a Esplanada, tal e qual malandros da Lapa dos anos 1950, entre eles Madame Satam, começaram a passar a lâmina fria da navalha contundente nos recursos orçamentários das nossas universidades. Assim, sangrando as instituições do ensino, sangram o futuro do país.

 

O exterminador do futuro

Cortes orçamentários já foram anunciados pelo Sr. A. Weintraub, um misto de exterminador do futuro com ministro da Educação (ou seria da “Educassão”?), sangrando o ensino, a pesquisa e o destino do país. Primeiro, anunciou cortes, com caráter punitivo, no orçamento de três das mais importantes e respeitáveis instituições de ensino brasileiras, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), por promoverem “balbúrdia”.

 

Balbúrdia mental

Entre as explicações do Sr. A. Weintraub, inicialmente, falou-se até sobre gente nua andando pelos corredores das instituições… O ministro então voltou atrás e generalizou o corte – horizontalmente – de cerca de 30% nas verbas de custeio de todas as instituições públicas de ensino, pesquisa e extensão (34,5% nos Institutos Federais e 25,4% nas Universidades). E como criança não vota, o corte na educação básica é maior (39,7%). Aliás, corte não. O termo correto é c-o-n-t-i-n-g-e-n-c-i-a-m-e-n-to.

 

Demeritocracia

O currículo Lattes (base de dados contendo curricula vitae acadêmicos, mantida pelo CNPQ) do Sr A. Weintraub, um misto de exterminador do futuro com ministro da Educação (ou seria “Educassão”?), é uma decepção para quem espera encontrar um ministro da educação meritório. A titulação de carreira é incompleta, sem publicações de peso, nem orientações significativas de alunos. O histórico escolar também deixa muito a desejar. Abaixo da média.

 

Conflito ético de interesses?

Elizabeth Guedes é presidente da Associação Nacional de Universidades Privadas (Anup), representação dos interesses de grandes corporações do ensino, como Anhanguera, Estácio, Kroton, Pitágoras e Uninove. Você conhece Elizabeth Guedes? O ministro da Economia, Sr. Paulo Guedes, conhece. É irmã dele. Não haveria aí um conflito ético de interesses? Como entender a Ética sem passar pela Filosofia, porém?

 

Fogo de barragem

O fogo de barragem contra as universidades públicas começou com palpites infelizes disparados, tanto pelo Sr. A Weintraub, um misto de exterminador do futuro com ministro da Educação (ou seria da “Educassão”?), quanto pelo atual presidente, contra os cursos de Filosofia e Sociologia, considerados “antieconômicos” pelas personagens citadas.

Em nota, a Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (Anpof) e outras 61 entidades repudiaram veementemente as falas do atual presidente da República e do Sr. A Weintraub, um misto de exterminador do futuro com ministro da Educação (ou seria “Educassão”?) sobre o ensino e a pesquisa na área de Humanidades, especificamente em Filosofia e Sociologia.

O ministro A.Weintraub, um misto de exterminador do futuro com ministro da Educação (ou seria “Educassão”?), e o presidente “ignoram a natureza dos conhecimentos da área de Humanidades e exibem uma visão tacanha de formação ao supor que enfermeiros, médicos veterinários, engenheiros e médicos não tenham de aprender sobre seu próprio contexto social n em sobre ética, por exemplo, para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação.

 

Reitoria da UFMG, nota oficial

Uma das primeiras universidades públicas alvejadas pelo movimento de extermínio do futuro do país, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também expressou a sua indignação em nota oficial, aqui transcrita em um parágrafo síntese.

Nota à comunidade da UFMG de 3 de maio de 2019.

(…) As universidades federais, como patrimônio nacional, são imprescindíveis para a construção de um país desenvolvido, mais justo e equânime, que ofereça melhores condições de vida para sua população e, assim, devem ser reconhecidas pelas autoridades e pela sociedade brasileiras. Não se constrói um país sem investimento contínuo e sustentável em educação, cultura, ciência e tecnologia. (...)

Assinam: Sandra Regina Goulart Almeida (reitora) e Alessandro Fernandes Moreira (vice-reitor).

 

Estado de emergência climática

Atendendo a manifestantes que impuseram um cerco à capital, Londres, a Câmara dos Comuns, na quarta-feira, 1º de maio, aprovou moção, declarando “estado de emergência climática” no Reino Unido, a partir de uma proposta apresentada pelo Partido Trabalhista, aceita por unanimidade pelos membros do Partido Conservador.

A moção é mais simbólica do que impositiva, mas estabelece compromissos, como a redução, com base nos números de 2010, de 45%, até 2030, da taxa de emissão de gases causadores do aquecimento e redução à zero, até 2050, dessa mesma taxa e reconhece que o corte de 50% no orçamento da Natural England, entidade governamental dedicada a cuidar do meio ambiente no país, é inadequado para atingir esses compromissos.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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