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Avenida Darcy Ribeiro

Em um Brasil a ser passado a limpo, expressão que Darcy Ribeiro gostava de utilizar, o grito das ruas ecoou forte.

Empresa Cidadã / 18:58 - 12 de Mar de 2019

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Você sabe onde fica a Avenida Darcy Ribeiro?

Pergunte à Estação Primeira de Mangueira. Ela sabe. E dignificou ainda mais este endereço, que a imprensa grande prefere chamar de Marquês de Sapucaí ou, quando muito, de Passarela do Samba, ou ainda de Sambódromo. Mas o nome é mesmo Avenida dos Desfiles Darcy Ribeiro.

Na segunda-feira de Carnaval passada, em um desfile antológico, que se junta ao do Paraíso do Tuiutí (2018; “Está extinta a escravidão”?) e ao da Beija Flor (1989; “Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia”), a Mangueira trouxe para a avenida um grito importante para a necessária descolonização do Brasil. Grita pelo discurso da História contado por seus verdadeiros mártires e heróis. Ou, como no belo samba enredo de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, “A história que a história não conta / O avesso do mesmo lugar”.

 

Avenidas Darcy Ribeiro por todo o Brasil

Não foi só no Rio que se ouviu o Grito do Carnaval. Em São Paulo, a Mancha Verde, escola de samba vencedora do Carnaval deste ano, a exaltação da princesa negra Aqualtune, avó de Zumbi, abriu uma reflexão sobre direitos humanos, intolerância religiosa e escravidão, com uma estética que remete à tradição africana. Em um Brasil a ser passado a limpo, expressão que Darcy Ribeiro gostava de utilizar, o grito das ruas ecoou forte.

 

Carnaval também é emprego e renda

Estimativa apresentada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC; cnc.org.br/noticias/economia/carnaval-vai-movimentar-r-678-bilhoes-e-gerar-23-mil-vagas), antes do Carnaval, previa que o Carnaval 2019 movimentaria R$ 6,78 bilhões e geraria 23,6 mil postos de trabalho. É uma receita 2% maior do que no ano anterior e 23,4% mais em vagas de trabalho. Essas vagas seriam geradas principalmente no segmento de serviços de alimentação (78%).

Quanto à receita, respondem por ela os segmentos de alimentação fora do domicílio, a exemplo dos bares e restaurantes (R$ 4,1 bilhões), transporte rodoviário (R$ 859,3 milhões) e serviços de alojamento em hotéis e pousadas (R$ 774,3 milhões). Mais de 84% de toda a receita gerada com o Carnaval.

Os estados do Rio de Janeiro (R$ 2,1 bilhões) e de São Paulo (R$ 1,9 bilhão) serão responsáveis por 62% do giro financeiro durante a festa, seguidos por Minas Gerais (R$ 615,5 milhões), Bahia (R$ 561,9 milhões), Ceará (R$ 320 milhões) e Pernambuco (R$ 217,6 milhões).

Portanto, Carnaval é cultura, é identidade, é cidadania e criatividade. É também economia e emprego. Se chegamos até aqui, foi com muito empenho e esforço de brasileiros. Investir contra o Carnaval brasileiro, depreciá-lo, ou negligenciá-lo, além de desrespeito com seus heróis e mártires, é condenável atividade de lesa-cultura e de lesa-identidade de um povo. Além de ser uma burrice do ponto de vista econômico.

 

O 14 de abril

14 de abril de 1918 é a data em que Marielle Santos e seu motorista Anderson Brasil, mártires, foram assassinados no exercício de suas funções, na cidade do Rio de Janeiro. A execução do orçamento da União, entre 2014 e 2018, revela que a execução das políticas para promoção da autonomia e combate à violência acusou redução de 83% nos dispêndios. Já o IBGE revelou que, entre as mulheres, o desemprego aumentou 73% para mulheres brancas e 96% para mulheres negras, no mesmo período. O registro de mortes de mulheres vítimas de violência cresceu 5,9%, em 2018 (Anuário da Segurança 2018). Nenhuma Casa da Mulher Brasileira, espaço de atendimento psicossocial e jurídico integrado de atendimento à mulher vítima de violência, foi construída desde 2016.

 

Agenda

Campanha “21 Dias de ativismo contra o racismo” (facebook.com/21diasdeativismo/) – “Somos todas Maria, Mahins, Marielles...” (Estação Primeira de Mangueira, Samba-enredo 2019). Mulheres Negras resistem e lutam contra o racismo, sexismo e todas as formas de opressão e exploração!

Próximos eventos na Campanha 21 Dias de ativismo contra o racismo:

Março 14 – 13h: Celebração Marielle Semente (Rio de Janeiro).

Março 14 e 15: Carolina, Abdias e Marielle, Vidas, ancestralidade e continuação (Centro de Artes da Maré).

Março 16 – 10h: Corpos negros como alvos – Uma homenagem à Claudia Silva (Madureira, Rio de Janeiro).

Março 21 – 16h: Marcha “21 Dias” (Pequena África; Rio de Janeiro).

Março 27 – 9h: Encerramento da Campanha “21 Dias de Ativismo contra o racismo” (Rio de Janeiro).

 

Darcy Ribeiro (26/10/1922–17/2/1997)

Antropólogo, educador, escritor e político brasileiro, vice-governador do RJ, eleito com o governador Leonel Brizola para o período 1983–1986. Foi designado coordenador do programa especial de educação dos Centros Integrados de Educação Pública (Ciep), de tempo integral. Mais tarde, foi eleito senador para o mandato no período 1991–1998, durante o qual faleceu. Quem mais bem fala de Darcy Ribeiro é Darcy Ribeiro: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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