As sanções contra a Venezuela no cenário geopolítico mundial

Por Daniel Kosinski e Ticiana Alvares.

Opinião / 19:30 - 23 de ago de 2019

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Dada a resiliência até aqui demonstrada pelo regime de Nicolás Maduro na Venezuela – apesar da sua longeva crise – e a predileção do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por ações unilaterais, não seria surpreendente se, num futuro próximo, o governo norte-americano tentasse impor ao país medidas semelhantes às que foram adotadas contra Cuba em junho, bloqueando o acesso de veículos que partam do território norte-americano aos portos e aeroportos da ilha caribenha.

Considerando-se as diferenças significativas entre as estruturas produtivas e financeiras dos dois países, porém, tal ação serviria apenas para os propósitos propagandísticos de Trump na eleição presidencial norte-americana do próximo ano.

Isso porque, atualmente, sanções financeiras são consideradas instrumentos (de guerra) muito mais eficazes com vistas a exercer pressão sobre governos “indesejáveis” do que os já antiquados bloqueios de portos e outras infraestruturas por forças aeronavais.

De fato, especificamente no que diz respeito à Venezuela, as sanções impostas pelos Estados Unidos retroagem pelo menos a 2006, quando o governo de George W. Bush proibiu todas as vendas e transferências de armas de fabricação norte-americana ao governo venezuelano. Seu sucessor, Barack Obama, designou novas ações com o objetivo de bloquear o acesso a ativos e impor restrições de entrada no território norte-americano contra dezenas de altos funcionários e agências venezuelanas.

Posteriormente, a administração Trump também adotou uma ampla gama de medidas contra o país sul-americano, incluindo sanções monetárias contra o governo venezuelano e empresas estatais estratégicas como a petrolífera PdVSA e a mineradora Minerven, bloqueando o seu acesso às suas contas mantidas em bancos norte-americanos assim como aos mercados americanos de compra e venda de títulos de dívida.

Com isso, as autoridades norte-americanas restringiram decisivamente a posse e o uso, pelos venezuelanos, das suas reservas denominadas em dólares norte-americanos – ainda, incontestavelmente, a principal moeda de comando nas relações internacionais.

Mesmo assim, na última semana, novas medidas contra a Venezuela foram anunciadas pelo Governo Trump. Dessa vez, elas não apenas visaram um novo congelamento de ativos governamentais, mas também a punição de indivíduos, empresas e governos de outros países que realizarem qualquer tipo de negócio com os venezuelanos.

E na medida em que tanto o produto do país quanto a arrecadação de divisas e impostos pelo governo são profundamente dependentes das suas exportações de petróleo e que centenas de milhares de venezuelanos vivem atualmente fora do seu país natal, para onde enviam parte dos seus rendimentos, é provável que essas novas sanções exerçam um novo e significativamente danoso efeito sobre as suas condições financeiras.

 

Estratégia dos EUA para comprometer

o acesso da China a recursos energéticos

 

Alegadamente, todas essas ações de bloqueio por parte dos Estados Unidos vêm provocando escassez generalizada de alimentos e remédios na Venezuela, desencadeando uma “crise humanitária” cujas reais proporções são difíceis de precisar, mas que já provocou uma considerável onda imigratória a partir do país.

Mas, apesar disso, o fato é que até o momento elas não se mostraram suficientemente efetivas para levar ao colapso o governo de Nicolás Maduro, que vem garantindo o abastecimento do país e se sustentando em grande medida devido às entregas de gêneros de primeira necessidade pelos russos e chineses.

Dessa forma, assim como o governo cubano tem resistido às intensas pressões norte-americanas há mais de cinco décadas, o venezuelano vem demonstrando capacidade de se sustentar – pelo menos enquanto puder contar com a assistência dos seus parceiros estrangeiros.

Por outro lado, supondo-se que o Governo Trump realmente recorra a medidas ainda mais extremas, como o bloqueio dos portos venezuelanos, é praticamente certo que os governos da Rússia e da China restringiriam as suas ações em contrário ao campo diplomático.

Por exemplo, as suas delegações acionariam debates e manifestações do Conselho de Segurança das Nações Unidas. E considerando-se que ambos os países possuem poder de veto nessa instância, é provável que os norte-americanos tivessem que contrariar as suas resoluções para bloquear a Venezuela, uma medida politicamente custosa – embora em nada incomum, conforme vimos de maneira marcante na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003.

Não obstante, além disso, não se vislumbra que chineses ou russos tomem qualquer tipo de ação militar contra os Estados Unidos com vistas a sustentar o governo venezuelano a qualquer preço. Afinal, as autoridades de ambos os países sabem que o controle sobre o Caribe, em cujas costas se situa a Venezuela, é considerado pelos norte-americanos como um objetivo primordial para a prosperidade e segurança do seu país pelo menos desde meados do século XIX.

E não custa lembrar que a “dominância hemisférica” – isto é, sobre todo o continente americano – foi claramente reiterada como um fim estratégico dos Estados Unidos pelos relatórios U.S. Strategic Security emitidos tanto pelo Governo Barack Obama quanto pelo de Trump.

Trata-se, a rigor, de uma situação análoga à importância que os russos atribuem à Europa Oriental. Lá, os Estados Unidos não recorreram aos meios militares em auxílio dos governos da Geórgia e Ucrânia nas suas disputas dos últimos anos com a Rússia, em que pese o apoio financeiro e diplomático que prestaram aos dois países.

Com isso, os norte-americanos reconheceram que ambos se localizam demasiadamente dentro da zona de influência e segurança que os russos consideram sua e que eventuais ações militares poderiam cruzar um “ponto sem retorno” – nesse caso, até mesmo desencadeando uma guerra de grande escala entre duas potências nucleares.

Por fim, vale atentarmos para algumas considerações finais. Atualmente, a Venezuela detém as maiores reservas mundiais comprovadas de petróleo, sendo um agente internacional de grande significância no que diz respeito ao acesso a esse ativo essencial – assim como o Irã.

Não por acaso, as renovadas ofensivas do Governo Trump contra ambos os países indicam que, da sua perspectiva, desestabilizar os seus governos pode ser uma estratégia para comprometer o acesso da China aos seus recursos energéticos. Além disso, a postura norte-americana também pode ser entendida como uma reação ao gradual declínio da sua influência na Ásia, em grande medida uma consequência da pareceria entre russos e chineses no projeto da chamada “Grande Eurásia”.

Daniel Kosinski

Cientista político e membro do Instituto da Brasilidade.

Ticiana Alvares

Economista e membro do Instituto da Brasilidade.

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