Armamentismo na China e Índia

Opinião / 19:34 - 1 de out de 1999

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A China e a Índia estão vivendo uma corrida armamentista, conforme nos informa o Professor Thomas W. Zarzecki, da Universidade de Pensilvania (revista Strategy, setembro de 1999). A grande beneficiária é a indústria bélica russa, que nestes dois países encontrou um bom cliente para aliviá-la do desastre que se seguiu à queda do Muro de Berlim. Lembra o Professor Zarzecki, que este novo filão precioso poderá secar no dia que a rivalidade chino-indiana se agravar, pois nesse dia Moscou terá que optar por um dos dois. Como é sabido, com o fim do confronto bipolar, o complexo industrial de fabricação de armas e engenhos bélicos da antiga União soviética entrou em grave crise. A redução drástica dos efetivos e das despesas militares a que se viu obrigado o governo de Moscou, aliada ao desmoronamento do Pacto de Varsóvia, quase que esvaziou o mercado cativo desse complexo industrial. Em pleno calor da Guerra Fria, nos anos 80, as exportações da indústria bélica soviética alcançaram a média de 80 bilhões de dólares por ano. Após a queda do Muro, esta cifra de exportação caiu vertiginosamente para 3 bilhões. Situação calamitosa para o complexo industrial. Era preciso encontrar outro mercado importador de engenhos bélicos. A partir de meados desta década, a China e a Índia vieram a preencher o vazio, transformando-se nos grandes importadores de armas, engenhos bélicos, tecnologia sofisticada de radares, mísseis e armas nucleares. Há indisfarçável preocupação do governo dos "grandes" do Ocidente com as vendas da industria bélica russa. Inúmeras denúncias de venda clandestina ao Irã de suprimentos de alta tecnologia de mísseis balísticos e de agentes de guerra biológica vem inquietando os governos do Ocidente. A descoberta recente da extensão da espionagem chinesa nos Estados Unidos, visando a modernizar a missílica e a arma nuclear deste país asiático (conforme comentamos em artigo neste jornal de 19 de junho deste ano), está causando inquietação no governo de Washington. Desde meados desta década, a China vem se destacando como principal cliente da indústria bélica russa. A Índia, por sua vez, já detém a segunda posição, representando 20% das compras de armas, engenhos e alta tecnologia. Pelo Acordo de Cooperação Rússia-China, reativado em 1992, até o ano de 1996, o governo de Pequim comprou e adquiriu licença para fabricar o avião de caça SU-27: comprou 70 unidades e fabricou em associação com a indústria chinesa 200 unidades. Além desse empreendimento maior no ramo da aeronáutica, adquiriu grande quantidade de navios e equipamento naval, armas e carros de combate para o Exército, além de projetos e material para a indústria eletrônica e de radares. A Índia, a partir de 1994, no seu plano de modernização da Força Aérea, destinou 375 milhões de dólares para a compra de 125 aviões Mig-21 e mais um bilhão e oitocentos milhões de dólares para a aquisição de 60 caça-bombardeiros Sukhoi-Su. Esta é a importação principal, entre inúmeras aquisições para as forças navais e de terra. As informações que nos dá o Professor Zarzecki revelam uma profusão de cifras e tipos de armas e engenhos bélicos, convencionais e nucleares, comprados recentemente pelos governos de Pequim e Nova Delhi. Seria ocioso, num artigo, reproduzir-se todos essas dados. Mas eles servem para avaliar se a preocupação desses dos países asiáticos em se armar com as mais modernas armas. Enquanto isto acontece, enquanto as guerras proliferam no mundo, os nossos inocentes pacifistas continuam a afirmar que não haverá mais guerras, que não há porque o Brasil preocupar-se com defesa externa. O que vemos diante de nossos olhos no planeta, nos aconselha a acreditar cada vez mais no celebre ditado romano, "se vis pacem para bellum". Carlos de Meira Mattos General reformado do Exército e Conselheiro da ESG

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