Antes tarde...

Talvez o medo do fantasma da emissão de moeda nem deva ser tão grande assim.

Conversa de Mercado / 19:25 - 2 de ago de 2019

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O corte da taxa básica (Selic) para 6% na última reunião do Copom veio tarde, diante do cenário macroeconômico brasileiro. Como já dito em colunas anteriores, se fosse apenas pela meta de inflação, a redução teria vindo muito antes, mas o colegiado do Bacen estava focado em outra coisa: a aprovação da reforma da Previdência pelo Congresso.

Não era para tanto, o IPCA projetado pelo Boletim Focus é de 3,8%, abaixo da meta de 4,25%. Já as expectativas dos economistas de mercado quanto ao PIB, segundo o mesmo relatório, recuaram diversas vezes no ano e agora se encontram em 0,82%. Ora, para que penalizar mais a economia com juros mais altos se a inflação está mais que controlada? Apesar do cenário, o último corte ocorrera em março do ano passado. Ao menos, a decisão, apesar de tardia, foi tomada.

A política monetária brasileira parece mais preocupada com a questão fiscal que monetária, o que foi deixado claro nas reuniões anteriores do Copom. Mesmo com o cenário projetado pelos economistas ouvidos pelo Focus, o BC se mostra conservador quando o assunto é inflação. Exagero? O comunicado do Bacen destaca que com trajetórias para as taxas de juros e câmbio extraídas da pesquisa Focus, as projeções do Copom situam-se em torno de 3,6% para 2019 e 3,9% para 2020.

Esse cenário supõe trajetória de juros que encerra 2019 em 5,50% e permanece nesse patamar até o final de 2020. Também supõe trajetória para a taxa de câmbio que termina 2019 em R$/US$ 3,75 e 2020 em R$/US$ 3,80. No cenário com juros constantes a 6,50% a.a. e taxa de câmbio constante a R$/US$ 3,75, as projeções situam-se em torno de 3,6% para 2019 e 2020.

Mas, apesar de reconhecer que o nível de ociosidade elevado pode continuar produzindo trajetória prospectiva abaixo do esperado, o comunicado observa que uma eventual frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária. “O risco se intensifica no caso de reversão do cenário externo benigno para economias emergentes. O Comitê reconhece que o balanço de riscos para a inflação evoluiu de maneira favorável, mas avalia que o risco ainda é preponderante”, diz.

O comunicado deixa claro que a decisão está mais atrelada à reforma do que à meta de inflação, cujo cumprimento pode ser afetado pela não aprovação das reformas. No entanto, o que a não aprovação das reformas implicaria no retorno da inflação se o consumo continua em nível baixo e, portanto, há capacidade ociosa das empresas?

Será a tal armadilha fiscal da qual se tem tanto medo? É fato que o Governo Federal encontra dificuldade para manter a regra de ouro e suas contas em dia, porém também o é que a reforma da Previdência não terá impacto direto no curto prazo. Além disso, é preciso lembrar que a política monetária não é mais a mesma. Talvez o medo do fantasma da emissão de moeda nem deva ser tão grande assim. Outro ponto é que, com a inflação tão baixa e controlada, o maior problema não é o nível de preços, mas sim o comportamento da economia. Como já dizia a velha curva de Phillips, inflação mais baixa custa desemprego mais alto, e a taxa de desemprego no Brasil já não está em níveis recordes?

A decisão do Copom é vista como um alento para a economia no futuro, mas esse alento poderia ter vindo bem antes. O Bacen pecou por excesso de zelo e esse erro é tão ruim quanto o pecado por excesso de desejo de fomentar a economia. Crescer menos de 1% é não crescer. Política monetária conservadora com política fiscal contracionista não combinam e, quem perde é o PIB brasileiro.

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