A volta da Merposa

A onda envolve a tokenização de tudo, com criptoativos em tecnologia de blockchain.

Conversa de Mercado / 19:10 - 18 de out de 2019

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Nos anos 70, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ainda nem existia, o lançamento de novas ações no mercado levava a ganhos extraordinários semana após semana e, é neste contexto, que vem a lenda real da Merposa, sigla de Merda em Pó S/A, uma brincadeira que serviu para ridicularizar o movimento. Agora, a Merposa está de volta, transfigurada em milhares de promessas de rentabilidade muito acima do crível!

Os baixos níveis de rentabilidade dos ativos sem risco tornam o mercado mais propício a golpes ou manipulação de preços. Acabou a história de comprar títulos públicos que entregavam 12% ou 14% ao ano. A perspectiva é de nova redução dos atuais 5,5% da Selic para até abaixo de 5%. A segurança do investidor vai resultar em baixos ganhos. Pesquisa do App Renda Fixa que envolve uma base de 1.950 CDBs emitidos demonstra que o papel com menor rentabilidade, por exemplo, rende anualmente taxa de 2,99% líquida ao ano, o que significa um ganho real (acima do IPCA) de apenas 0,7% e bem abaixo da poupança (4,49% ao ano).

O problema é que, sempre nesses momentos, as pessoas buscam novas Merposas. Sem formação financeira e com os juros baixos, o brasileiro acaba sendo seduzido por uma abordagem pouco ortodoxa. As criptos e tokens de tudo são os que mais chamam a atenção no universo que a CVM denominou de mercado marginal. “O crescimento de produtos como os Initial Coin Offerings (ICOs), uso do Blockchain, entre outros, impõe aos reguladores um desafio constante de atualização”, afirma a revisão do planejamento da autarquia.

A onda envolve a tokenização de tudo, com o lançamento dos security tokens ou tokens de segurança. Estes últimos consistem em uma categoria de criptoativos em tecnologia de blockchain que estão atrelados ao desempenho dos mais diversos ativos. Os tokens representam uma fração pequena do total do ativo, o que os torna acessíveis a investidores e podem gerar liquidez ao ativo de referência. O problema é que há muitas ofertas que não são transparentes naquilo que oferecem ou o investidor nem se preocupa em saber.

O CEO da Hurst Capital, Arthur Farache, lembra que a tecnologia é segura, mas não necessariamente a parte do token se comunicando com a economia real proporciona a mesma segurança. Para isso, é preciso observar o blockchain no qual foi criado o token. Existem ferramentas online em que a pessoa digita o nome do token e consegue puxar o seu registro para ler as cláusulas do contrato. “Na ansiedade de obter o investimento, as pessoas não fazem isso. Como você vai comprar um negócio sem ver o que está comprando? É preciso ler o contrato de investimento”, observa.

Somente este ano, foram 11 emissões de stop order (suspensão) pela CVM. A última foi da Trader Group Administração de Ativos Virtuais Eireli, em 11 de setembro. A página tradergroup.com.br foi removida do ar por ordem judicial. A empresa, que atuava no mercado desde 2017, é acusada de pirâmide financeira. O esquema chegava a prometer ganhos de até 30% mensais. Estimativas dão conta que a Trader Group tenha lesado mais de 5 mil pessoas, provocando perdas de cerca de R$ 20 milhões.

Também em setembro deste ano, as atividades BlueBenx, que oferece alavancagem baseada em Bitcoin e criptomoedas, junto com a A2 Trader e NYC Technology, passaram a ser alvo da CVM, que abriu processo administrativo para investigação. E não é à toa a desconfiança. Não importa em que aplicam, mas sim que oferecem rentabilidades inexplicáveis perante a realidade atual. Na página da BlueBenx, por exemplo, cita-se o ganho de 170% no ano de 2018, com a chamada: quer começar a mudar o seu futuro hoje? Segundo o site, se o investidor tivesse aplicado R$ 5 mil em janeiro do ano passado, teria R$ 13.450,00 ao final de 2018.

Já a A2 Trader vai mais além e promete ganhos financeiros de até 4% a cada dia. Fundada pelo empresário Kleyton Alves em janeiro de 2019, a plataforma garante uma rentabilidade de 160% em apenas 40 dias e diz que seus lucros são fixos e garantidos. A proposta feita consiste em um investimento de R$ 500 ou 10 ações. O ganho total seria de R$ 300 em pouco tempo, pois após o ingresso na plataforma, a pessoa poder usufruir também do bônus de indicação: 10% no nível primeiro; 3% nível no segundo e 2% no terceiro. Além disso, o “investidor” pode fazer seu plano de carreira, ganhando prêmios em sua rede de indicados até o décimo nível.

Sempre atrás de alguma bolha, há uma excelente narrativa, mas separar o joio do trigo requer o bom senso do investidor que costuma achar que a próxima oportunidade sempre vai dar resultados diferentes.

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