A utopia liberal em xeque

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 18:10 - 16 de jan de 2020

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Uma análise concreta da situação efetiva/real é a alma para compreender e agir na conjuntura social presente. Neste contexto, no mundo dos países líderes, discute-se, entre os economistas da corrente hegemônica nos centros acadêmicos, a probabilidade de chegada de uma nova desaceleração cíclica, no meio de uma “estagnação secular” que exige juros nominais zero (reais negativos) e até políticas fiscais ativas para combater este fenômeno indesejado, mas inerente ao modo de produção capitalista.

Toda crise é o momento em que certas frações do capital sucumbem, dando lugar para aquelas frações vencedoras, numa espécie de “corrida do ouro”. A queima de capitais pouco rentáveis cria um novo ciclo e oportunidades.

 

Processos políticos e sociais no Brasil

buscaram consenso, e todos fracassaram

 

Na América Latina, o aprofundamento da crise social e econômica esquenta a temperatura política. No Brasil, o quadro não é diferente, e os indicadores da produção continuam provando a anemia do sistema produtivo tupiniquim. A crise econômica, que já se arrasta por vários anos, se revela na luta entre as frações internas do capital – focadas nas oportunidades no mercado de consumo interno, versus o capital rentista de caráter cosmopolita.

No centro do problema se encontra o destino sobre o controle do fundo público, financiado com impostos pagos pelas famílias mais pobres e o manejo da dívida pública geradora de renda para as famílias superavitárias do país.

Na conjuntura presente de aperto geral, até a venda de livros caiu 6,2% em 2019. As assinaturas de TV a cabo estão 20% menores, em relação a 2015. Pelos dados da última Pnad é possível afirmar a existência de 38 milhões de brasileiros (metade da população ocupada) na informalidade. Nesse quadro aflitivo, um único grama de ação bem coordenada vale mais que uma tonelada de teorias, na forma de medidas concretas que modifiquem o quadro de necessidades insatisfeitas da maioria.

Cada nação tem sua própria realidade. No nosso caso concreto, do fim da ditadura de 1964, até os dias atuais, todos os processos políticos e sociais no Brasil foram efetivados por meio da busca de consenso e, literalmente, todos fracassaram, gerando perdas de direitos para os trabalhadores.

Portanto, o debate entre reformistas social-democratas/social-liberais e segmentos revolucionários é muito atual hoje na terra da jabuticaba. Avançar nesta questão no âmbito das esquerdas vai exigir maturidade, pessimismo da razão (no diagnóstico) e, mais que tudo, o otimismo da ação prática.

Ranulfo Vidigal

Economista.

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