"A orgia dos yuppies"

Opinião / 16:01 - 3 de nov de 2000

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Ao final de 1929, a superaquecida Bolsa de Wall Street desmoronou-se, arrastando consigo a economia mundial. Imensas fortunas se desfizeram da noite para o dia e as ruas das principais cidades do mundo encontraram-se inundadas por milhões de desempregados. Como reação ao excesso de liberdade que havia conduzido ao "crack" da bolsa, iniciou-se uma nova era de regulações e controles por parte do governo norte-americano.. Durante anos, a supervisão e regulamentação dos mercados financeiros foram a tônica dominante. Em 1º de maio de 1975 esta tendência começou a reverter-se. Nesta data deu-se inicio, nos Estados Unidos, a um processo de desregulação paulatino. A aceleração que começou a ocorrer nas transações financeiras, sob este novo ambiente de abertura, chegou a inquietar a alguns investidores. Em 1978, o Prêmio Nobel de Economia, James Tobin, lançou um alerta contra um mecanismo de transações que, a seu juízo, estava adquirindo demasiada agilidade. Para ele era necessário colocar um pouco de areia na engrenagem para mantê-la frenada. Propôs entre outras medidas, a criação de um imposto de 0,5% sobre transações financeiras, cada vez que os capitais cruzassem uma fronteira. Longe de seguir o seu conselho, o mercado bursátil norte-americano acelerou o seu processo de desregulamentação com a chegada de Ronald Reagan ao poder. A Inglaterra de Margaret Tatcher, sempre disposta a seguir seus exemplos de liberalização econômica, iniciou a desregulação do seu mercado bursátil em 1986, o que foi denominado de "big bang" da Bolsa de Londres. Daí em diante este novo rumo começou generalizar-se e as transações financeiras adquiriram um extraordinário dinamismo. As principais bolsas do mundo, funcionando continuadamente as 24 horas do dia (umas abrindo enquanto outras fechavam ao redor do planeta), evidenciavam para o ano seguinte (1987) níveis de intercâmbio entre 150 e 300 bilhões de dólares, por dia. Enquanto a euforia se apoderava dos mercados, a borbulha financeira ia se inflando cada vez mais. Bastava a ocorrência de uma má notícia para que todo o sistema cambaleasse e sentisse seus efeitos malévolos. Em outubro de 1987, as bolsas do mundo inteiro encontravam-se ante uma situação de pânico. O déficit comercial norte-americano, muito maior do que o previsto e a alta das taxas de juros na Alemanha, bastaram para sacudir o mercado em suas bases. Somente em um dia (19 outubro) o índice Dow-Jones perdeu 508 pontos. Um bilhão de dólares foram perdidos pelos Estados Unidos como resultado dessa crise. A invasão do Kuwait, pelo Iraque, em agosto de 1990, deu origem a uma segunda crise nos mercados, embora menos violenta do que a anterior. Entretanto, apesar dessas advertências, o mercado continuou crescendo e reaquecendo-se cada vez mais. Aproximadamente três trilhões de dólares se mobilizam diariamente nos mercados bursáteis do mundo de hoje, ao amparo da moderna tecnologia de instantaneidade das comunicações e sob o ambiente de "laissez-faire" imperante. O volume de dinheiro que as bolsas manejam é simplesmente incomensurável. A revista Veja, em sua edição de 29 de março de 1995, chegou a afirmar que pelos mercados de ações do mundo circulam 32 trilhões de dólares o que, por sua própria magnitude, custa-se a crer e muito mais a assimilar. A revista Business Week, edição de 12 de dezembro de 1994, em um trabalho entitulado "A Nova Era do Dinheiro", faz uma asseveração capaz de eriçar os pelos do mais frio analista: "a definição do dinheiro, como conceito, corre o risco de perder todo o significado". A razão desta afirmativa é muito simples: a combinação entre uma economia de papel e a proliferação de instrumentos de alta tecnologia, que permitem a mobilização quase instantânea de bilhões de dólares, estão conduzindo a níveis de abstração difíceis de serem manejados pela mente humana. Um novo tipo de produto financeiro, os chamados "derivados", torna-se particularmente perigoso em relação a advertência formulada pela revista Business Week. Combinando o raciocínio matemático e o sentido tradicional das apostas e contando com a ajuda de supercomputadores, montam-se modelos de inversões "derivativas" cada vez mais complicados. George Soros, um dos especuladores bursáteis mais ricos do mundo, assinalou o seguinte: "O crescimento explosivo de instrumentos derivativos traz grandes perigos. Eles são muitos e alguns deles tão exotéricos que os riscos envolvidos podem não ser adequadamente compreendidos, inclusive pelo mais sofisticado dos investidores". Os riscos que trazem os instrumentos derivativos não se fizeram esperar. A lista de perdas geradas através destes títulos nos últimos anos são impressionantes. O veterano investidor bursátil Michael Steinhardt perdeu aproximadamente um bilhão de dólares. A companhia alemã Mettalgesellschaft perdeu, também, outro bilhão. O Bankers Trust fez seus clientes perderem - entre eles a Procter & Gamble - ao redor de quinhentos milhões. O financista David Askin e o Condado de Orange, na Califórnia, perderam cada um dois bilhões. George Soros, anteriormente citado, teve uma perda de seiscentos milhões. O Banco Barings acabou falindo após haver perdido mais de um bilhão de dólares. Não é sem razão que numerosas vozes insistem em uma nova era de supervisão e regulação dos mercados financeiros. Alan Greenspan, quando presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, opôs-se taxativamente a esta possibilidade, aduzindo as virtudes do liberalismo econômico. Com um maior sentido comum, entretanto, um homem do meio econômico financeiro como George Soros tem insistido na imperiosa necessidade de supervisionar e regular. Segundo ele, "Os mercados financeiros são inerentemente instáveis e suscetíveis de quebra, salvo quando a estabilidade seja introduzida como um objetivo explícito de política governamental." O reconhecido economista e ex-primeiro ministro francês, Raymond Barre tem freqüentemente advertido que se não nos utilizarmos dos instrumentos de regulação e controle, em nível mundial, brevemente enfrentaremos um novo "crack". E, mais ainda, tem assinalado o seguinte: "Não podemos deixar o mundo em mãos de um bando de irresponsáveis de trinta anos que só pensam em fazer dinheiro". Diante deste curioso cenário, cabe-nos perguntar: Até quando poderá persistir a situação atual no que concerne aos mercados financeiros especulativos? Até quando a "orgia dos Yuppies" permanecerá sem controle neste mundo globalizado? Manuel Cambeses Júnior Chefe da Divisão de Assuntos Internacionais da Escola Superior de Guerra.

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