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A maldição do pibinho

Crescimento médio do PIB na década atual ficará abaixo de 1%.

Conversa de Mercado / 22 Março 2019 - 19:12

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Se os anos 80 foram chamados de década perdida, o que se dirá desta última década que se encerrará ano que vem. Enquanto o crescimento médio do PIB nos anos 80 foi de 1,7%, em 90 de 2,6% e entre 2000 e 2010, de 3,6%, agora a média simples de incremento fica abaixo de 1%, mesmo que a economia atinja a estimativa de crescer mais de 2% este ano. No cálculo, pesa a crise econômica, sem precedentes dos anos 2015 e 2016, que registraram uma contração da economia de mais de 3% cada. No entanto, mesmo após a mudança de governo que levou à alteração de política econômica, não houve e não há condições para a recuperação das perdas passadas. O problema? A postura dos políticos.

O governo do atual presidiário Michel Temer iniciou uma série de reformas para tentar minimizar os buracos fiscais de Dilma; no entanto, não obteve apoio suficiente para as mudanças necessárias. Um dos maiores opositores da reforma da Previdência era Bolsonaro, que agora prova do próprio veneno. O bate cabeça entre os políticos atrasa as negociações para a aprovação da reforma, tida como tábua de salvação para as contas públicas. Enquanto o circo pega fogo com Maia, o presidente comemora o ganho de seguidores no Twitter. Esquece-se no Brasil que a economia depende da política e, no quadro, atual, a política se transformou em uma guerra de mídias sociais.

Não é à toa que semana após semana, as perspectivas de crescimento da economia brasileira se contraem. O Ministério da Economia reduziu a previsão de incremento do PIB, de 2,5% para 2,2%. A falta de demonstração de força do governo pesa. Pioram a confiança do consumidor e ainda mais a do empresário. Segundo os dados da FGV (Monitor do PIB), recém-divulgados, o PIB cresceu apenas 0,3% de dezembro de 2018 para janeiro deste ano. Na comparação com janeiro de 2018, a alta chegou a 1,1%.

A abertura da análise dos dados da GV demonstra que o retorno da confiança não aconteceu com a eleição de Bolsonaro. Sob a ótica da demanda, na comparação de dezembro para janeiro, o consumo dos governos cresceu 3,6%, e o consumo das famílias, apenas 0,7%. Ora, é claro que, sem consumo, não há investimentos nem geração de empregos. Tanto que a formação bruta de capital fixo recuou 1,8%. Para que expandir negócios se não há para quem vender? No período, as exportações cresceram 10,7%, e as importações, 9,3%.

Chama a atenção o aumento dos gastos dos governos como um dos impulsionadores do pífio incremento do PIB no mês. Não existe crise fiscal? Não era para ocorrer o contrário? Outra questão é que, se a economia não cresce, a arrecadação também não. Assim, com menos receita e mais despesas, o déficit tende a se agravar.

O próprio Ministério da Economia já levantou a bola neste sentido, ao anunciar esta semana um corte de R$ 29,792 bilhões nas despesas do Orçamento de 2019. A meta fiscal deste ano é de déficit de até R$ 139 bilhões. A redução está relacionada ao descasamento entre receita e gastos. Enquanto a primeira cai, há o incremento das despesas obrigatórias, o que compromete ainda mais as contas do governo. A previsão de receita primária do Orçamento do Governo Federal despencou R$ 29,4 bilhões e, a previsão das despesas primárias obrigatórias subiu R$ 3,61 bilhões.

Enquanto o governo brinca de governar, e o bate cabeça permanece, a economia sofre as consequências. Até agora, as medidas não saíram do papel. Pelo contrário, para quem prometia déficit zero em dois anos, se conseguir cortar algo já é lucro. Resta vender estatais para queimar o dinheiro ou pedir, novamente, a grana do BNDES de volta (R$ 126 bilhões) e nada mais. A política envenenou a economia e a maldição do pibinho de uma década que será mais do que perdida está aí para provar.

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