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A independência do Banco Central e a crise de 2008

Por Silvio Figer.

Opinião / 21:21 - 07 de Jun de 2019

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O tema da independência do Banco Central mantém-se pendente de uma decisão, agora ofuscado pela reforma da Previdência. No entanto, pela sua relevância, deve-se estar sempre atento à questão, uma vez que seu retorno ao centro do debate econômico é recorrente.

Seus defensores propõem que a economia estaria melhor guardada das crises caso os dirigentes do BC tivessem carta branca para agir (de facto e de jure) apelando a dois argumentos: (1) o BC estaria a salvo dos oportunismos políticos do Legislativo, e do Executivo; e (2) o mercado funcionaria melhor, garantido pela previsibilidade das políticas monetárias e cambial que estimularia decisões de investimento. Propositura e argumentos pecam pela negação da realidade, que espanta pelo notório saber dos propositores. Basta olhar para a crise de 2008.

O epicentro daquela crise foi, exatamente, o ícone máximo dos BCs independentes: o Fed (Federal Reserve – banco central norte-americano). Seria, talvez, matéria de debate, esta responsabilização? Longe disto. Trata-se de conclusão pacificada pela FCIC (Financial Crisis Inquiry Comission), CPI criada pelo governo norte-americano, para apuração de causas, e responsabilidades, no desenvolvimento da crise.

 

Quem ainda tem dúvidas deve olhar a

comissão que investigou atuação do Fed

 

Por que nenhum dos atuais, e ex, presidentes e diretores do nosso Bacen jamais mencionou este tesouro de informações reais, verificadas e comprovadas, sobre as consequências de um Banco Central independente? O leitor, e, sobretudo, os senhores congressistas, estão convidados a acessá-lo, digitando “FCIC” em seu mecanismo de busca – e então cobrarem melhores explicações de nossos banqueiros centrais. Adiantam-se, abaixo, as linhas gerais.

Instalada em setembro de 2009, foi composta por dez membros e presidida por Phil Angelides, ex-secretário do Tesouro da Califórnia, sexta maior economia do mundo. Foi seu objetivo examinar as causas da crise, e fornecer uma explicação das razões que levaram o sistema financeiro, e a economia norte-americana, à beira do precipício (termo utilizado pela Comissão).

Para tanto analisou milhões (isto mesmo, milhões) de documentos, entrevistou mais de 700 testemunhas (banqueiros privados, banqueiros centrais e membros das diversas agências reguladoras do governo) e realizou 19 audiências públicas, em Nova York, Washington D.C. e outras comunidades atingidas pela crise, formando um panorama nacional do evento e de suas razões.

Todo este trabalho está disponível em vídeos impactantes. Muito se aprende sobre o modus operandi de um BC independente, por exemplo, no depoimento gravado de Dick Fuld, presidente do falido Lehman Brothers, à época de sua liquidação pelo Fed.

À medida que o trabalho avançava, e após a sua conclusão, Phil Angelides manifestou-se com espanto e indignação em relação à total incompetência do Fed no trato da evolução descontrolada das condições de crédito e das repercussões deste descontrole sobre a fragilização sistêmica do sistema financeiro.

A conclusão final da FCIC, entregue em 27 de janeiro de 2011 (662 páginas, disponíveis para download), adotada pela maioria de seis de seus membros constituintes, manifestou-se pela clara responsabilização do Fed. E mesmo os quatro votos dissidentes reconheceram a bolha de crédito como causa da crise, apesar de divergirem quanto às causas da bolha. E se um BC não serve para evitar a criação de bolhas de crédito, independentemente de suas causas, então para que serve?

Ainda, se alguma dúvida restasse, da inconveniência da independência do BC, esta se dissiparia pelas declarações públicas de Alan Greenspan, pontífice dos banqueiros centrais independentes: “Nunca imaginei que isto pudesse acontecer.” A isto chama-se de previsibilidade?!

Adicionalmente, se os senhores congressistas quiserem confirmar o papel que lhes é reservado perante um BC independente, busquem na rede os depoimentos de Ben Bernanke (presidente do Fed à época) e Henry Paulson (secretário do Tesouro), perante comissões do Congresso norte-americano, quando os primeiros solicitavam a liberação imediata de US$ 700 bilhões do Tesouro para salvamento dos bancos. A colocação de ambos era clara: ou os senhores autorizam ou a economia norte-americana pára. Autorizaram. Simples assim.

É surpreendente que, decorridos apenas 11 anos, e juntadas evidências tão contundentes sobre a irresponsabilidade do Fed, ainda haja quem defenda a independência destas autarquias.

 

 

Silvio Figer

Consultor.

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