A Europa tem um papel interlocutório na crise iraniana?

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 22:43 - 24 de jan de 2020

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A crise iraniana, que corre o risco de degenerar em um conflito de larga escala, entre Washington e Teerã, já produziu vários resultados tangíveis e, dentre esses, provavelmente, também, há o (quase) golpe de graça final dado ao notório Acordo Nuclear Iraniano, que já estaria morrendo após a retirada unilateral dos Estados Unidos do mesmo. Na realidade, a saída de Washington não encerrou automaticamente o pacto que vê, como partes contratantes, a presença da União Europeia, Rússia, China, Alemanha, Reino Unido, França e, claro, do Irã. Os parceiros europeus, mas geralmente a comunidade internacional, provavelmente não têm interesse no desenvolvimento de armas nucleares por parte de Teerã e devem tentar fazer todo o possível para sarar o que resta do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês). Ministros das Relações Exteriores de Berlim, Paris e Londres se reuniram, no dia 6 de ferreiro, em Bruxelas, para tentar desenvolver uma resposta à crise em curso.

Uma única linha

O alemão Heiko Maas exortou outras potências europeias a implementar uma resposta coordenada à decisão de Teerã de violar os limites do enriquecimento de urânio previstos pelo acordo, enquanto seu colega francês, Jean-Yves Le Drian, afirmou que a substância do pacto está desaparecendo lentamente e será necessário decidir se deve iniciar um procedimento formal de infração contra o Irã, o que poderia culminar na imposição de sanções, por parte das Nações Unidas. A evolução da situação, na realidade, está intimamente ligada à conclusão da crise que opõe Washington e Teerã. As nações do Velho Continente, de fato, são relativamente marginais no cenário atual e o foco da questão, agora, mudou da diplomacia para o risco de um conflito armado entre as partes que, se se materializar, estaria destinado a subjugar qualquer resíduo de entendimento.

As perspectivas

O caso do nuclear iraniano, de fato, destaca a mudança progressiva, iniciada há várias décadas, do centro político mundial da Europa para os Estados Unidos e que, com toda a probabilidade, sofreu uma aceleração adicional, devido à tomada de decisões da política externa do país, pela administração Trump. Os aliados europeus, em várias ocasiões, pareciam particularmente irrelevantes quando Washington, em primeiro lugar, tendia a satisfazer seus próprios escopos e objetivos, preferindo o unilateralismo ao multilateralismo. O acordo entre Teerã e o resto da comunidade internacional, indesejado por Washington, provavelmente fracassará, apesar dos esforços das nações do Velho Continente, para prolongar sua vida. A única saída da situação atual parece, no momento, um improvável fortalecimento da União Europeia, o que poderia levar à criação de um polo alternativo no cenário mundial e, portanto, também, levar a remover iniciativas políticas da mão única de Washington ou Moscou. Esta perspectiva parece, no entanto, difícil de alcançar: conciliar as prioridades políticas dos vários e numerosos Estados-Membros da União Europeia exigiria, de fato, um fortalecimento das instituições comunitárias atualmente fora de alcance e que, de qualquer forma, exigiria a vontade dos próprios participantes. Parece, portanto, provável que, mesmo em um futuro próximo, a voz da Europa continue fraca, e isso marginalizará cada vez mais as posições políticas do Velho Continente.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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