A economia nas eleições 2000

Opinião / 15:38 - 30 de out de 2000

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O lado mais pedagógico destas eleições é que seu resultado não pode ser associado aos conceitos tradicionais de vitória de esquerda, direita e centro. Não estou dizendo que já não existem pessoas que se consideram de esquerda, de direita ou de centro. Estou dizendo que a maioria das pessoas já não escolhe seus candidatos em função disso. E não é porque as pessoas não estão politizadas. É justamente o oposto. As pessoas estão tão politizadas que requerem dos políticos mais do que uma correlação ideológica no mínimo vaga, e em grande medida anacrônica. O PT, não a esquerda ou as esquerdas, ganhou as eleições nos centros mais populosos. Ganhou com seu discurso tradicional, e sem qualquer concessão de princípio, a meu juízo. Outros partidos tradicionalmente alinhados à esquerda também ganharam as eleições. No conjunto, teria sido, pelo menos nas maiores cidades, uma grande vitória da esquerda, com implicações óbvias para 2002. Alguns cientistas políticos estão pensando assim. Arriscam a dizer que o PT ganhou, onde ganhou, porque se aproximou mais do centro. É que, segundo eles, a maioria do povo prefere o centro. Como não sou cientista político, mas economista, posso me dar ao luxo de discordar apelando para a objetividade - isto é, sendo mais cientista e menos político. Em primeiro lugar, se a opção de esquerda ou de centro é realmente relevante para o eleitorado, seria importante identificar o que exatamente deve significar para o povo o conceito de esquerda. E aí nos encontramos diante de uma real dificuldade: os que têm maior legitimidade para dizer o que é esquerda são os próprios esquerdistas, mas eles não conseguem entrar em acordo quanto a um elemento essencial do seu discurso - isto é, a economia política. Por exemplo: o senador Roberto Freire foi para a televisão dizendo que, no segundo turno no Rio, César Maia era a opção de esquerda. Fiquei espantado, mas a questão talvez fosse esclarecida se ficasse decidido, como asseguram vários outros esquerdistas de carteirinha, que Roberto Freire não é de esquerda - um ex-comunista ainda um pouco tonto diante da derrocada do socialismo real. De minha parte, tendo em vista o próprio argumento deste artigo, preferia entregar de bandeja o título de esquerda para Roberto Freire e similares, já que eles se sentem tão à vontade com ele, a fim de buscar outro que não fosse um rótulo, mas que revelasse logo seu conteúdo. A verdadeira esquerda, a esquerda histórica, se distinguia pela luta pela justiça social. Isso sempre passou pela crítica da economia política. Uma parte da esquerda histórica contemporânea trai essa tradição secular quando se nega a ver, por exemplo, as implicações para a economia política que a eleição de um César Maia no Rio tem para as eleições presidenciais de 2002. César era um candidato do sistema, assim como seu grande apoiador, Ciro Gomes. Não estou dizendo que sejam a favor do Governo: são contra o Governo. Mas são, ambos, a favor do sistema econômico que está aí, e da política econômica que lhe dá suporte - e que eles cuidadosamente não criticam, porque acreditam que a estabilidade monetária (aprovada pelo povo) é um atributo desta política. Ser contra o Governo, porém, tanto para César quanto para Ciro, é uma condição para ganhar eleições - inclusive a eleição de 2002. Um rápido exercício de análise política nos permite concluir que a eleição de 2002 será muito semelhante à de 1989: com o crescente e inexorável desgaste do Governo, será provavelmente disputada entre dois candidatos oposicionistas, um representando uma mudança em favor das massas, outro representando a continuidade da política econômica de favorecimento aos ricos. Está muito claro para mim quais são esses candidatos. Os esquerdistas do Rio que sugeriram à população votar em César Maia deram um tiro no próprio pé. Em 2002, o inimigo não será o PFL (carta fora do baralho), mas Ciro Gomes. Das eleições do Rio pode-se tirar outras lições que estão sendo ignoradas pelos cientistas políticos. Como se explica que aqui, a mais politizada cidade do Brasil, as "esquerdas" tenham ficado fora do segundo turno? Dado que não se pode culpar o povo, que não é nem pior nem melhor que o de São Paulo, o único culpado possível são as próprias esquerdas e seus candidatos de baixa credibilidade. É que não entenderam ainda, aqui, que não basta o rótulo de esquerda para ganhar eleições - como também não basta, como ficou provado, ser contra o Governo federal, como Brizola pensou. Houve uma sabedoria implícita no comportamento eleitoral no sentido de não nacionalizar a campanha. Para quem costuma pensar o Brasil nacionalmente (como este escriba), isto pode ser um pouco decepcionante, pois gostaríamos de ver 2000 como um recado claro de desaprovação do Governo FH e dos seus partidos de sustentação, e como uma prévia de uma vitória oposicionista acachapante em 2002. Entretanto, o povo, sabiamente, preferiu eleger prefeitos para cuidar dos seus problemas municipais, e não simples opositores do Governo federal. Houve outros dois importantes alinhamentos de caráter nacional, sim, mas também vinculados à realidade municipal: ética e competência administrativa. Um certo tipo de estratificação dos resultados mostra que o PT ganhou relativamente nos grandes centros populacionais, o PSDB nas cidades médias (de 62 mil a 200 mil habitantes) e o PMDB e PFL nas menores (onde ase concentra cerca de metade da população brasileira). Isso daria um certo equilíbrio na disputa de 2002. É uma análise política de contador, não obstante grandes políticos às vezes se deixarem levar por ela. Ulysses Guimarães, por exemplo, achava que o fato do PMDB ter mais de quatro mil prefeituras e quase duas dezenas de governadores, e mais milhares de vereadores e outros parlamentares, seria decisiva para sua vitória na campanha presidencial de 1989. Contou mais, como se viu, sua íntima associação com um Governo que havia perdido totalmente a credibilidade pública. Da mesma forma como não se nacionalizou a campanha municipal de 2000, é muito pouco provável que se municipalize ou estadualize a campanha presidencial de 2002. E não será, mais uma vez, uma campanha de direita contra a esquerda, ou de centro-esquerda contra centro-direta. Será uma campanha a favor ou contra o Governo federal, cuja credibilidade provavelmente estará tão ou mais baixa que hoje, sob o peso da recessão prolongada e do alto desemprego. A escolha decisiva, porém, não se esgotará aí - como não se esgotou no primeiro turno de 89. Será, sim, uma escolha entre dois candidatos que se apresentarão, ambos, contra o Governo, um representando uma alternativa de política econômica, outro, sua continuidade. De um lado progressistas sociais, de outro conservadores econômicos. Por linhas transversas, o Rio antecipou de uma forma caricata o grande risco eleitoral de 2002, ao optar por mudar a cara, sem mudar efetivamente o conteúdo. J. Carlos de Assis Jornalista e economista

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor