A curiosa falta de curiosidade

Por Roberto Pereira D’Araujo.

Opinião / 18:15 - 9 de set de 2019

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Esse artigo não trata do setor elétrico. O site do Ilumina está repleto de números, análises e fatos sobre esse serviço tão essencial ao Brasil. Hoje, para variar, o tema é uma característica que poderíamos chamar de cultural ou sociológica, a falta de curiosidade de uma sociedade.

Antes que alguém argumente que o problema central é educação, tese de que não discordamos, pelo menos aqui, essa não é característica divisória. O que se vê é que, mesmo nas classes mais educadas, há essa espécie de ausência de curiosidade sobre a própria história econômica do Brasil. Muito estranho e curioso porque, hoje, com a internet, esses números estão acessíveis para todos que tenham “curiosidade”.

Por exemplo, dia 9 de setembro, a manchete do jornal Valor: “Guedes quer vender todas as estatais”

 

Privatização é similar à da década de 90;

sem indícios de que final será diferente

 

Curiosidade número 1: A frase já é impressionante, pois, se a intenção é fazer com que a economia brasileira alcance os padrões de países desenvolvidos, seria natural ficar curioso sobre a existência de estatais nessas economias.

Essa curiosidade pode ser satisfeita numa simples consulta à Wikipedia, que não é exatamente a perfeição, mas o suficiente para deixar evidente que todos os países têm empresas controladas pelo governo. Sugerimos consultar Alemanha, França, Canadá, Estados Unidos, Coréia do Sul como exemplos.

Curiosidade número 2: Seria natural perguntar se o Brasil já passou por um processo de privatização de estatais e se foi algo significativo. Essa curiosidade pode ser satisfeita a partir de dados do BNDES, que foi o órgão responsável pela privatização da década de 90 e já foi divulgado no site do Ilumina.

O mundo nunca registrou um processo semelhante em tamanho e realizado em tão curto prazo. Para se ter uma ideia da enorme dimensão do Plano Nacional de Desestatização (PND) e das privatizações estaduais, eis a lista de algumas empresas vendidas por setor (dados do BNDES). Esses dados incluem privatizações realizadas até 2006, portanto incluindo o governo Lula.

Siderurgia – Usiminas, Cosinor, Piratini, CST, Acesita, CSN, Cosipa e Açominas.

Petroquímica – Petroflex, Copesul, Copene, Polisul, Petroquímica União, Polipropileno, Álcalis e mais 19 pequenas indústrias.

Fertilizantes – Indag, Fosfértil, Goiásfértil, Ultrafértil, Arafértil.

Elétrico – Escelsa, Light, Gerasul, Cerj, Coelba, Cachoeira Dourada, CEEE, CPFL, Cemat, Energipe, Cosern, Celpe, Cesp Paranapanema, Cesp Tietê, Cemar, Eletropaulo.

Transportes – Malhas da Rede Ferroviária Federal, Mafersa, Ferroeste, Metrô, Conerj, Flumitrens, Menezes Cortes.

Mineração – Caraíba, Vale do Rio Doce.

Portos – Santos, Capuaba, Sepetiba, Rio, Angra, Salvador

Financeiro – Meridional, Banespa, BEG (Goiás), BEA (Amazônia), BEM (Maranhão), BEC (Ceará), Bemge (Minas), Bandepe (Permanbuco), Baneb (Bahia), Banestado (Paraná).

Gás – CEG, Riogás, Comgás, Gás Nordeste e Gás Sul.

Outros – Embraer, Datamec.

Telecomunicações – CRT (Rio Grande do Sul), Telesp, Tele Centro Sul, Tele Norte Leste, Embratel, Telemar.

Curiosidade número 3: Qual foi o resultado dessa verdadeira liquidação?

Também pode ser satisfeita a partir de dados do BNDES: Total arrecadado US$ 105.898 milhões de dólares.

Curiosidade número 4: Como esse número se compara com outras grandezas da economia brasileira? A preços de hoje, esse valor equivale a aproximadamente R$ 350 bilhões. Uma comparação curiosa! O gráfico mostra a evolução da renúncia fiscal do governo nos últimos nove anos. É possível ver que bastam dois anos dessa renúncia para atingir o valor arrecadado pelas quase 80 empresas estatais.

Atenção: Não estamos defendendo a tese de que essas empresas não devessem ser vendidas! Estamos apenas “curiosos” sobre a nossa expertise no complexo negócio da privatização de empresas construídas pelo estado.

Curiosidade número 5: Qual foi o impacto desse processo na dívida pública brasileira?

Curiosidade satisfeita com base em dados do Banco Central. O gráfico mostra a dívida como porcentagem do PIB diferenciada por cores conforme os governos.

Curiosidade número 6: E a carga fiscal, como evoluiu?

O gráfico mostra que ela saltou de 28,5% para quase 37% em pouco mais de dez anos, apesar de ter se reduzido ligeiramente a partir de 2015.

Curiosidade número 7: Existe alguma relação entre investimento público (aí incluído o investimento das estatais) e o crescimento do PIB? Curiosidade satisfeita a partir de dados do IBGE:

Investimento público médio 1948–1989 como % do PIB: 9,38%

Crescimento médio do PIB 1948–1989: 6,4% ao ano.

Investimento público médio 1990–2018 como % do PIB: 5,47%

Crescimento médio do PIB 1990–2018: 1,1% ao ano.

Curiosidade número 8: Na atual situação do país, onde o setor público irá reduzir seu investimento quase a zero e sem as estatais que serão vendidas, o que acontecerá com a economia brasileira? Essa curiosidade nós não podemos responder. Só é interessante chamar a atenção de que o processo da década de 90 é muito semelhante ao atual e nós não percebemos nenhum indício de que dessa vez será diferente.

O que é curioso é a falta de curiosidade!

Roberto Pereira D’Araujo

Engenheiro, é diretor do Ilumina.

Artigo publicado em ilumina.org.br

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